Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

quinta-feira, 26 de março de 2015

HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA
III
IBN AL-NAFIS, MÉDICO DE DAMASCO


O árabe Abu-Alhassan Alauldin Ali Bin Abi-Hazem Al-Quarashi, nascido em Damasco em 1210 e conhecido pelo nome de Ibn al-Nafis foi o primeiro médico do mundo a entender a pequena circulação sanguínea. Os seus escritos andaram perdidos durante muito tempo, até poderem contribuir para o progresso da Medicina moderna.
Ibn al-Nafis escreveu:
«O sangue da câmara direita do coração deve chegar à câmara esquerda, mas não existe uma via direta entre eles. O septo espesso do coração não é perfurado e não tem poros visíveis, como Galeno pensou. O sangue da câmara direita deve fluir através da artéria pulmonar para os pulmões, distribuído por meio das suas substâncias, ser ali misturado com o ar, passar através da veia pulmonar para alcançar a câmara esquerda do coração e lá formar o espírito vital…»  
Note-se que esta tradução não é feita à letra e que alguma terminologia foi modernizada.
Afigura-se inconcebível que algum médico se tenha atrevido a contrariar frontalmente as opiniões de Galeno sem uma experiência anatómica consistente. As dissecções animais não poderiam ser suficientes, dada a possibilidade de a analogia ser imperfeita. É, aliás, improvável que os muçulmanos aceitassem dissecar porcos, animais pelos quais sentiam repugnância. Al-Nafis dissecou seguramente cadáveres humanos.
O médico árabe descreveu também a anatomia dos pulmões:
«Os pulmões são compostos de partes, uma das quais são os brônquios, a segunda, os ramos da arteria venosa e a terceira, os ramos da arteriosa cava, todas elas ligadas por carne porosa solta».
Afirmou ainda que os nutrientes para o coração eram extraídos das artérias coronárias:
«A declaração de Avicena de que o sangue que está no lado direito é para nutrir o coração não é totalmente verdadeira, pois o alimento para o coração é obtido a partir do sangue que passa através dos vasos que permeiam o corpo do coração».
Ibn al-Nafis aprendeu Medicina com Aldakwar e estudou os trabalhos dos árabes Rhazes e Avicena e do judeu Maimónides. Foi médico pessoal do sultão e trabalhou no hospital Al-Mansouri, no Egipto. Faleceu no final de 1288, quando Mondino de Luzzi era adolescente.
As observações de al-Nafis foram registadas quase 400 anos antes dos trabalhos de William Harvey sobre a circulação sanguínea. Curiosamente, os clérigos interditaram as autópsias humanas na maior parte do mundo arábico-islâmico. O próprio al-Nafis, que além de médico era especialista em jurisprudência islâmica, condenou publicamente a prática de autópsias humanas por as considerar contrárias à sharia e à compaixão. Paradoxalmente, quase todos os estudiosos da sua obra sustentam que ele e os seus discípulos recorreram repetidamente a dissecções humanas. De outro modo, não teria sido possível compreender a anatomia nem esboçar o conhecimento da fisiologia da pequena circulação. Note-se que o trabalho de Ibn al-Nafis representou provavelmente a contribuição mais importante dos médicos medievais muçulmanos para o conhecimento da Medicina.
Lawrence Conrad (citado por Gutiérrez) afirmou em 1985 que, embora a experimentação com corpos humanos fosse muito mal vista pelos maometanos, essa prática, ao contrário da mutilação de cadáveres, nunca foi formalmente proibida. Acreditava-se que os mortos continuavam a sentir a dor e que, no Juízo Final, os seres humanos se apresentariam perante Alá em corpo e alma, devendo, nessa, altura estar completos. É interessante anotar que alguns estudiosos de História da Medicina, entre os quais se conta Fernando Namora, consideram que o árabe Ibn al-Nafis, inibido pelas suas convições religiosas, nunca praticou autópsias humanas. 

