Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

sexta-feira, 30 de junho de 2017


VIDA SALVA POR LIVROS


Há quatro décadas e meia eu era médico no Gil Eannes. Em julho, a frota dividiu-se e eu fui colocado no Neptuno, um navio de pesca à linha que integrou o grupo das embarcações que resolveram tentar a sorte na Gronelândia. O navio hospital voltou para sul, em direção aos bancos da Terra Nova.


O terceiro máquinista do Neptuno era um jovem folgazão, de pele rosada e rosto redondo Lembro que fazia lembrar um personagem alegre da série televisiva “Bonanza”, em voga na época. Via-se que iria ser gordo na meia-idade. Parecia uma pessoa normal, mas aconteciam-lhe coisas pouco comuns, que dificilmente encontram justificação nas estatísticas. Adotaria comportamentos de risco, capazes de atraírem o azar. Uma vez, rebentou a máquina de fazer óleo de fígado de bacalhau, que ele estava a reparar. A explosão deu-se para trás e ele não sofreu nada. Noutra ocasião, um pacote pesado despendeu-se do pau de carga e caiu-lhe mesmo aos pés. Se tivesse avançado um passo, morreria ali. 
Calhou-me estar por perto quando a morte o desafiou pela terceira vez.
Naquela época, a temperatura da água do mar rondava os 2 graus centígrados e os icebergs derretiam devagar. Corriam histórias de pescadores que caíam à água e eram imediatamente recolhidos. Não tinham tido tempo para se afogarem, mas já estavam mortos ao serem resgatados. Era o choque térmico. O coração recusava continuar a bater ao ser confrontado bruscamente com o frio extremo.
Ali, no verão, era sempre dia. Ganhei o hábito de, por volta das 22.30, correr a cortina da vigia e acender a luz do camarote, para fingir que era noite.
Um dia, já me me tinha sentado para jantar e acabava de ser servida a sopa. Um marinheiro entrou a correr na pequena sala de refeições dos oficiais. Gritou:
− O terceiro de máquinas caiu ao mar. Já foi recolhido.
Levantei-me e corri, com um aperto no coração. Receava confrontar-me com o cadáver dum jovem.
− Para onde é que o levaram?
─ Para o camarote dos maquinistas.
A distância era curta e, menos de um minuto depois, estava ao pé dele. Encontrava-se no chuveiro, a cantarolar, como se nada lhe tivesse acontecido.
Tinha ido substituir a luz do mastro da popa do navio. Levava na mão uma chave de fendas e um alicate e voltou com eles para bordo.
Não se entende como alguém se pode deixa cair, com bom tempo, de um mastro à água. Se o mar estiver mau, a tarefa adia-se. Qualquer pessoa normal se agarraria com mãos e pernas.


Por sorte, ou milagre, encontrava-se um dóri mesmo ao lado. Era de outro navio. O pescador apanhou-o antes dele se afogar. 
Há meia dúzia de meses fui ao museu Marítimo de Ílhavo fazer uma conferência sobre a minha experiência como médico do Gil Eannes. Tive a oportunidade de conhecer um jovem que se apresentou como neto do pescador que tinha salvo a vida do maquinista. O avô embarcara num navio cujo nome não fixei. Gostava de ler e trocava livros com um amigo que tinha no Neptuno. Como as embarcações andavam perto, aproveitara a oportunidade para entregar volumes lidos e recolher outros novos. O jovem folgazão sobrevivera porque, naqueles mares gelados, havia quem gostasse de ler.

