Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

terça-feira, 7 de abril de 2015

  NECROFILIA NA LITERATURA PORTUGUESA


      CAMILO CASTELO BRANCO



No caso de Camilo, chegou a tomar-se o texto pelo autor e o nosso grande escritor nunca se livrou de todo da fama de necrófilo.
A ideia de necrofilia foi, a meu ver e no de outros, forjada pelo próprio escritor quando publicou na «Aurora do Lima», em Viana, a narrativa «Impressão indelével», que seria incluída, no mesmo ano no volume «Duas horas de leitura». Voltei a ler três contos seus com o agrado de sempre. Camilo escreve tão bem que até as suas obras menores se leem com prazer.
“Impressão indelével” não foi a primeira história em que Camilo recorreu a associações macabras para impressionar os leitores.



Neste livro publicado recentemente os editores juntaram dois contos e uma pequena novela, escritos em alturas diferentes. “O esqueleto” data de 1848, enquanto “A caveira” é de 1855 e a “Impressão indelével” remonta a 1857. Entram neste pequeno volume dois esqueletos completos e uma caveira avulsa. Nas duas últimas narrativas, os protagonistas são enterrados juntamente com as ossadas das mulheres amadas. Mesmo sem lhes juntar na história de Fanny Owen, já é necrofilia de sobra…
Vou concentrar-me na “Impressão indelével” porque nela o escritor descreve, na primeira pessoa, a exumação do cadáver de Maria do Adro e fá-lo com tal realismo que até o próprio sobrinho António de Azevedo Castelo Branco, levou a história a sério. António de Azevedo declarou, em 1890, ao biógrafo do tio materno, Alberto Pimentel, que, em casa do padre António de Azevedo, seu tio paterno, estiveram, durante anos, os ossos de Maria, sem que o inocente sacerdote disso desse conta.


Esta é a casa do padre António, cunhado de Carolina, a irmã de Camilo. O escritor morou ali durante vários meses, na sua adolescência.
A suposta exumação foi relativamente precoce (um mês após o óbito) e não consta que padre António sofresse de anósmia.
Por outro lado, a paixão platónica que o nosso Camilo terá tido por Margarida Maria Dias, a Maria do Adro, coincide, no tempo, com o seu casamento com a Joaquina de Friúme, de quem viria a ter uma criança. O futuro escritor abandonou mãe e filha. Ambas faleceram cedo.


Maria do Adro era filha duma viúva pobre e morreu de tuberculose. Morou nesta casa, também em Vilarinho da Samardã.
Maria do Adro era cinco anos mais velha que Camilo, que casou aos quinze ou dezasseis. De forma para mim inexplicável, no conto, a iniciativa da profanação do cadáver parte do cunhado médico, Francisco José de Azevedo, que perguntou a Camilo, no dia seguinte ao seu regresso e ao recebimento da notícia da morte da Maria do Adro:
Sabe alguma coisa de anatomia?
−Eu fiz um exame.
−Atreve-se a ajudar-me a preparar um esqueleto?
−Poderei ajudá-lo.
−Então guarde segredo, porque é preciso que meu mano padre o não saiba. Temos de ir à igreja desenterrar o cadáver duma rapariga que morreu tísica.
−A Maria do Adro? – atalhei eu com estranha vivacidade.
Lembre-se que Camilo chegou a estudar Medicina e obteve aprovação em duas cadeiras, uma das quais foi Anatomia.



Para que quereria o Doutor Azevedo um cadáver em putrefação? O autor não se dá ao trabalho de explicar as intenções do cunhado.
                                                         