Fontes:
Barradas, Joaquim. A arte de Sangrar de cirurgiões e barbeiros. Livros Horizonte, Lisboa, 1999.
Bedrikow, R., Golin, V. Carta ao editor. A história da descoberta da circulação pulmonar. J. Pneumologia vol.21 nº1, São Paulo, jan/fev 2000.
Botelho, J.B.  Miguel Servet: a resistência aos dogmas católicos e protestantes. Publicado na Internet, em História da Medicina, em 04/04/2012.
Gutiérrez, F. A dissecção no Islão e no ocidente cristão na Idade Média. 22/agosto/2010, Terceira cultura (Internet).
Namora, F. Deuses e Demónios da Medicina. Publicações Europa-América, Lisboa, 1968.


quarta-feira, 25 de março de 2015

HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA
II
MIGUEL SERVET

INOVADOR OU TRADUTOR?

        

Foi, durante séculos, atribuído a Miguel Servet o mérito de ter percebido, antes de todos, o mecanismo da pequena circulação. Leonardo da Vinci andou lá perto, ao entender os movimentos de abertura e fecho das válvulas cardíacas e André Vesálio, na segunda edição da Fabrica, negou a existência dos minúsculos orifícios que, no entender de Cláudio Galeno, asseguravam a comunicação interventricular.
Lembremos que as dificuldades sentidas na compreensão da circulação sanguínea assentavam nos dados obtidos pela dissecção de cadáveres humanos e animais na antiguidade: não se encontrava sangue nas artérias. Segundo Erasístrato de Alexandria(300-250 a.c.), as veias continham sangue e as artérias distribuíam ar pelo organismo. 


Erasístrato de Chio. Juntamente com Herófilo, fundou a Escola de Anatomia de Alexandria. 

Galeno (129-200 d.c.) supunha que o sangue era produzido no fígado e levado pelas veias até aos órgãos periféricos, não voltando ao coração. Transformava-se na matéria dos tecidos que alimentava. O fígado era obrigado à produção contínua de sangue, o qual seguia pela veia cava superior até à aurícula direita e ao ventrículo homolateral. Existiriam poros no septo interventricular, permitindo a passagem, para o lado esquerdo, de uma pequena quantidade de sangue que, sujeito à influência do calor inato do coração e do pneuma, existente no ar, se expandia e ficava imbuído do espírito vital que era levado pelas ramificações arteriais a todas as partes do corpo. Os pulmões serviam para arrefecer o sangue e o coração. Este modo de ver as coisas dominou a arte médica durante mais de um milénio.
A igreja católica queimou alegremente os exemplares do Christianismi Restitutio que consegui apanhar. A revolução fisiológica contida nessas páginas apenas foi divulgada anos após a publicação do livro L`Exercitatto anatomica de motus cordis et sanguinis circulatione (Exercício anatómico sobre o movimento do coração e do sangue dos animais), de William Harvey.
Miguel Servet não chegou a explicar as bases em que assentou a sua conceção revolucionária da pequena circulação sanguínea. Em 1924, o médico egípcio Muhyo Altawi descobriu em Berlim, na Biblioteca Estatal Prussiana, manuscritos perdidos do médico árabe Abu-Alhassan Alauldin Ali Bin Abi-Hazem Al-Quarashi, nascido em Damasco em 1210 e conhecido pelo nome de Ibn al-Nafis. 


Terá sido Ibn al-Nafis o primeiro médico do mundo a entender a pequena circulação sanguínea. Expôs as suas conceções no Comentário à Anatomia do Canon de Avicena, quatro séculos antes da publicação da obra decisiva de William Harvey.
Servet seria um conhecedor da literatura muçulmana e judaica e terá tido acesso aos escritos de Ibn al-Nafis, traduzidos para o latim em 1547 por Andrea Alpago di Belluno. Resta-lhe a glória de ter sido o primeiro a divulgar na Europa o mecanismo correto da pequena circulação sanguínea.


Fontes:
Barradas, Joaquim. A arte de Sangrar de cirurgiões e barbeiros. Livros Horizonte, Lisboa, 1999.
Bedrikow, R., Golin, V. Carta ao editor. A história da descoberta da circulação pulmonar. J. Pneumologia vol.21 nº1, São Paulo, jan/fev 2000.
Botelho, J.B.  Miguel Servet: a resistência aos dogmas católicos e protestantes. Publicado na Internet, em História da Medicina, em 04/04/2012.
Gutiérrez, F. A dissecção no Islão e no ocidente cristão na Idade Média. 22/agosto/2010, Terceira cultura (Internet).


terça-feira, 24 de março de 2015

HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA
I
MIGUEL SERVET
UM MÉDICO HEREGE
        