domingo, 18 de junho de 2017


DEMÊNCIA E EUTANÁSIA*

III 


As nossas ideias sobre a vida e a morte têm evoluído.
Nos anos cinquenta do século passado, foi descrito um estado de coma em que o tronco cerebral deixava definitivamente de funcionar, enquanto as funções cardíacas e renais se mantinham, desde que fosse fornecida ao corpo ventilação artificial e alimentação parentérica. Considerou-se que esses doentes já não viviam. Era um conceito de morte inteiramente novo, permitido pela evolução tecnológica. Foi necessário estabelecer critérios clínicos que a definissem, sem margens de erro, para evitar especulações. Uma equipa da Universidade de Harvard estabeleceu, em 1968, os primeiros critérios de coma irreversível, equivalente à chamada “Morte cerebral”. Ainda hoje variam um pouco, conforme os países.
A ideia de que uma pessoa morre quando morre o seu cérebro rompeu com o modo como as civilizações encaravam o fim da vida, que fora sempre definida pelo cessar dos batimentos do coração. Apesar das implicações religiosas, éticas, legais e sociais da nova maneira de pensar, a mudança impôs-se de forma relativamente rápida e pacífica.
Ora, o nome foi mal posto. O encéfalo compõe-se de cérebro, cerebelo e tronco cerebral e não são apenas as funções cerebrais que cessam.
A crítica à obstinação terapêutica desenvolveu-se quase na mesma altura. O médico devia abster-se de tratar, quando já não existiam possibilidades de curar, melhorar, ou atenuar o sofrimento dos doentes.
A evolução da demência é impressionante. A dada altura, os doentes nem o cônjuge reconhecem. Lembro-me de uma senhora muito educada que, numa fase adiantada da doença, dizia respeitosamente ao marido: «Não percebo o que é que o senhor está a fazer na minha cama».


A perda da afetividade acompanha a deterioração da capacidade de raciocínio. Vai, tudo, piorando aos poucos. Às tantas, não se ama ninguém, não se conhece ninguém e não se entende nada do que se passa em volta. O doente ignora-se a si próprio. Deixa de ter alma. Para os não crentes, como eu, alma é a mente ou psique, o resultado do funcionamento normal do cérebro.
Eu julgo que é preciso estabelecer outro conceito de morte. De certo modo, será aperfeiçoar o que já existe. Esta, sim, será a «morte cerebral». Mesmo não haja coma e que o tronco cerebral continue a funcionar, quem perde, de todo e de vez, o raciocínio, a memória e a afetividade, deve ser considerado morto. Terá direito a apagar-se, sem mais sofrimento e com um mínimo de dignidade, se manifestar previamente ser essa a sua vontade.  
Eu quero que me façam isso, se me calhar terminar dessa forma.
Será útil relembrar alguns conceitos.
Eutanásia ativa – consiste em oferecer a morte sem sofrimento a um indivíduo com doença incurável e associada a grande sofrimento físico e psíquico. É discutida e planeada entre o doente e o profissional que o vai ajudar a morrer.
Eutanásia passiva – consiste na interrupção dos cuidados médicos, quer sejam medicamentosos ou não. Representa, de certo modo, a interrupção da “obstinação terapêutica”.
Suicídio assistido – neste caso, a morte não é levada a cabo por terceira pessoa. É o próprio doente que a provoca, podendo ter a ajuda de terceiros.
Distanásia – é o contrário de eutanásia. Segundo ela, a vida humana deve ser prolongada em todas as eventualidades, mesmo que a cura não seja possível e o sofrimento seja quase insuportável.
O Testamento Vital está definido na Internet, na Área do Cidadão do Serviço Nacional de Saúde. Trata-se de um documento registado eletronicamente onde é possível manifestar o tipo de tratamento, ou os cuidados de saúde, que pretende ou não receber quando estiver incapaz de expressar a sua vontade.
Permite, ainda nomear um ou mais procuradores de cuidados de saúde, que tomarão decisões por ele.
Continuo a citar o que está publicado na Área do Cidadão do SNS:
“Num contexto de urgência ou de tratamento específico, o médico assistente poderá consultar o Testamento Vital do utente, através do Portal do Profissional, garantindo assim que a vontade anteriormente expressa é cumprida. O próprio utente pode, através da Área do Cidadão, verificar se o seu Testamento Vital está correto, ativo, dentro do prazo, acompanhando todos os acessos que são feitos pelos médicos.”
 “Qualquer pessoa pode fazer o “download”, imprimir e preencher o Modelo de Diretiva  Antecipada de Vontade e entregar no ACES/ULS da sua área de residência, para registo na plataforma RENTEV (Registo Nacional do Testamento Vital)”.

Naturalmente, só poderão ser atendidas as vontades que e se conformem com a lei vigente no país. Atualmente, em Portugal, a participação em eutanásia ativa é punida com penas de prisão. Julgo que o enquadramento legal da morte assistida irá mudar rapidamente. Este painel representou o nosso contributo para a discussão do tema.


