Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

domingo, 9 de junho de 2013

           O BATATA RESOLVE



Tempos atrás, em Águas de Moura, nasceu um dito que se empregava em casos de doenças crónicas ou resistentes ao tratamento:
─ O Batata resolve!
Quando um velho, sentado à mesa da taberna, se queixava do reumatismo, havia sempre um companheiro que garantia:
─ O Batata tira-te as dores.
Se a bronquite não passava, ou se um doente regressava de Setúbal desiludido com os cuidados de algum especialista médico, alguém comentava:
─ O Batata resolve…
O Batata resolveu, na realidade, muitos problemas de saúde intricados. Não era curandeiro nem endireita.  Foi o coveiro da terra durante perto de 50 anos.



sábado, 1 de junho de 2013

                RECORDANDO BORGES D` ALMEIDA




A Revista da Ordem dos Médicos de novembro de 2012 traz um artigo da autoria do dr. Santos Bessa, dirigido à memória do dr. Borges d` Almeida. Faleceu há um ano. Registo aqui a minha homenagem.
Quando eu era interno de Neurocirurgia, ocorreu uma modificação na organização das equipas de urgência do Hospital de S. José e houve que escolher alguém para rodar semanalmente com ele. O dr. Borges d` Almeida, a quem médicos e enfermeiros conheciam por “Pipi” Borges, tinha uma fama péssima. Não se apresentaram voluntários. Procedeu-se a um sorteio e calhou-me a bola preta.
Trabalhar com o “Pipi” Borges revelou-se uma surpresa agradável. Borges de Almeida era inteligente, gentil e cultivava um sentido de humor ácido mas original. Acompanhava as atividades diversificadas da maior Urgência de Lisboa com um interesse em que se misturavam o sentido de responsabilidade, o saber, a experiência e a curiosidade. Tal como os outros chefes de equipa, era acompanhado, nas visitas sistemáticas, pela totalidade do “staff” médico disponível.
Em tempos em que a contabilidade tomou conta da saúde, imagino o horror dos burocratas a pensar que os atos médicos eram partilhados por um bando de trinta clínicos de saberes e especialidades diversas.
Numa altura em que muitos cirurgiões gostavam de se identificar com a imagem de garanhão, o “Pipi” Borges proclamava:
─ Dizem que todas as mulheres são iguais. Assim, não vejo razão para trair a minha…
Ocasionalmente, falava-se de dívidas e de pagamentos. Borges de Almeida pontificava:
─ Entrei, pelo casamento, para uma família de banqueiros. Nunca vi nenhum com pressa de pagar as suas contas…
Naquele tempo, eu era conotado com a Esquerda política. Uma vez por outra, o “Pipi” Borges lançava-me farpas a que eu respondia com respeito e com firmeza. O meu chefe de Banco não se aborrecia. Agradava-lhe a controvérsia.
No dia 26 ou 27 de outubro de 1975 estive de urgência com ele. As forças alinhadas à direita do Partido Comunista tinham acabado de tomar o Poder em Portugal. Mal me avistou ao fundo do corredor, o “Pipi” Borges fez luzir a dentadura num sorriso alegre.
─ Então, doutor Trabulo, a reação “passarou”?
Não sei o que lhe respondi. O homem tinha graça.
Hoje, recordo-o com saudade. Borges d` Almeida foi um dos expoentes duma das últimas gerações de grandes cirurgiões de Banco de S. José, ao estilo do “grand patron” francês.