Atravessamos uma época de intolerância religiosa em que se volta a matar em nome de Deus. Se, atualmente, são alguns muçulmanos que se entregam ao radicalismo, será bom não esquecer que na Europa, durante séculos, a chamada heresia foi muitas vezes punida com a morte na fogueira. Curiosamente, o ódio a quem se atrevia a pensar de modo diferente do oficial chegou a irmanar católicos e calvinistas, que se detestavam mutuamente. O caso de Miguel Servet, a quem, durante séculos, foi atribuída a descoberta da pequena circulação sanguínea, é exemplar. O médico e pensador espanhol cometeu a proeza de ser queimado por duas fés: vivo, em Genebra, pelos calvinistas, em 1553, e em imagem, em Paris, pela igreja católica.
Miguel Servet (Michael Servetus) nasceu, provavelmente em 1511, na povoação espanhola de Villanueva de Sigena (Huesca, Aragão). Estudou Direito em Toulouse e Medicina em Paris. Viajou pela Europa e conheceu alguns reformadores notáveis. Aos vinte anos, publicou a obra De Trinitatis erroribus (Os erros da Trindade) em que negava o dogma da Trindade e a divindade de Cristo. A juventude emprestava-lhe o destemor: à época, o código justiniano impunha a pena de morte a quem recusasse aceitar a doutrina da Trindade.
Servet leu a Bíblia da primeira à última página e não encontrou a mínima referência à trindade divina. Concluiu que essa doutrina havia sido forjada no Concílio de Niceia, no ano 325 da era cristã.
Miguel Servet praticou medicina na região de Lyon durante cerca de quinze anos. Foi médico pessoal de Guy de Maugiron, vice-governador do Dauphiné, e do arcebispo Palmier de Viena.
Em 1553, já na idade madura, publicou a obra intitulada Christianismi Restitutio (Restituição do Cristianismo), em que rejeitava a ideia de predestinação das almas para o inferno. No mesmo livro, descreveu a circulação pulmonar. Explicava que o sangue ia do coração aos pulmões e regressava regenerado.
 «O espírito vital regenera-se nos pulmões de uma mistura de ar inspirado e de sangue delicado elaborado no ventrículo direito do coração. Sem dúvida, esta comunicação não se faz através das paredes do coração, como se acreditou até hoje, e é impulsionado até aos pulmões por meio de um grande orifício».
Não explicou como atingira esse conhecimento.
Trocou correspondência com João Calvino, criador de uma vertente do protestantismo. A permuta de ideias acabou mal. Calvino, que ficou conhecido como humanista, não deu mostras dessa qualidade na perseguição que moveu a Servet. Chegou a escrever: «se a minha autoridade valesse algo, eu nunca lhe permitiria viver».

                            João Calvino
  
Em abril de 1553, Miguel Servet encontrava-se em Viena e foi preso pelas autoridades eclesiásticas. Conseguiu escapar da prisão. Em junho do mesmo ano, apesar de não estar em França, foi condenado pela Inquisição local sob a acusação de heresia. Os seus livros foram queimados.  
O cerco apertava-se. Servet pensou refugiar-se em Itália. Teve a pouca sorte de se deter em Genebra, fiado na tolerância dos calvinistas. O erro custou-lhe a vida.
        Alguma atração inexplicada o ligava a João Calvino. A 13 de agosto, ouviu um sermão do reformador. Foi reconhecido e preso. Num julgamento alegadamente presidido por Calvino, foi condenado à morte por negar a Trindade e recusar o batismo infantil.



  A 27 de outubro de 1553, Miguel Servet foi queimado vivo numa fogueira de lenha verde. A lenha verde ardia mais devagar e aumentava o sofrimento dos supliciados.

Fontes: 
Bedrikow, R., Golin, V. Carta ao editor. A história da descoberta da circulação pulmonar. J. Pneumologia vol.21 nº1, São Paulo, jan/fev 2000.
Botelho, J.B. Miguel Servet: a resistência aos dogmas católicos e protestantes. Publicado na Internet, em História da Medicina, em 04/04/2012.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

       

      OS DESGASTES DO TEMPO


Não lembro o nome do colega que me relatou esta conversa. Tenho, contudo, bem presente no registo da lembrança, a sua figura. Contaria um pouco mais que os meus quarenta anos. Era alto, magro, reservado e tinha sido engenheiro antes de se fazer médico. Julgo que era proprietário de uma ou duas empresas de certa dimensão e que mudara de trajeto pessoal por gosto. Conheci-o no Serviço 10 do Hospital de S. José, onde ele trabalhou como anestesista, durante algum tempo.