*Terceira parte da conferência realizada em Setúbal, na Casa da Baía, a 17/6/2017

DEMÊNCIA E EUTANÁSIA*
 

II

DIAGNÓSTICO

Já falei dos testes psicológicos.
Para além de caracterizarem a doença com grande aproximação, os exames de imagem são indispensáveis para excluir outras causas de demência, como tumores cerebrais, hematomas subdurais crónicos, demência por multi-enfarte e hidrocefalia.
Na Doença de Alzheimer, os sulcos cerebrais estão alargados e o terceiro ventrículo e os ventrículos laterais aumentam de volume. Na parte interna dos lobos temporais ocorre uma atrofia desproporcionada dos hipocampos.
    Isso é bem aparente na Ressonância Magnética Nuclear crânio-encefálica. É nela que assenta geralmente o diagnóstico imagiológico da doença de Alzheimer. 

              Imagem retirada de The Lancet - Neurology - vol, 14, nº 10, oubtubro 2015.

Podem usar-se outros exames de imagem. A TAC, recorrendo a cortes oblíquos que passam pelos hipocampos, dá informações semelhantes.
A Tomografia de Emissão Positrónica (PET) e A Single-photon Emission Computed Tomography (SPECT) mostram redução do fluxo sanguíneo em áreas específicas do cérebro. São caras, sendo usadas em investigação, não tendo entrado na prática clínica.
O E.E.G. tem um interesse limitado. Mostra ondas lentas difusas (teta e delta) nos estádios avançados da doença.   
O diagnóstico clínico de doença de Alzheimer não tem uma precisão absoluta, mas é bastante aproximado. É correto em 85 a 90% dos casos.

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DE DOENÇA DE ALZHEIMER

(NINDS – National Institute for Neurological and Communicative Disorders Association e ADRDE – Alzheimer`s Disease and Related Diseases Association)

Demência definida pela observação clínica, Mini-mental ou outra escala de avaliação psicológica
Idade superior a 40 anos
Défice em duas ou mais áreas cognitivas  
Deterioração progressiva da memória e de outras funções cognitivas, como linguagem perceção e habilidades motoras (praxis)
Ausência de perturbação da consciência
Exclusão de outras doenças cerebrais.

Em matérias como esta, todo o cuidado é pouco. Verificou-se que 10 % dos doentes referidos para uma clínica neurológica com diagnóstico de demência sofriam de outras perturbações, psiquiátricas ou metabólicas, potencialmente reversíveis.


É essencial eliminar a possibilidade de existência de doenças que se tratam geralmente com eficácia, como lesões cerebrais ocupando espaço, sífilis, deficiências nutricionais, intoxicações crónicas por drogas, incluindo o álcool, e a pseudo-demência da depressão.
O diagnóstico de certeza é histológico. Faz-se por biopsia ou pela autópsia. Os patologistas encontram depósitos de material amorfo (substância amiloide) espalhadas ao longo do córtex cerebral. São as chamadas placas senis ou neuríticas. Há degenerescência neurofibrilhar (emaranhado neuronal) no citoplasma das células nervosas.
TRATAMENTO
Atualmente, não há cura para a doença de Alzheimer. Alguns medicamentos parecem diminuir o seu progresso, especialmente nos estádios iniciais. Outros ajudam a tratar as mudanças de humor e outros problemas de comportamento.
Foi detetada em doentes com Alzheimer redução da acetiltransferase da colina e da acetilcolina.
O donepezilo (Aricept), a galantamina (Reminyl) e a rivastigmina (Exelon) são inibidores da acetilcolinesterase. Podem melhorar o funcionamento do cérebro nos estádios iniciais da doença de Alzheimer e atrasar a rapidez com que os sintomas pioram.
A memantina (Ebixa) é um antagonista dos recetores do glutamato, que as células danificadas por Alzheimer produzirão em demasia. A droga parece proteger contra danos nervosos e tem menos efeitos colaterais do que outras drogas. Pode evitar que sintomas moderados a graves piorem rapidamente.
De modo geral, estes medicamentos podem associar-se. Quando há depressão, utilizam-se antidepressivos, em especial os receptores seletivos da receção de serotonina, como a fluoxetina e a paroxetina.