Nota: Não dispondo de fotografias do dr. Borges de Almeida, reproduzo aqui a que acompanha o artigo do dr. Santos Bessa.

quarta-feira, 22 de maio de 2013


                       MARCOS DO CAMINHO


O “decaedela” passou das 30.000 visitas. Como o “historinhasdamedicina” ultrapassou as 20.000 consultas, os visitantes dos meus dois blogues somam já mais de meia centena de milhar. Representam o triplo dos compradores dos onze livros que publiquei e provêm de todos os cantos do mundo.
Ocorrem diferenças na distribuição geográfica das consultas aos dois blogues.
Em relação ao “decaedela” estará em causa, em parte, a diáspora angolana. A maior parte dos leitores contactou a Internet a partir de Portugal, Angola, Brasil, Estados Unidos da América e Rússia, embora haja visitas de outros pontos Europa e da Ásia e também da Oceania.
No caso do “historinhasdamedicina” a maioria dos visitantes é brasileira, tendo a Argentina uma participação significativa.
No conjunto das 248 mensagens publicadas, um dos três artigos que dediquei à atividade de Leonardo da Vinci como anatomista recolheu claramente a preferência dos leitores. Embora tenha descurado a apresentação de mensagens novas nos últimos dezoito meses, o número de interessados na História da Medicina não deixou de crescer significativamente. Tenciono dar em breve uma atenção renovada ao “historinhasdamedicina”.
“O decaedela” vai de vento em popa. Nos últimos 40 dias publiquei 38 artigos curtos do livro que estou a escrever sobre Amílcar Cabral. Serão revistos e aumentados, mas contém o essencial das minhas ideias sobre o tema. Aguardo o início da colaboração do Leston Bandeira e do Álvaro Fernandes cujas experiências de vida irão certamente enriquecer o nosso trabalho comum. 

quinta-feira, 7 de março de 2013


               

         GENEROSIDADE E OBSTINAÇÃO


Aconteceu em 1974, pouco tempo depois do 25 de abril.
O Granwer era um interno de Anestesia entusiasta e cheio de vontade de aprender. Curiosamente, tinha dupla nacionalidade: portuguesa e suíça. Era tutelado pela doutora Cristina da Câmara, que gostava de repetir:
─ Granwer! Tu és a minha dor de cabeça.
Eu dava os primeiros passos na Neurocirurgia, integrado na equipa do dr. Correia de Almeida. O nosso Serviço era dirigido pelo carismático dr. António Vasconcelos Marques.
Eu e o Granwer trabalhávamos muitas vezes juntos, tanto no Serviço como na Urgência. Numa tarde de verão em que havia pouco que fazer, passei pelas salas de observação, a caminho do bar. Espreitei. O Granwer tentava afanosamente reanimar um idoso cujo coração desistira de bater instantes antes. Procedia ele próprio à massagem cardíaca, enquanto orientava os enfermeiros que ventilavam o moribundo com máscara e balão e iam administrando os medicamentos indicados.
Como não fazia ali falta, prossegui o meu caminho.
Vinte minutos mais tarde, depois de beber uma imperial e de trocar alguns dedos de conversa com outros colegas que esperavam que os doentes chegassem, regressei ao corredor do Banco. Voltei a espreitar para a mesma sala de observações. Lá estava o Granwer, banhado em suor, generoso e obstinado na sua tentativa de ressuscitação. O homem estava mais que morto.
Cheguei-me à porta e deixei sair uma provocação:
─ És tu dum lado e o S. Pedro do outro…
Acreditem ou não, o educadíssimo Granwer interrompeu a massagem cardíaca e chamou-me filho da puta, mesmo em frente dos vivos e do cadáver. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012