Contou-me, um dia, uma história que ainda me agrada repetir. Falava dum amigo que tinha emigrado para África (não sei se para Angola, se para Moçambique) uma dezena de anos atrás. Voltara a encontrá-lo, por acaso, na baixa lisboeta. Trocaram um abraço e conversaram.
- Os anos não passaram por ti – disse o nosso Colega. Estás na mesma!
Respondeu-lhe o outro, com voz grossa:
- Dizes isso porque não dormes comigo…


sábado, 21 de fevereiro de 2015

             
                      JOAQUIM BARRADAS

     A ARTE DE SANGRAR

                DE CIRURGIÕES E BARBEIROS
           


O título do livro induz em erro. Joaquim Barradas não se limita a estudar a história da sangria. Ao longo das 247 páginas do seu trabalho, resume a história da Medicina, de Hipócrates ao dealbar da época modera. Cirurgião que é, defende a sua dama, sem deixar de atentar nas grandes conceções de que enfermou a nossa Arte, dando realce à descrição crítica da teoria dos humores. Presta a atenção devida aos estudos anatómicos, à emancipação da Cirurgia em França e à sua prática no Hospital Real de Todos os Santos. Refere o passado da sangria, mas também do seu presente, ao citar o tratamento da Policitemia rubra vera.


Voltarei a tratar deste livro interessantíssimo, num futuro próximo. Nesta introdução, irei sublinhar apenas as duas indicações que o autor defende para a prática da sangria nos tempos antigos: o tratamento das hérnias encarceradas e estranguladas e os ferimentos em combate. 
Nas hérnias estranguladas, o relaxamento muscular obtido pela extravasão de sangue levado até à perda de consciência permitiria «manipular a hérnia e forçar o intestino para dentro da cavidade abdominal». 
As motivações para a sangria dos que caíam na luta eram bem diferentes e aproximavam-se da eutanásia, ainda que não seja certo que essa intenção tenha estado sempre presente na mente dos cirurgiões de batalha. Passo a citar Joaquim Barradas.  


No fim da batalha, muitas vezes, ficavam milhares de feridos no terreno, que chegavam a passar uma noite inteira ao relento, sem assistência, tendo por companhia milhares de mortos e os lamentos dos companheiros igualmente feridos. No ar, um cheiro adocicado a sangue ajudava a compor o inferno…  … A sangria iria prejudicar a recuperação dos feridos e afetar a sua robustez, contribuindo para agravar o estado geral… … Na ausência de outras formas de aliviar o sofrimento, sem dúvida que a sangria foi benéfica para muitos soldados… … A sangria feita no campo de batalha embotava a perceção da dor e provocava alguma obnubilação que transportava os soldados para um nível de consciência que, de alguma forma, os afastava do sofrimento…


A ser assim, tratava-se de um modo de exercer a piedade. As Valquírias tornavam-se bem-vindas. 

Imagens: Capa do livro e Internet.

Editora: Livros Horizonte, 1999.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

     DE HUMANIS CORPORI FABRICA


             UMA INTRODUÇÃO À OBRA DE VESÁLIO


                                                                                                 III



   A Fabrica representa, para alguns historiadores, o início da Medicina moderna. Quando a fez publicar, André Vesálio tinha 29 anos. Durante o resto da sua vida, o grande anatomista pouco mais produziu.



Que razões o terão convencido a investir tanto nesse projecto? Que causas o terão levado a abandonar tão cedo a investigação científica e a carreira universitária para se tornar médico da corte?
Não se conhecem todos os motivos.
O próprio Vesálio refere alguns deles. Escreveu que a Medicina constava de três partes: medicamentos, dieta e o «uso das mãos». Ao falar das mãos, referia-se obviamente à prática cirúrgica, para a qual os conhecimentos de anatomia tinham uma importância determinante. André Vesálio pesquisou e fez desenhar gravuras anatómicas que proporcionassem aprendizagem mesmo aos que não tinham acesso à disseção de cadáveres. 
   A meu ver, Vesálio queria ser médico. Pretendia tratar doentes. Poderia, contudo, ter feito isso em Pádua.