*Parte da conferência proferida a 17/6/017, na Casa da Baía, em Setúbal.

          

    DEMÊNCIA E EUTANÁSIA


I

A palavra “eutanásia” vem do grego e significa “boa morte”. Terminar a vida com dignidade e sem sofrimento é uma aspiração antiga dos humanos. Em Setúbal, é bem conhecida a capela do Senhor do Bonfim, cujo culto os setubalenses levaram para o Brasil. Existiu ainda na cidade a capela do Senhor da Boa Morte.



Demência é o desfazer da mente. Deterioram-se todas as funções intelectuais. São afetadas a inteligência, o discernimento, a memória, o temperamento, o afeto e a energia. A palavra aplica-se apenas a quem tinha antes uma capacidade intelectual normal.
As causas de demência são muito variadas. Não faria sentido nem seria possível abordá-las todas. Irei referir apenas a doença de Alzheimer. É a mais comum e importante doença degenerativa do cérebro. Integra-se no grupo das demências progressivas em que outros sinais neurológicos como paralisias ou movimentos anormais não ocorrem ou são pouco importantes. Fazem parte do mesmo grupo alguns tipos da demência difusa de corpos de Lewy e a doença de Pick, em que a atrofia cerebral é circunscrita.

     Retirada de Adams, Victor & Ropper, Principles of Neurology

A doença de Alzheimer já faz parte dos nossos pesadelos. É uma das doenças mentais mais frequentes, ocupando cerca de 20 por cento das camas de hospitais psiquiátricos e uma percentagem provavelmente bem maior das dos lares de terceira idade.
É relativamente rara antes dos 60 anos. A partir daí, a sua incidência cresce exponencialmente, sendo muito frequente acima dos 80 anos.
As mulheres são um pouco mais sensíveis à doença do que os homens, mas a diferença é marginal. As senhoras predominam nas estatísticas por durarem mais que nós.
 A expectativa de vida de uma pessoa com Alzheimer é aproximadamente metade da esperada para a idade. Os doentes não morrem de demência. A doença torna-os mais vulneráveis às doenças respiratórias ou cardiovasculares.
A doença de Alzheimer provoca a morte de células cerebrais. Há perda generalizada de células nervosas mais marcada no córtex cerebral e nos hipocampos. O cérebro diminui de tamanho, enquanto crescem compensatoriamente as dimensões dos espaços ocupados por líquido cefalorraquidiano: ventrículos e sulcos da convexidade cerebral.

                                  Retirado da Internet

O início é tão insidioso que raramente é apontada uma data precisa para o começo da doença. Ocasionalmente é associado a algum evento, como uma operação, uma doença febril, um pequeno trauma cerebral ou uma mudança de medicação.
Alguém acaba por reparar na falta de iniciativa do doente, na perda do interesse pelo trabalho e pelo negligenciar das tarefas diárias.

O sintoma mais característico é o desenvolvimento gradual de esquecimento.
Esquecem-se os pequenos acontecimentos do dia-a-dia e as conversas recentes. Repetem-se as mesmas perguntas. O doente não sabe onde pôs os objetos pessoais. Ao falar, interrompe-se por não lhe ocorrer a palavra adequada. Os nomes das pessoas conhecidas não vêm à ideia, mesmo que pareçam estar “na ponta da língua”. O mesmo acontece à escrita. O vocabulário reduz-se. A compreensão da fala dos outros mantém-se mais algum tempo, mas acaba por ser afetada. Mais tarde, torna-se difícil dizer frases inteiras ou entendê-las. 

Como diferenciar a falta de memória devida à idade da provocada pela doença de Alzheimer? Com a idade, perde-se muito. Vai diminuindo a eficiência biológica, a resistência às doenças e a capacidade do organismo para se manter como uma máquina eficaz. O envelhecimento acompanha-se de alguma perda de neurónios, com diminuição do volume e peso do cérebro.
No entanto, a falta de memória devida à idade piora lentamente e interfere pouco com a capacidade para exercer as tarefas diárias.
Há testes rápidos que avaliam o estado mental, incluindo o reconhecimento da orientação no espaço e no tempo, a memória de curto prazo, a reprodução de números, a capacidade de cálculo e a linguagem.
Um dos mais usados é o Mini-Mental State Examination - MMSE