                                                                     ANIVERSÁRIO



     O historinhasdamedicina faz três anos. O próximo artigo a publicar será o 62º, o que se traduz quase numa publicação por quinzena.
     Alimento dois blogues. Vai sendo hábito descurá-los um pouco, quando me empenho na escrita de romances. Voltou a acontecer recentemente. Ainda assim, dei à luz 180 “posts” em pouco mais de três anos.         
     Olho para trás e vejo coisas boas e más. Para além de pequenos relatos da minha experiência clínica, procurei divulgar, de forma leve e muitas vezes superficial, a vida e a obra de algumas figuras da Medicina Portuguesa. Os pedidos de colaboração, feitos pessoalmente a meia dúzia de colegas falharam e o blogue continuou a ser unipessoal, contrariando o projeto que tinha em mente.
     O historinhasdamedicina foi visitado 6.450  vezes, por gente de todos os continentes. Fala-se português em muitos lugares do mundo… Juntas às 10.250 visitas do decaedela, serão tantas como os leitores dos dez livros que até agora publiquei.
     A língua é um óbice à divulgação de escritos deste género, em que o público é selecionado pelo tema. A partir de agora, o historinhas vai ter um irmão em inglês. Irá chamar-se Med and Pen. Daqui até ao solstício de verão, traduzirei semanalmente um dos artigos já publicados, aceitando com humildade a pobreza do meu inglês. Não é a minha primeira, nem segunda língua. Alguma coisa sairá…
     Ao fim desse tempo, farei um balanço e decidirei em conformidade.

Abraços aos leitores
António Trabulo

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011


     RECORDANDO JOSÉ PAULINO PEREIRA


     Conheci o doutor Paulino quando me instalei em Setúbal, finda a minha comissão de serviço militar a bordo do navio hospital Gil Eannes. Paulino Pereira fazia parte de um grupo ilustre de médicos que se radicara na cidade  duas ou três décadas atrás e contribuíra para elevar a eficácia e o bom nome do Hospital de São Bernardo, ajudando a aproximar o nível técnico dos Hospitais Distritais de muito do que de bom se fazia nos Hospitais Centrais.
     No fim da vida, elaborou um livro de lembranças e de reflexões, muito ao jeito do que tenho procurado fazer no “historinhasdamedicina”. O destino não quis que visse a obra publicada. Faleceu semanas antes, no termo de uma vida longa e proveitosa.
     Coube-me a honra de representar a Ordem dos Médicos na cerimónia de apresentação do seu livro “Bisturi do tempo”. Vou divulgar aqui uma das histórias da sua vida clínica, contada nesse livro.

     Recordo alguns momentos emocionantes, como aquele que vivi, numa noite, quando nos apareceu um rapazinho dos seus vinte anos, com uma facada no coração. Alguém, numa rixa noturna, à saída duma «boîte», lhe vibrara o golpe que o deixara assim, sem acordo, lavado em sangue, entre a vida e a morte. Não havia tempo a perder. Embora não vocacionado para a cirurgia torácica, decidi avançar imediatamente. Era o tudo ou o nada. Uma vez recuperado do estado de choque e enquanto se comprimia a ferida, refleti uns segundos: aguentará a intervenção de tórax aberto? O anestesista acenava-me afirmativamente. Atirei-me então para o desconhecido, como se à porta de um avião, munido de para quedas, me convidassem a saltar para o espaço imenso, onde jamais mergulhara…! Pela primeira vez na minha vida de cirurgião, senti palpitar nas minhas mãos aquele órgão vital que marca o ritmo da vida. O meu ajudante, debaixo da máscara, balbuciava monossílabos que o meu subconsciente interpretava como incitamento: «Vamos bem… Já sangra menos… Aqui está a ferida… Falta só suturá-la…»
     Sentia a máscara ensopada de suor e de sangue que, por vezes, esguichava. Era forçoso andar depressa, pois o coração no seu bater constante, não permitia que os «pontos» passassem com facilidade. Ao dar o primeiro, aquela torneira diminuiu o seu débito. O ajudante voltou a balbuciar: «Bom…» Mas a intervenção ainda estava longe do final. Eu sentia-me mais senhor da situação. Outro «ponto» e tinha a vitória comigo. E foi mesmo assim. Como por encanto, aquela ferida, quase mortal, deixou de sangrar. Um olhar vago para o anestesista deu-me a certeza de que a primeira parte da batalha estava ganha. Apertei então a mão do meu ajudante, sem dizer palavra…
     … Enquanto nos lavávamos, eufórico com o acontecimento, tão fora do comum, não pude deixar de dizer em voz alta:
     − E diz a minha mulher que, lá em casa, por falta de jeito, nem sou capaz de pregar um prego na parede…