 O anatomista deu precocemente  conta dos erros que enfermavam a obra de Galeno. Claudio Galeno foi um grande médico e um grande cirurgião. Os seus seguidores, em vez de se inspirarem na sua capacidade de recolher informações por observação directa, fizeram dos seus ensinamentos «bíblia». As suas obras, traduzidas em hebraico e árabe e retraduzidas para latim, foram praticamente incontestadas durante os treze séculos que decorreram entre a sua morte e o nascimento de Vesálio. Para que se desse a evolução nos conhecimentos médicos, era necessário romper com o passado. Tornava-se indispensável criticar Galeno. Era tempo de substituir os dados (tantas vezes falsos), recolhidos das dissecações de animais diversos, pelo estudo directo da anatomia humana.



 Era o espírito científico a desabrochar. André Vesálio descreveu estruturas antes desconhecidas e corrigiu erros assumidos como verdades havia séculos. Enganou-se algumas vezes, como era natural. As suas imperfeições seriam corrigidas progressivamente pelos anatomistas que se lhe seguiram, como Realdo Colombo, Gabriele Falloppio, Fabricio d`Acquapendente e Bartolomeo Eustáquio. 


                       Realdo Colombo
  Pensou preparar um livro de Anatomia em parceria com Miguel Ângelo





Eustáquio

 De certo modo, foram todos «anões aos ombros dum gigante».
 A publicação da Fabrica foi dispendiosa e o salário dum jovem professor da Universidade de Pádua não seria suficiente para um projecto desse fôlego. A imprensa contava com pouco mais de meio século de existência e era cara. As xilografuras de elevada qualidade terão custado a André Vesálio os olhos da cara. Não consta que se tenha endividado. Vesálio provinha duma família de médicos e farmacêuticos. O pai trabalhara na corte do imperador Carlos V. O anatomista teria fortuna pesoal. Parte dela terá sido consumida na publicação da Fabrica.


  Embora pareça redutor considerar o livro De humanis corporis fabrica apenas como um investimento visando compensações futuras, profissionais e económicas, o desejo de promoção pessoal não deve ser relegado para lugar secundário na motivação das grandes obras humanas. André Vesálio pretendia reconhecimento e proveito. O ensino de Anatomia e Cirurgia na Universidade mais importante do mundo dar-lhe-ia certa visibilidade, mas é provável que o cargo de médico da corte do imperador fosse, na época, o emprego mais apetecível para um médico ambicioso.



Os ensinamentos de Andreas Vesalius Bruxelliensis influenciaram a prática cínica de todos os médicos que trabalharam no meio milénio que se seguiu. Incluo-me, obviamente, entre eles e presto homenagem humilde à sua obra imperecível. Sou, contudo, obrigado a supor que a História da Medicina moderna teria começado mais cedo se os trabalhos anatómicos de Leonardo da Vinci tivessem sido publicados. 


 Lembro que Leonardo efectuou as suas últimas disseções em cadáveres humanos em 1514, o ano do nascimento de Vesálio.


  




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015


    DE HUMANIS CORPORI FABRICA


           UMA INTRODUÇÃO À OBRA DE VESÁLIO


                                                                                               II


A Fabrica foi publicada num único volume e consta de sete «livros» ou capítulos que ilustram os diversos aspectos da anatomia humana. É escrita em latim e profusamente ilustrada com magníficas xilogravuras. São apresentadas 22 ilustrações grandes e 187 pequenas.
Vamos passar os «livros» em revista, de forma sintética.


O primeiro capítulo trata da descrição dos ossos, enquanto o segundo ilustra os ligamentos e os músculos que asseguram os movimentos voluntários. O autor descreve ainda os processos de disseção a que recorreu.




Estes dois «livros» apontam para vários erros de Galeno e constituem o que de melhor Vesálio conseguiu em matéria de exactidão. As gravuras são duma beleza diícil de ultrapassar. Serão também as ilustrações anatómicas mais famosas de todos os tempos.









O terceiro «livro» trata do sistema circulatório. Nesta matéria, Vesálio não foi capaz de se libertar da influência de Galeno. A sua descrição dos ramos do arco aórtico parece inspirada na anatomia dos macacos.