Este teste é geralmente realizado pelo médico no consultório e leva cerca de 5 a 10 minutos para concluir.
Existem muitos outros testes. Alguns permitem despistar a doença em fase mais precoce.
É o caso da WAIS (Weschler Adult Intelligency Scale) ou da ADAS-Cog (Alzheimer`s Disease Assessment Scale - Cognitive).
A última foi desenvolvida em 1984. É um teste constituído por 11 provas de desempenho. É mais aprofundado que o MMSE e permite despistar a doença numa fase mais precoce. A sua aplicação demora habitualmente cerca de 30 minutos. O especialista pode fazê-lo no consultório ou referenciar o doente para um psicólogo.  
A evolução da doença é progressiva. Aqui está, em gráfico, a escala FAST, desenvolvida pelo Centro Médico de Envelhecimento da Universidade de Nova York e pelo Centro de Investigação de Demência. Considera 7 estádios, sendo o primeiro o de normalidade, em que ainda não existe doença.


       No 2º estádio, começa a notar-se algum declínio funcional. Nesta fase e nas seguintes, a tomada de conhecimento da deterioração intelectual pode provocar depressão, que deverá ser tratada.
No 3º Estádio, a doença ainda está em fase precoce. A pessoa funciona com a capacidade aproximada de uma criança de 12 anos. Ocorrem mudanças de comportamento e instabilidade emocional, com reações exageradas ou despropositadas. É bem conhecido o estado de confusão e ansiedade que se verifica no final do dia. A capacidade para o cálculo é afetada. O doente faz confusão com os preços e engana-se nos trocos. Esquece o número do cartão Multibanco.
Ocorre desorientação espacial. O doente pode perder-se em locais conhecidos.
Nota-se a falta de higiene e o descuidar da aparência pessoal.
Nesta altura, ou antes, será conveniente que o doente nomeie alguém para, no futuro, tomar decisões importantes e cuidar das suas finanças.
 A progressão da doença é variável. Alguns doentes pioram em poucos anos, enquanto outros mantêm certa qualidade de vida durante perto de duas décadas. A maioria dos pacientes de Alzheimer vive 5 a 10 anos após o diagnóstico.
No 4º Estádio, a doença tem gravidade moderada. É já necessária alguma assistência de terceiros.
Até certo ponto da evolução da doença, a memória do passado distante é relativamente bem conservada. A memória para factos recentes perde-se primeiro.
No 5º Estádio, o doente já precisa de ajuda para se vestir. O intelecto é comparável ao de uma criança de 5 a 7 anos. Desaprende o modo de usar utensílios comuns, embora retenha a força muscular e a coordenação bastantes para os usar. Tem dificuldade em abrir ou fechar as fechaduras das portas e em usar o garfo e a faca.
A marcha mantém-se, por regra, normal, até uma fase adiantada da doença. Por vezes, torna-se difícil, de passos geralmente curtos, lenta e com desequilíbrio.
 Ao atingir o 6º Estádio, o cérebro funciona de forma semelhante ao do de uma criança de 2 a 4 anos. É necessária assistência 24 horas por dia, sete dias por semana. Nesta fase, é quase impossível conservar o doente em casa. Acontece a institucionalização.
No 7º Estádio, a demência é severa, estando o funcionamento mental ao nível do de um recém-nascido. A morte acontece frequentemente por infeção secundária, como a pneumonia.
No decurso das últimas fases da doença de Alzheimer, tanto a situação do doente como a dos que cuidam dele é complicada.
Os que nos amam respeitam a memória do que fomos e não o quase vegetal em que nos tornámos.

A dada altura, perdemos até a capacidade de sofrer. Os nossos, não. 

*Palestra proferida na Casa da Baía, em Setúbal, no encerramento das JORNADAS CULTURAIS CONJUNTAS LASA/SOPEAM. 

domingo, 11 de junho de 2017




ENCERRAMENTO DAS JORNADAS LASA/SOPEAM



OLHARES SOBRE A EUTANÁSIA   

Casa da Baía, Setúbal         17 de junho 9.30



Moderador: Machado Luciano
                 Antigo director do Serviço de Cirurgia do 
                 Hospital de S. Bernardo, ex-presidente 
                 da LASA.