O nosso grande Egas Moniz foi um dos que enfiaram o barrete, abordando a suposta necrofilia de Camilo na sua interessante obra «A vida Sexual». Eu tenho um exemplar desse livro, mas não o consegui encontrar. Tive de procurar outras fontes.
Ainda era o tempo em que a patologia psiquiátrica era encarada com preocupações morais. Os médicos faziam juízos de valor ético sobre as perturbações mentais dos doentes. Escreveu Moniz:
“ A necrofilia é a mais repugnante de todas as matérias que aviltam a vida sexual do homem”. Continuou adiante, referindo-se a Camilo:
O que apenas desejei patentear é que, pelo exame das provas que as biografias publicadas nos fornecem (baseava-se essencialmente no trabalho de Alberto Pimentel, “O romance do romancista”) não podemos deixar a suspeita de que Camilo fosse um necrófilo”. Dito de outro modo: absolvia-o por falta de provas, sem deixar de sugerir aspetos reprováveis da vivência de Camilo. Não seria propriamente um necrófilo, mas…


Em 1925, comemorou-se o centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. As comemorações incluíram a inauguração de um busto do escritor, a atribuição do seu nome a uma rua da cidade do Porto e a publicação de uma obra intitulada “In memoriam de Camilo”, com contributos de muitas personalidades notáveis da vida pública e intelectual do país. Egas Moniz deu também colaborou na coletânea de textos. Foi pouco feliz na escolha do título do seu trabalho. Intitulou-o “A necrofilia em Camilo”.
De facto, no texto desmente o cabeçalho. Apesar de continuar a acreditar o homenageado desenterrara o corpo de Maria do Adro – “Não há dúvida que Camilo assistiu com seu cunhado à exumação do cadáver da sua antiga namorada” − Egas Moniz conclui o seu artigo afirmando que ”...Camilo não só nunca foi um anormal genésico, mas não mostra, por este relato, o mais leve pendor para o campo das perversões sexuais”. O comportamento do escritor teria “roçado pelo normal”.
A meu ver e no de Alexandre Cabral, o nosso Prémio Nobel da Medicina não tem razão neste caso.
Não foi, contudo, o único a pensar assim. António Sardinha, ideólogo do “fundamentalismo lusitano”, bem distante politicamente de Egas Moniz, também colaborou no “In memoriam de Camilo”. Aceitou a anormalidade de Camilo e atribuiu-a à sua ascendência hebraica.
Já em 1965, o médico João de Araújo Correia no prefácio ao livro “Camilo em Ribeira de Pena”, do também médico Mário de Menezes, escreveu: “Egas Moniz não andou longe da verdade, considerando necrófilo o extravagante Camilo”.
Tanto quanto sei, deixaram-se levar pelo génio do escritor. Até Egas Moniz, de cujo espírito arguto todos nos orgulhamos, se deixou enganar.


Nas suas novelas, Camilo recorria a tudo o que pudesse cativar o interesse dos leitores. Nada há, no seu percurso de vida, que aponte para a existência de parafilias. Como os psiquiatras sabem, tais comportamentos repetem-se.
Em tempos, eu pus estas palavras na boca de Camilo: “É verdade, ou não, o que escrevo? Umas vezes é. Noutras, passa a ser. Um texto, ao verter-se no papel, ganha existência própria; faz-se real”.
Ao molhar o aparo no tinteiro, ainda sou eu; mudo no traçar das primeiras frases. Transformo-me; faço-me personagem e moro nos capítulos do romance; exponho a alma em cada artigo de gazeta.
Sou quem escreve. Sou também o que está escrito.
Disse Camilo ao seu amigo Freitas Fortuna, que lhe disponibilizou o jazigo de família para o último repouso:
Caveiras, só tive uma perto de mim quando estudava anatomia.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

          

         NECROFILIA NA LITERATURA PORTUGUESA

              FIALHO DE ALMEIDA

   
Qualquer médico sabe que a necrofilia é um padrão desviante do comportamento sexual em que a excitação é desencadeada pela visão de cadáveres ou pelo contacto com eles. 
Conhecem-se diversos casos em que os autores recorreram a descrições de necrofilia para chamarem a atenção dos leitores para as suas obras. Um dos mais emblemáticos será o poema "O noivado do Sepulcro" de Soares dos Passos. Quem não se lembra de:

                    "Vai alta a lua!Na mansão da morte
                      Já media noite com vagar soou..."

Quer Fialho de Almeida, quer Camilo Castelo Branco produziram obras literárias que tiveram a necrofilia por tema. Neste artigo, vou falar de Fialho.