No entanto, há aqui avanços científicos: André Vesálio descreveu a veia mesentérica inferior e as veias hemorroidárias.


O «livro» IV trata do sistema nervoso. Vesálio clarificou o significado da palavra «nervo» como estrutura capaz de conduzir sensações e movimentos, diferenciando-o de ligamento e de tendão. Aceitou, ainda assim, que a acção dos nervos residia na distribuição do «espírito animal» a partir do cérebro, como sugeria Galeno. 


As noções transmitidas pelo sábio greco-romano, que dividia os nervos cranianos em sete pares, estavam presentes no pensamento de todos os médicos da época e Vesálio não refutou este conceito, apesar de ter descrito parte do nervo troclear. Pôde, entretanto, constatar que o nerco óptico não era oco, como se supunha. Sem atingir o brilhantismo que demonstrou noutros capítulos, fez algum avanço na descrição dos nervos espinhais.
No «livro» V, André Vesálio descreve as vísceras abdominais, aproximando os órgãos da nutrição dos reprodutores. Aceitou a ideia de Galeno, segundo a qual o sangue era produzido no fígado, mas rejeitou a noção de que esta víscera era composta de sangue solidificado.

Gravura renascentista anterior a Vesalio


Negou também que a veia cava se originasse no fígado e que este órgão se dividisse em múltiplos lobos, como afirmara Galeno, assentando em observações de animais. Rejeitou ainda a existência duma abertura directa das vias biliares para o estômago.
No que respeita ao aparelho urinário, sugeriu que o «sangue seroso» atravessava a substância membranosa dos rins onde se libertava do seu «humor seroso» que seria então conduzido à bexiga através dos ureteres.


Ao tratar dos órgãos da reprodução, André Vesálio refutou a ideia antiga do útero segmentado, proveniente de dissseções em animais. Curiosamente, a sua representação da vagina humana assemelha-se antes a um pénis.


Estariam em causa ideias correntes sobre a suposta simetria dos géneros. Vesálio considerava que o útero e a vagina eram um só órgão e apelidou a vagina de «colo». Os ovários eram também chamados «testículos da mulher».
O «livro» VI trata dos órgãos torácicos. Vesálio achou a substância do coração parecida com a dos músculos, sem lhe atribuir essa qualidade, por não dispor de movimentos voluntários. Considerou-o formado por duas câmaras ou ventrículos. A aurícula direita seria uma continuação das veias cavas e a esquerda faria parte da veia pulmonar.

Vesálio não poderia encontrar no septo interventricular os inexistentes pequenos orifícios através dos quais, de acordo com Galeno, o sangue passaria do ventrículo direito para o esquerdo, mas não descortinou explicação melhor para a circulação sanguínea.
O coração era geralmente considerado o local onde se situava a alma. Não a achando, o anatomista adoptou uma atitude prudente e ambígua que lhe permitiu evitar a hostilidade do clero.


O sétimo e último «livro» trata da anatomia do cérebro e expõe as fases da sua disseção. Aborda ainda os órgãos dos sentidos.


O contributo de Vesálio para a compreensão dos mecanismos do pensamento foi revolucionário. Até então, aceitava-se que as actividades intelectuais residiam nos ventrículos cerebrais, localizando-se a percepção nos ventrículos anteriores, o julgamento no médio e a memória no posterior. A sensação e o movimento resultariam da ação do «espírito animal» segregado na retemirabili, uma fina teia de artérias existentes na base do crânio. Ora, já Berengario de Carpi questionara a existência da retemirabile. As suas dúvidas foram confirmadas por Vesálio que demostrou que a tal rede de pequenas artérias existia apenas em alguns animais, como os ungulados.
André Vesálio negou aos ventrículos cerebrais outra função que não fosse a drenagem de líquido. Recusou também a ideia de que a mente, ou espírito, pudesse ser dividida em faculdades separadas.
Rematou o seu trabalho sobre o cérebro aconselhando os métodos a utilizar na sua disseção.
A Fabrica termina com um subcapítulo sobre a vivisseção.
Nenhuma obra anatómica voltaria a obter tamanho sucesso, nem modificaria tão profundamente os conceitos anatómicos anteriores.
                                                            (continua)