Intervenções
                 Dor e eutanásia - Figueiredo Lima
                 Antigo director do Serviço de Anestesia
                 e fundador da Unidade de Dor do Hospital
                 de Santa Maria.

                 Demência e eutanásia - António Trabulo
                 Neurocirurgião e escritor, dirigente da SOPEAM.

                 Ética e eutanásia - Manuel Silvério Marques
                 Hematologista. Doutorado em Filosofia. Foi 
                 membro do Concelho Nacional de Ética para 
                 as Ciências da Vida.

                 Lei e eutanásia - Joana Ferreira
                 Representante da Delegação de Setúbal
                 da Ordem dos Advogados.

Organizaçâo: Machado Luciano, António Trabulo

                  

segunda-feira, 24 de abril de 2017



OS PRIMEIROS HOSPITAIS 

DE SETÚBAL




Hospital significava originalmente casa de hóspedes. De modo geral, ao longo da Idade Média, eram unidades de dimensões reduzidas que albergavam pobres, peregrinos e doentes e se situavam muitas vezes na vizinhança dos templos. Alguns eram geridos pela Igreja. Outros pertenciam a irmandades. Uns tantos resultavam da iniciativa de pessoas singulares. Eram sustentados pelos rendimentos de doações e heranças de fiéis que esperavam ser ressarcidos por Deus, no outro mundo.
Existiram, em Setúbal, diversas confrarias ou irmandades. As confrarias do Corpo Santo, de Santa Maria da Anunciada e do Espírito Santo possuíam estabelecimentos assistenciais que alojavam pobres.  
    Tanto o Hospital da Anunciada como o do Espírito Santo datam de 1372. Sabe-se pouco sobre o Hospital da Anunciada, que terá exercido importantes funções assistenciais. Por se situar fora de muralhas, escapou à integração na Misericórdia de Setúbal, levada a cabo em 1501.
O Hospital do Espírito Santo localizou-se inicialmente na Rua Direita do Troino e foi transferido, em 1494, ou antes, para a Praça do Pelourinho (julgo que seria a Praça da Ribeira). Na visitação pastoral de 1510 foi descrito como “uma casa sobradada, com quatro janelas de assento muito grandes e paredes muito boas de pedra e cal; a casa é toda forrada de castanho e tem duas portas com suas grades de ferro sobre o tavoleiro de entrada”. Dispunha de dez camas com roupa.
O Corpo Santo era uma associação de mareantes e pescadores. Possuía, pelo menos desde 1415, um hospital que tinha por missão recolher marinheiros e pescadores acidentados no mar. Em 1510, quando da visitação de D. Jorge a Setúbal, o Hospital do Corpo Santo possuía “seis camas e mais uma para doentes; e estava tudo muito limpo e concertado”.

                     Edifício do Antigo Hospital do Corpo Santo

Existiram outros estabelecimentos de assistência, dos quais chegaram até nós informações limitadas. Um dos mais antigos seria a Albergaria da Horta do Rio, que, segundo Manuel Maria Portela se situava extramuros, na estrada de S. João, perto da gafaria.


A gafaria de Nossa Senhora da Saúde data provavelmente do século XIII ou XIV. Resta dela uma pedra de padieira com um escudete e com uma inscrição legível: vanitas, vanitatum et omnia vanitas (vaidade das vaidades, tudo é vaidade). Já não funcionaria em 1504, pois nessa data a gafaria de S. Lázaro de Cacilhas tinha por função alojar todos os leprosos de Almada, Sesimbra, Setúbal, Azeitão e Palmela.

               Arcos do Hospital de João Palmeiro
O hospital de João Palmeiro já existia em 1363. Restam dele três arcos ogivais que confrontam com a Igreja de Nossas Senhora da Graça. O vocábulo “palmeiro” aplicava-se aos peregrinos. É de supor que o fundador fosse romeiro ou que o hospital se destinasse a apoiar os peregrinos. Diz-se que é a edificação mais antiga de Setúbal. No começo do século XX o espaço foi aproveitado para uma fundição e, mais tarde, para uma oficina de reparação de automóveis.
O hospital de Maria Pipa ou de Maria da Pipa situava-se na Praça do Sapal, próximo da igreja de S. Julião. Foi fundado no século XV, ou antes, por Catarina Martins, azeiteira, e dispunha de duas casas térreas, servindo uma de alojamento para a hospitaleira e a outra, com cinco camas, para os pobres.  Maria Pipa, que teria sido a sua quarta administradora, não fez grande trabalho. Foi exonerada das suas funções em 1472.