Conheço «A Ruiva», de Fialho de Almeida, desde os meus catorze ou quinze anos. Por essa altura, eu lia tudo o que encontrava. O meu pai tinha a sua obra. Li a toda a coleção de «Os gatos» e a seguir, li "Os contos".  Lembro-me de ter achado «A Ruiva» uma narrativa erótica.
Fialho de Almeida ainda foi contemporâneo de Camilo. Nasceu quando Camilo Castelo Branco ia nos 32 anos e sobreviveu-lhe dezanove.


Fialho conhecia Camilo e apreciava-o. Dedicou-lhe os seus «Contos», em temos muito elogiosos.
Eu andava à procura da "Ruiva" de Fialho e encontrei a de Renoir.

Descobri, por acaso, que o pintor Pierre Renoir era pai do realizador de cinema Jean Renoir. Andrée Hessling, aqui retratada, usou também usou o nome de Catarina. Foi o último modelo do pai e a primeira atriz dos filmes do filho, que se casou com ela.


Voltei a ler «A Ruiva», desta vez na Internet. Encontra-se digitalizada e disponível gratuitamente, no sítio da Biblioteca Nacional e, pelo menos, noutro endereço eletrónico. É fácil de descarregar para o computador pessoal.
No conto de Fialho, a necrófila é Carolina, a Ruiva, filha do coveiro e órfã de mãe. Ainda virgem – e passo a citar Fialho:
“Nas horas de calor, de verão, quando sob os ciprestes os empregados do cemitério dormiam, ia devagarinho, sem ser pressentida, à casa dos depósitos, escolhia os cadáveres dos moços, dos belos, se os havia, e como um pequeno vampiro sequioso entreabria as mortalhas, despregando com uma navalhinha as camisas; metia a mão devagarinho pelo peito, metia, escorregando-a ao longo das carnes, beliscando-as levemente, com prazer”.
E a história, que é mais novela do que conto, vai de desgraça em desgraça. O autor obriga o coveiro a enterrar a própria filha. O texto acaba com o narrador a olhar a caveira da Ruiva em cima da sua mesa de trabalho.
Ao menos, não foram atribuídas a Fialho de Almeida tendências sexuais desviantes.



sábado, 28 de março de 2015


HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA

V

WILLIAM HARVEY  E A GRANDE CIRCULAÇÃO



William Harvey nasceu em 1578 e faleceu em 1657. Fez os primeiros estudos em Folkstone, a sua terra natal, e mudou-se depois para Cantuária, onde frequentou a escola real. Aos quinze anos, transferiu-se para Cambridge, onde estudou durante meia década. A seguir, viajou pela Europa. A partir de 1599, frequentou a Universidade de Pádua, sob a orientação de Fabrício de Acquapendente e formou-se em Medicina aos 24 anos. Note-se que a Universidade de Pádua, a mais prestigiada Escola Médica da altura, está presente em todos os artigos desta pequena série. O nome de Fabrício ficou associado à descoberta das válvulas venosas cuja existência fora descrita pelo nosso Amato Lusitano 24 anos mais cedo.
Feito médico, Harvey regressou a Cambridge onde obteve o doutoramento. Estabeleceu-se a seguir em Londres e entrou para o Colégio dos Médicos. Iria trabalhar no Hospital de S. Bartolomeu durante quase toda a vida. O seu prestígio e o casamento com a filha do doutor Lancelot Brown, médico da rainha Isabel e de James I valeram-lhe a nomeação como médico do rei James I. Morto este, passou a tratar o novo rei Carlos I.
A reflexão sobre os conhecimentos anatómicos reunidos ao longo dos dois séculos anteriores e a o começo do entendimento de alguns mecanismos fisiológicos do corpo humano permitiram a William Harvey dar início às investigações que culminaram, em 1628, com a descrição da grande circulação sanguínea.
Andrea Cesalpino já se tinha apercebido de que o movimento do sangue nas veias se fazia sempre da periferia para o coração, enquanto o circuito essencial da pequena circulação fora desvendado pelos trabalhos de Ibn al-Nafis e publicitado por Miguel Servet e Realdo Colombo.
William Harvey fez muitas autópsias humanas e animais, mas compreendeu cedo que havia pouco a aprender no estudo de cadáveres, uma vez que o sangue se movimentava apenas em organismos vivos. Observou sistematicamente, à lupa, os batimentos cardíacos de uma série de pequenos animais, entre os quais se incluíam caracóis, moscas e camarões. Escreveu: «se os anatomistas fossem tão versados na dissecção de animais inferiores como o são no corpo humano, muitas coisas que até hoje os deixam perplexos seriam compreendidas sem dificuldades».
Julgou-se, durante séculos a fio, que o sangue tinha uma existência muito curta, formando-se no fígado para se extinguir rapidamente nos órgãos periféricos. Foi Harvey quem postulou que a sua existência era, afinal, relativamente prolongada. O médico inglês calculou a quantidade de sangue expelido diariamente pelo ventrículo esquerdo. Mesmo fazendo as contas muito por baixo, chegou às centenas de litros. Nunca o fígado seria capaz de produzir tamanha quantidade de sangue. O sangue contido nas artérias e veias tinha a mesma origem, não sendo produzido em partes diferentes do corpo humano. O sangue arterial não era consumido na periferia, mas regressava pelas veias ao coração para voltar a circular por todo o organismo. Os ventrículos contraíam-se quase ao mesmo tempo, expelindo o sangue para a aorta e para a artéria pulmonar. Todo o sangue do ventrículo direito seguia para os pulmões, regressando, pelas veias pulmonares, ao ventrículo esquerdo.