Referências:
José Paulino Pereira, Bisturi do Tempo, Edição de autor, Setúbal, 2008.
Fotografia: contracapa do mesmo livro.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011


            RECORDANDO AMÍLCAR CASTANHINHA

Conheci o doutor Castanhinha no Hospital dos Capuchos e trabalhei com ele durante anos em S. José. Homem inteligente, culto, dotado de fino sentido de humor e de conversa agradável, tinha uma sólida formação neurológica mas não era propriamente um aficionado do trabalho clínico. Quando tínhamos muito que fazer, chegávamos a recear encontrá-lo nos corredores do Hospital. Sendo ele mais velho, não nos ficava bem interromper a conversa e abalar.
Militara ativamente na oposição ao salazarismo e, a dada altura, refugiara-se em Argel, onde foi representante oficial do general Humberto Delgado até ao seu assassinato em 1965. Ocorriam dissidências entre os oposicionistas portugueses no exílio e Castanhinha foi preso, juntamente com um grupo de portugueses, pela polícia argelina. Foi libertado por ordem de Ben Bella, após intercedência de Josie Fanon, esposa do mítico pensador e psiquiatra Frantz Fanon. Não conheço as circunstâncias do seu regresso. Poderá ter feito com o Regime um acordo do género “tu não nos incomodas e nós deixamos-te em paz”, já que pôde voltar ao País e à carreira hospitalar.
Não tenho conhecimento de qualquer atividade política que tenha posteriormente exercido fora do âmbito profissional. Durante anos, foi dos pensadores mais notados a registar as suas reflexões no Boletim da Ordem dos Médicos. Quando a fação a que se aliara foi vencida, reagiu com amargura e com humor, ao seu estilo pessoal: “Aquilo não é uma Ordem! É um Bando!”
Numa tarde do tempo antigo, cruzei-me com ele num corredor do Hospital de S. José. Estava bem-disposto e provocou-me:
−Trabulo! Eu, às vezes, leio a Bíblia. Sabe que o profeta não sei quê (disse-me o nome, mas não o fixei) se zangou quando um jovem lhe chamou careca. Amaldiçoou−o e o rapaz morreu.
Respondi:
− O profeta era ruim…
Sorriu com os olhos e afastou-se.
Encontrei-o pela última vez na sede da Ordem dos Médicos. Terá sido por altura de eleições. Eu cumpria algumas horas de serviço em volta das urnas por conta do Colégio de Neurocirurgia. Por alguma razão que não recordo – eventualmente por ter sido sugerida a possibilidade de vitória de um candidato a bastonário que não nos agradava, bati com os nós dos dedos no tampo de uma mesa. Amílcar Castanhinha questionou-me:
− Sabe donde vem esse seu gesto?
− Não faço ideia. Não sou supersticioso…
− Eu conto-lhe. Nas cruzadas, os cavaleiros cristãos usavam armaduras pesadas que lhes protegiam quase todo o corpo. No entanto, antes dos combates, levantavam o braço para fazer o sinal da cruz e expunham as axilas. Uns tantos foram atingidos pelas flechas muçulmanas. O papa (disse-me o nome, mas esqueci-o) fez sair uma bula que substituía o sinal da cruz por três pancadas na sela do cavalo. As selas, ao tempo, eram de madeira.
A história tanto podia ter sido recolhida como inventada. É bonita à mesma e conto-a muitas vezes.
Nesse dia, o doutor Castanhinha estava feliz por ter finalmente podido dispensar a algália, meses após a cirurgia da próstata. Comentava:
− Sabe, Trabulo? O meu PSA nem era elevado…
Faleceu poucos meses depois. O coração atraiçoou-o. Acho que, tal como eu, fazia coleção de máscaras. Ficou um colecionador a menos. Deixou-nos também um homem bom.