A ermida de S. Brás, que poderá ter estado relacionada com a peste de 1482, localizava-se, segundo Rodrigo Marques e Manuel Marques, no sopé da Fortaleza de S. Filipe. Ruiu em 1940. Existe, pelo menos, uma fotografia dela. Era num edifício encostado a essa capela que se fazia a quarentena dos tripulantes dos navios que se dirigiam ao porto de Setúbal quando o “intérprete de saúde” suspeitava que fossem portadores de doenças contagiosas.
Existiam ainda várias capelas que a carência de informação não permite ligar a tarefas assistenciais.
Será interessante descrever o ambiente de um hospital no final da Idade Média. Socorremo-nos para isso da descrição feita por Rodrigues Marques e Manuel Marques.

“A sala da enfermaria tinha as camas alinhadas ao longo das paredes e separadas por cortinados umas das outras. Era comum deitar dois doentes na mesma cama.
O doente era levado para o hospital numa liteira ou catre. Depois de lavado e de mudar de roupa e antes de ser instalado na enfermaria, era recebido pelo capelão.
O dia começava com a missa, celebrada no altar colocado na parede de fundo da sala. Corriam-se as cortinas, para que os doentes pudessem ver o celebrante.
Seguia-se a primeira refeição, servida em tigelas de pau. As colheres eram também de pau e os copos de barro. Não havia preocupação com dietas, pois interessava que os doentes se alimentassem bem.
Os tratamentos consistiam na aplicação de drogas de origem vegetal, preparadas na própria botica, ou adquiridas fora. Incluíam unguentos, cera, essência de terebintina e tisanas. Praticavam-se banhos e fumigações, cautérios, sangrias e clisteres e aplicavam-se “bichas” (sanguessugas).
As longas horas em que nada sucedia eram preenchidas por salmos cantados pelos frades ou freiras.
Os médicos, que só muito mais tarde começaram a prestar serviço permanente nos hospitais, iam lá apenas quando eram chamados”.

No final do século XV teve início, em Portugal, um processo de fusão e concentração dos inúmeros hospitais pequenos e dispersos. A Coroa procurava assumir o controlo dos estabelecimentos hospitalares administrados pela Igreja e pelas confrarias. Em 1479, mesmo antes de subir ao trono, D. João II obteve autorização papal para fundir os hospitais de Lisboa. Vinte anos mais tarde, a autorização alargou-se a todos os hospitais do Reino.
Cerca de 1489, foi criada a confraria da Misericórdia de Setúbal. Teria, no ano seguinte, o diploma régio de confirmação.
A 13 de setembro de 1501, o mordomo da irmandade do Espírito Santo recebeu do provedor régio dos estabelecimentos assistenciais do almoxarifado de Setúbal ordem para anexar todos os outros hospitais existentes na vila. A ordem foi cumprida, com duas exceções: o hospital de João Palmeiro continuou a ser governado pela confraria do Corpo Santo, pelo menos até 1511, e a confraria da Anunciada, situada fora de muros, prosseguiu as suas funções assistenciais até depois de 1567.  

BIBLIOGRAFIA
Drumond Braga, Paulo. Setúbal Medieval (séculos XIII a XV). Câmara Municipal de Setúbal, 1998.
Marques, Rodrigues e Marques, Manuel. Subsídios para a História dos Hospitais de Setúbal, 1984.

Quintas, Maria da Conceição (coordenadora). Monografia de S. Julião. Junta de Freguesia de S. Julião, Setúbal, 1993.

sábado, 22 de abril de 2017


HIPÓCRATES




Hipócrates seria um nome corrente, na Grécia de Péricles. Diz Fernando Namora: “conhecem-se sete médicos de nome Hipócrates; a tradição tê-los-á amalgamado num personagem único”. Há quem sugira que sucedeu o mesmo com Jesus Cristo.
Sabe-se alguma coisa sobre a sua vida. Nasceu por volta de 460 a. C., em Cós. Cós é uma ilha grega situada muito próximo da costa da Turquia. Era cerca de dez anos mais novo do que Sócrates e foi contemporâneo de Demócrito. Julga-se que viajou pela Grécia e pelo Próximo Oriente. É representado de chapéu e bordão, símbolos do caminheiro.