Em 1628, Harvey publicou a monografia Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in animalibus que ficou conhecida pela abreviatura «De motu cordis» e revolucionou as bases em que a Medicina assentara durante mais de um milénio. O investigador escolheu a Feira do Livro de Frankfurt, para lançar a sua obra. O seu reconhecimento foi imediato, assim como o escândalo que despertou. Um grande número de médicos conhecidos apressou-se a expressar o desagrado pela nova teoria e houve quem o chamasse charlatão. A sua reputação profissional foi afetada negativamente e um número apreciável dos seus doentes abandonou-o.
No entanto, Harvey utilizara o método experimental, que se havia de impor mais tarde na investigação científica. Qualquer ideia nova deveria mostrar a sua validade sujeitando-se à experimentação. As suas experiências foram repetidas por terceiros e a verdade veio ao de cima. Diz Namora que «William Harvey foi dos raros génios da Medicina que assistiram á consagração da sua obra».
Harvey foi contemporâneo de Shakespeare e de Descartes. Shakespeare escreveu o Hamlet enquanto Harvey estudava em Pádua.


     René Descartes entusiasmou-se com a descoberta da circulação do sangue e publicitou-a nos seus livros As Paixões da Alma e o Discurso do Método. A noção de «espírito», tão cara aos antigos, foi reformulada por Descartes: «porque o que eu chamo espíritos não é mais do que matéria, com a particularidade única de ser constituído por corpos muito pequenos que se movem muito depressa.»

Fontes:

Barradas, Joaquim. A arte de Sangrar de cirurgiões e barbeiros. Livros Horizonte, Lisboa, 1999.
Gutiérrez, F. A dissecção no Islão e no ocidente cristão na Idade Média. 22/agosto/2010, Terceira cultura (Internet).
Namora, F. Deuses e Demónios da Medicina. Publicações Europa América, Lisboa, 1968.
Vários. Wikipedia, Internet.


sexta-feira, 27 de março de 2015


HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA

IV

 DE CLAUDIO GALENO A WILLIAM HARVEY


De modo geral, o processo de aquisição do conhecimento desenvolve-se de forma progressiva, assentando cada avanço em conquistas anteriores. Não aconteceu exatamente assim com a compreensão da circulação sanguínea. Dissemos atrás que, para Galeno, o sangue não circulava: era formado continuamente no fígado e extinguia-se nos tecidos periféricos. A autoridade de Galeno impôs-se, na Medicina europeia e árabe, durante cerca de um milénio.



O primeiro médico do mundo a entender a pequena circulação sanguínea foi o árabe Abu-Alhassan Alauldin Ali Bin Abi-Hazem Al-Quarashi. Nasceu em Damasco em 1210 e faleceu em 1288. Ficou conhecido pelo nome de Ibn al-Nafis. Expôs as suas conceções no Comentário ao Canon de Avicena, quase quatro séculos antes da publicação da obra decisiva de William Harvey. Nem Leonardo da Vinci, que entendeu o funcionamento das válvulas cardíacas antes do nascimento de Vesálio, nem o próprio André Vesalio, que negou, na segunda edição da sua obra fundamental De humani corporis fabrica, em 1555, a existência da comunicação interventricular, essencial para a teoria de Galeno, tiveram conhecimento dos trabalhos de al-Nafis.



Miguel Servet publicou em 1553 a sua obra Christianismi Restitutio em que descrevia o mecanismo da pequena circulação sanguínea. Seria um conhecedor da literatura muçulmana e judaica e terá tido acesso aos escritos de Ibn al-Nafis, traduzidos para o latim em 1547 por Andrea Alpago di Belluno. Não fez, contudo, referência à descoberta do médico árabe. Involuntariamente ou não, ficou, até ao começo do século XX, com os louros atinentes à descoberta da pequena circulação sanguínea.



Matteo Realdo Colombo (1516-1559), discípulo de Vesálio e seu sucessor na Cátedra de Anatomia em Pádua, resumiu os avanços científicos dos anatomistas que o precederam. Reafirmou a ausência de comunicação interventricular, descreveu os mecanismos de abertura e encerramento valvulares e voltou a explicar a pequena circulação, confirmando os escritos de Miguel Servet com vivissecções de cães e outros animais. O seu livro De Re Anatomica foi publicado meses após a sua morte. Inclui algumas descobertas originais, como a expansão arterial com as pulsações e o encerramento da válvula pulmonar durante a diástole para impedir o refluxo sanguíneo. O seu contributo mais importante para a circulação sanguínea terá sido a descoberta de que a ação principal do coração residia na sístole e não na diástole.
Realdo Colombo foi um personagem controverso. Ao contrário de outros médicos ilustres, começou por ter formação cirúrgica e conheceria mal os textos clássicos. Ficaram célebres as suas críticas a Vesálio e a suposta usurpação da primazia de Fallopio na descrição do clitóris. Realdo, na sua obra, nem sempre citou devidamente os anatomistas que o precederam. Muitos médicos, incluindo William Harvey, ficaram convencidos de que tinha sido ele o descobridor da pequena circulação.   



Andrea Cesalpino nasceu em Arezzo, na Toscânia, em 1519. Viria a falecer em Roma em 1603. Estudou com Realdo Colombo. É sobretudo conhecido na história da ciência como botânico. Foi o primeiro médico a fazer referência à circulação do sangue. Afirmou que o centro do sistema circulatório residia no coração e não no fígado. Percebeu que o sangue fluía nas veias apenas numa direção, a do coração, ainda que não tenha entendido que circulava em circuito fechado. Nas suas obras Quaestionum medicarum Libri II e Facultatibus medicamentis Libri II, publicados em 1593, postulou que o sangue se deslocava continuamente da veia cava para o coração e percorria o circuito pulmonar até à aorta. Embora admitisse que algum sangue venoso passava diretamente para as artérias, assomou-se do entendimento da grande circulação. Estava aberto o caminho para o trabalho de William Harvey.




quinta-feira, 26 de março de 2015

HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA
III
IBN AL-NAFIS, MÉDICO DE DAMASCO