Hipócrates era um asclepíade, isto é, um descendente de uma família dedicada aos cuidados de saúde. Sua mãe teria sido uma parteira de sucesso.
O mestre grego exerceu medicina na Trácia, na Tessália e na ilha de Tasso. Era já um médico conhecido em 430 a.C., quando se realizou a 86ª Olimpíada. Faleceu em Larissa, numa idade avançada.
É considerado uma das figuras mais importantes da História da Medicina. Segundo Catiglione, o seu mérito assenta em ter demonstrado que a doença era um processo natural. Os sintomas traduziam reações do corpo à doença e o papel principal do médico consistia em ajudar as forças naturais do organismo no processo de recuperação.
      Hipócrates separou a Medicina da Magia. As divindades já não eram convocadas para tratar os enfermos. Nascia a profissão de médico, o qual devia observar, refletir e aprender. No seu modo de ver, muitas doenças eram influenciadas por fatores climáticos, dietéticos e ambientais.
      Embora o juramento hipocrático, tal como o conhecemos hoje, ponha em realce a figura do mestre, em outros escritos, Hipócrates menorizava a aprendizagem pelo ensino, pela transmissão da experiência de outros, o que reforça a opinião dos historiadores que consideram ter sido o “Juramento de Hipócrates” elaborado numa data posterior. Hipócrates escreveu nos seus aforismos que a vida dum médico era demasiado curta para ele aprender tudo de que necessitava para o exercício da sua profissão.
A reputação de Hipócrates deve-se às suas obras, que constituem o Corpus Hipocraticum. O tempo terá reunido, nesta coleção de 70 escritos, contributos do próprio Hipócrates e de vários outros médicos oriundos de épocas e de escolas diferentes. Além do famoso Juramento, dos Aforismos e da Doença Sagrada, os textos falam das doenças agudas, da cirurgia, das fraturas, dos instrumentos de redução, dos ferimentos da cabeça, das articulações, das úlceras, das fístulas, das hemorroidas, dos ares, águas e lugares, das epidemias e dos prognósticos.
Hipócrates apreciava a temperatura do corpo com a mão. Praticava a auscultação, encostando o ouvido ao peito do doente. Descreveu o ruído do roçar de coiro novo nas pleurisias. As obras que lhe são atribuídas englobam um conjunto de descrições clínicas que permitem identificar doenças como a malária, a papeira e a tuberculose. Aconselhava os médicos a serem comedidos nas explicações e nas expectativas a transmitir aios doentes.
Hipócrates desenvolveu o conceito de “crise”. Constituiria um ponto-chave da evolução da doença e determinaria a recuperação ou a morte.
O médico grego não poderia enxergar muito além da sua era. Fundamentou a sua compreensão do organismo humano na famosa teoria dos humores (sangue, fleugma ou pituíta, bílis amarela e bílis negra). O equilíbrio dos humores (eucrasia) determinaria o estado de saúde, enquanto o predomínio de um ou de outro, a discrasia, seria causa de doença e de dor. Esta teoria, retomada séculos mais tarde por Galeno, dominaria o ensino médico até ao século XVIII.


Em questões terapêuticas, o Mestre de Cós não inovou. Recorreu ao que existia na época para tratar os doentes: sangrias, ventosas, cataplasmas e pensos.
Para terminar, registo aqui algumas passagens do famoso Juramento de Hipócrates.
Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.
Conservarei imaculada minha vida e minha arte.
Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.
Aquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.


Bibliografia
Alzina, A. Hipócrates: filosofia e mistérios em Medicina grega. Nova Acrópole (Internet).
Barradas, Joaquim. A arte de sangrar de cirurgiões e barbeiros. Livros Horizonte, Lisboa, 1999.
Namora, F. Deuses e demónios da Medicina. Livraria Bertrand, Amadora, 1979.
Wikipedia.