O árabe Abu-Alhassan Alauldin Ali Bin Abi-Hazem Al-Quarashi, nascido em Damasco em 1210 e conhecido pelo nome de Ibn al-Nafis foi o primeiro médico do mundo a entender a pequena circulação sanguínea. Os seus escritos andaram perdidos durante muito tempo, até poderem contribuir para o progresso da Medicina moderna.
Ibn al-Nafis escreveu:
«O sangue da câmara direita do coração deve chegar à câmara esquerda, mas não existe uma via direta entre eles. O septo espesso do coração não é perfurado e não tem poros visíveis, como Galeno pensou. O sangue da câmara direita deve fluir através da artéria pulmonar para os pulmões, distribuído por meio das suas substâncias, ser ali misturado com o ar, passar através da veia pulmonar para alcançar a câmara esquerda do coração e lá formar o espírito vital…»  
Note-se que esta tradução não é feita à letra e que alguma terminologia foi modernizada.
Afigura-se inconcebível que algum médico se tenha atrevido a contrariar frontalmente as opiniões de Galeno sem uma experiência anatómica consistente. As dissecções animais não poderiam ser suficientes, dada a possibilidade de a analogia ser imperfeita. É, aliás, improvável que os muçulmanos aceitassem dissecar porcos, animais pelos quais sentiam repugnância. Al-Nafis dissecou seguramente cadáveres humanos.
O médico árabe descreveu também a anatomia dos pulmões:
«Os pulmões são compostos de partes, uma das quais são os brônquios, a segunda, os ramos da arteria venosa e a terceira, os ramos da arteriosa cava, todas elas ligadas por carne porosa solta».
Afirmou ainda que os nutrientes para o coração eram extraídos das artérias coronárias:
«A declaração de Avicena de que o sangue que está no lado direito é para nutrir o coração não é totalmente verdadeira, pois o alimento para o coração é obtido a partir do sangue que passa através dos vasos que permeiam o corpo do coração».
Ibn al-Nafis aprendeu Medicina com Aldakwar e estudou os trabalhos dos árabes Rhazes e Avicena e do judeu Maimónides. Foi médico pessoal do sultão e trabalhou no hospital Al-Mansouri, no Egipto. Faleceu no final de 1288, quando Mondino de Luzzi era adolescente.
As observações de al-Nafis foram registadas quase 400 anos antes dos trabalhos de William Harvey sobre a circulação sanguínea. Curiosamente, os clérigos interditaram as autópsias humanas na maior parte do mundo arábico-islâmico. O próprio al-Nafis, que além de médico era especialista em jurisprudência islâmica, condenou publicamente a prática de autópsias humanas por as considerar contrárias à sharia e à compaixão. Paradoxalmente, quase todos os estudiosos da sua obra sustentam que ele e os seus discípulos recorreram repetidamente a dissecções humanas. De outro modo, não teria sido possível compreender a anatomia nem esboçar o conhecimento da fisiologia da pequena circulação. Note-se que o trabalho de Ibn al-Nafis representou provavelmente a contribuição mais importante dos médicos medievais muçulmanos para o conhecimento da Medicina.
Lawrence Conrad (citado por Gutiérrez) afirmou em 1985 que, embora a experimentação com corpos humanos fosse muito mal vista pelos maometanos, essa prática, ao contrário da mutilação de cadáveres, nunca foi formalmente proibida. Acreditava-se que os mortos continuavam a sentir a dor e que, no Juízo Final, os seres humanos se apresentariam perante Alá em corpo e alma, devendo, nessa, altura estar completos. É interessante anotar que alguns estudiosos de História da Medicina, entre os quais se conta Fernando Namora, consideram que o árabe Ibn al-Nafis, inibido pelas suas convições religiosas, nunca praticou autópsias humanas. 

Fontes:
Barradas, Joaquim. A arte de Sangrar de cirurgiões e barbeiros. Livros Horizonte, Lisboa, 1999.
Bedrikow, R., Golin, V. Carta ao editor. A história da descoberta da circulação pulmonar. J. Pneumologia vol.21 nº1, São Paulo, jan/fev 2000.
Botelho, J.B.  Miguel Servet: a resistência aos dogmas católicos e protestantes. Publicado na Internet, em História da Medicina, em 04/04/2012.
Gutiérrez, F. A dissecção no Islão e no ocidente cristão na Idade Média. 22/agosto/2010, Terceira cultura (Internet).
Namora, F. Deuses e Demónios da Medicina. Publicações Europa-América, Lisboa, 1968.


quarta-feira, 25 de março de 2015

HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA
II
MIGUEL SERVET

INOVADOR OU TRADUTOR?

        

Foi, durante séculos, atribuído a Miguel Servet o mérito de ter percebido, antes de todos, o mecanismo da pequena circulação. Leonardo da Vinci andou lá perto, ao entender os movimentos de abertura e fecho das válvulas cardíacas e André Vesálio, na segunda edição da Fabrica, negou a existência dos minúsculos orifícios que, no entender de Cláudio Galeno, asseguravam a comunicação interventricular.
Lembremos que as dificuldades sentidas na compreensão da circulação sanguínea assentavam nos dados obtidos pela dissecção de cadáveres humanos e animais na antiguidade: não se encontrava sangue nas artérias. Segundo Erasístrato de Alexandria(300-250 a.c.), as veias continham sangue e as artérias distribuíam ar pelo organismo. 


Erasístrato de Chio. Juntamente com Herófilo, fundou a Escola de Anatomia de Alexandria. 

Galeno (129-200 d.c.) supunha que o sangue era produzido no fígado e levado pelas veias até aos órgãos periféricos, não voltando ao coração. Transformava-se na matéria dos tecidos que alimentava. O fígado era obrigado à produção contínua de sangue, o qual seguia pela veia cava superior até à aurícula direita e ao ventrículo homolateral. Existiriam poros no septo interventricular, permitindo a passagem, para o lado esquerdo, de uma pequena quantidade de sangue que, sujeito à influência do calor inato do coração e do pneuma, existente no ar, se expandia e ficava imbuído do espírito vital que era levado pelas ramificações arteriais a todas as partes do corpo. Os pulmões serviam para arrefecer o sangue e o coração. Este modo de ver as coisas dominou a arte médica durante mais de um milénio.
A igreja católica queimou alegremente os exemplares do Christianismi Restitutio que consegui apanhar. A revolução fisiológica contida nessas páginas apenas foi divulgada anos após a publicação do livro L`Exercitatto anatomica de motus cordis et sanguinis circulatione (Exercício anatómico sobre o movimento do coração e do sangue dos animais), de William Harvey.
Miguel Servet não chegou a explicar as bases em que assentou a sua conceção revolucionária da pequena circulação sanguínea. Em 1924, o médico egípcio Muhyo Altawi descobriu em Berlim, na Biblioteca Estatal Prussiana, manuscritos perdidos do médico árabe Abu-Alhassan Alauldin Ali Bin Abi-Hazem Al-Quarashi, nascido em Damasco em 1210 e conhecido pelo nome de Ibn al-Nafis. 


Terá sido Ibn al-Nafis o primeiro médico do mundo a entender a pequena circulação sanguínea. Expôs as suas conceções no Comentário à Anatomia do Canon de Avicena, quatro séculos antes da publicação da obra decisiva de William Harvey.
Servet seria um conhecedor da literatura muçulmana e judaica e terá tido acesso aos escritos de Ibn al-Nafis, traduzidos para o latim em 1547 por Andrea Alpago di Belluno. Resta-lhe a glória de ter sido o primeiro a divulgar na Europa o mecanismo correto da pequena circulação sanguínea.


Fontes:
Barradas, Joaquim. A arte de Sangrar de cirurgiões e barbeiros. Livros Horizonte, Lisboa, 1999.
Bedrikow, R., Golin, V. Carta ao editor. A história da descoberta da circulação pulmonar. J. Pneumologia vol.21 nº1, São Paulo, jan/fev 2000.
Botelho, J.B.  Miguel Servet: a resistência aos dogmas católicos e protestantes. Publicado na Internet, em História da Medicina, em 04/04/2012.
Gutiérrez, F. A dissecção no Islão e no ocidente cristão na Idade Média. 22/agosto/2010, Terceira cultura (Internet).


terça-feira, 24 de março de 2015

HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA
I
MIGUEL SERVET
UM MÉDICO HEREGE
        

Atravessamos uma época de intolerância religiosa em que se volta a matar em nome de Deus. Se, atualmente, são alguns muçulmanos que se entregam ao radicalismo, será bom não esquecer que na Europa, durante séculos, a chamada heresia foi muitas vezes punida com a morte na fogueira. Curiosamente, o ódio a quem se atrevia a pensar de modo diferente do oficial chegou a irmanar católicos e calvinistas, que se detestavam mutuamente. O caso de Miguel Servet, a quem, durante séculos, foi atribuída a descoberta da pequena circulação sanguínea, é exemplar. O médico e pensador espanhol cometeu a proeza de ser queimado por duas fés: vivo, em Genebra, pelos calvinistas, em 1553, e em imagem, em Paris, pela igreja católica.
Miguel Servet (Michael Servetus) nasceu, provavelmente em 1511, na povoação espanhola de Villanueva de Sigena (Huesca, Aragão). Estudou Direito em Toulouse e Medicina em Paris. Viajou pela Europa e conheceu alguns reformadores notáveis. Aos vinte anos, publicou a obra De Trinitatis erroribus (Os erros da Trindade) em que negava o dogma da Trindade e a divindade de Cristo. A juventude emprestava-lhe o destemor: à época, o código justiniano impunha a pena de morte a quem recusasse aceitar a doutrina da Trindade.
Servet leu a Bíblia da primeira à última página e não encontrou a mínima referência à trindade divina. Concluiu que essa doutrina havia sido forjada no Concílio de Niceia, no ano 325 da era cristã.
Miguel Servet praticou medicina na região de Lyon durante cerca de quinze anos. Foi médico pessoal de Guy de Maugiron, vice-governador do Dauphiné, e do arcebispo Palmier de Viena.
Em 1553, já na idade madura, publicou a obra intitulada Christianismi Restitutio (Restituição do Cristianismo), em que rejeitava a ideia de predestinação das almas para o inferno. No mesmo livro, descreveu a circulação pulmonar. Explicava que o sangue ia do coração aos pulmões e regressava regenerado.
 «O espírito vital regenera-se nos pulmões de uma mistura de ar inspirado e de sangue delicado elaborado no ventrículo direito do coração. Sem dúvida, esta comunicação não se faz através das paredes do coração, como se acreditou até hoje, e é impulsionado até aos pulmões por meio de um grande orifício».
Não explicou como atingira esse conhecimento.
Trocou correspondência com João Calvino, criador de uma vertente do protestantismo. A permuta de ideias acabou mal. Calvino, que ficou conhecido como humanista, não deu mostras dessa qualidade na perseguição que moveu a Servet. Chegou a escrever: «se a minha autoridade valesse algo, eu nunca lhe permitiria viver».

                            João Calvino
  
Em abril de 1553, Miguel Servet encontrava-se em Viena e foi preso pelas autoridades eclesiásticas. Conseguiu escapar da prisão. Em junho do mesmo ano, apesar de não estar em França, foi condenado pela Inquisição local sob a acusação de heresia. Os seus livros foram queimados.  
O cerco apertava-se. Servet pensou refugiar-se em Itália. Teve a pouca sorte de se deter em Genebra, fiado na tolerância dos calvinistas. O erro custou-lhe a vida.
        Alguma atração inexplicada o ligava a João Calvino. A 13 de agosto, ouviu um sermão do reformador. Foi reconhecido e preso. Num julgamento alegadamente presidido por Calvino, foi condenado à morte por negar a Trindade e recusar o batismo infantil.



  A 27 de outubro de 1553, Miguel Servet foi queimado vivo numa fogueira de lenha verde. A lenha verde ardia mais devagar e aumentava o sofrimento dos supliciados.

Fontes: 
Bedrikow, R., Golin, V. Carta ao editor. A história da descoberta da circulação pulmonar. J. Pneumologia vol.21 nº1, São Paulo, jan/fev 2000.
Botelho, J.B. Miguel Servet: a resistência aos dogmas católicos e protestantes. Publicado na Internet, em História da Medicina, em 04/04/2012.