Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

sexta-feira, 19 de junho de 2015


        

         MEDICINA CHINESA E OCIDENTAL

          ALGUNS CONCEITOS PARALELOS


                               III

            OS "ESPÍRITOS" DE GALENO 

         E O "QI" DOS MÉDICOS CHINESES


A Medicina e a Magia nasceram de mãos dadas. Os vestígios desta geminação persistem nas sociedades modernas. Quando era preciso explicar um fenómeno incompreensível, recorria-se à intervenção dos espíritos.
Será interessante procurar analogias entre os "espíritos" de Galeno e o Qi, ou energia vital, dos médicos chineses.



Para Cláudio Galeno, certos aspetos da fisiologia humana eram influenciados por espíritos.
O «espírito natural» permitia ao fígado transformar o quilo em sangue.
O «espírito vital» nascia da combinação do calor inato do coração e do «pneuma», existente no ar inspirado. O sangue contido nas cavidades esquerdas do coração seria conduzido pelas artérias aos órgãos e tecidos periféricos. O calor gerado no coração e no sangue deveria ser dissipado pelos pulmões.
Finalmente, o «espírito animal» era formado no cérebro e depois transmitido a todo o organismo pelos nervos (que seriam estruturas ocas), para desencadear os movimentos e receber as sensações.1
      Passemos à medicina oriental.
«Qi é a matéria que está em vias de se tornar essência, ou a energia que se aproxima da materialização». A definição não é de Einstein, mas aproxima-se da Teoria da Relatividade.
Os médicos chineses atribuíam ao Qi uma grande versatilidade funcional. Eram cinco os seus tipos mais importantes.
O Qi central, ou «mar de Qi» localizava-se no peito.
Havia o Qi de cada órgão e de cada víscera, com características determinadas por eles, e o Qi dos meridianos.
O Qi protetor ou imunológico, que circulava, «forte e corajoso», defendendo o organismos das agressões externas.
Por fim, o Qi nutriente, gerado no sangue, distribuiria a energia proveniente da transformação dos alimentos por todo o corpo.



O Qi circula no organismo humano como um fluxo contínuo que segue um percurso certo, equilibrado, durante o qual vai sofrendo as alterações próprias da Natureza, passando de energia positiva (Yang) a negativa (Yin), para regressar à primeira forma de acordo com as zonas por onde passa e as influências que sofre do meio ambiente.
Se não houver obstáculos nocivos ao fluir natural e harmonioso desta energia, o corpo mantém-se saudável. Quando surge o desequilíbrio, cabe ao médico determinar onde falhou a energia e corrigi-la com tratamentos adequados.2

Para além do Qi, e segundo os mestres chineses, intervêm na fisiologia humana duas outras «essências», mistas de espírito e matéria: o Jing e o Shen. 
O Jing suporta a vida orgânica, intervindo na reprodução e no processo de crescimento. Compreende uma parte congénita e outra adquirida. É associado a um movimento orgânico mais lento que o resultante da ação do Qi.
O Shen costuma ser traduzido por «espírito», embora tenha um componente material. É a vitalidade, o motor que dinamiza o Qi e o Jing, ajudando ao funcionamento intelectual do homem. A dismnésia, a confusão mental e a inibição de ação são atribuídos à perturbação do Shen.

1 – A Arte de Sangrar de Cirurgiões e Barbeiros. J. Barradas, Livros Horizonte, Lisboa, 1999.

2 – Medicina chinesa – Em busca do equilíbrio perdido. C. Jorge e B. Coelho. Instituto Cultural de Macau e Círculo de Leitores,1988.

quinta-feira, 18 de junho de 2015



MEDICINA CHINESA
II
OS CINCO ELEMENTOS

   A história da medicina chinesa confunde-se com a lenda. Os "três imperadores sábios" (Fu Hsi, Shen Nong e Huang Ti) terão vivido 2.600 anos antes de Cristo. Hipócrates nasceria dois milénios mais tarde. Hua Tuo (ou Wá Tó), o "divino cirurgião", alegadamente o primeiro médico da China a recorrer à anestesia, combinando aguardente de arroz com cannabis, foi uma personagem real, tendo vivido no segundo século da era cristã. 
Para os filósofos chineses, existem, na natureza, cinco elementos básicos: a madeira, o fogo, a terra, o metal e a água.
Eram menos, na vertente ocidental do mundo. Empédocles, de Agrigento, contemporâneo de Zenão, terá sido o primeiro a propor a teoria dos quatro elementos. Tudo o que existia resultava da mistura de quatro componentes essenciais: a água, a terra, o ar e o fogo. Segundo Platão, esses elementos coexistiram de forma desordenada até à intervenção divina. Foi Deus quem os combinou de forma harmoniosa, dando origem a seres aperfeiçoados.
Não se sabe se ocorreram, no passado, trocas de ideias e influências mútuas entre as várias filosofias. O fogo, a terra e a água eram comuns a ambas.
Entre os chineses, a madeira estaria na origem do fogo que, por sua vez, criaria a terra, ao transformar a matéria em cinza. A terra abrigaria o metal, o qual, fundido, passaria à forma líquida. A água voltaria a produzir madeira. O processo de destruição ajuda a compreender o essencial da teoria: as plantas recolhem a energia da terra; a terra elimina a água; a água apaga o fogo, que derrete o metal. Um machado de metal destrói a madeira. 
O ar dos filósofos gregos não entra nestas contas. Aliás, o vento é contado entre as «seis influências perniciosas» para a saúde.
Na medicina chinesa não se encontram equivalentes aos humores da teoria hipocrática. Não deixa, contudo, de ser curioso comparar os dois esquemas seguintes.

RELAÇÃO ENTRE OS ÓRGÃOS, OS ELEMENTOS, OS PONTOS CARDEAIS E AS ESTAÇÕES DO ANO (Retirado do livro sobre Medicina chinesa, de C. Jorge e B. Coelho)

QUALIDADES DOS ELEMENTOS, HUMORES. CORRESPONDÊNCIAS

           (Retirado do livro A arte de sangrar, de J. Barradas)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

MEDICINA CHINESA E OCIDENTAL



ALGUNS CONCEITOS PARALELOS
I
A DIALÉTICA. O YANG E O YIN

Resolvi preparar, para este blogue, dois ou três pequenos artigos sobre a medicina tradicional chinesa. Comecei por ler o interessante livrinho de Cecília Jorge e Beltrão Coelho intitulado «Medicina Chinesa – em busca do equilíbrio perdido», publicado pelo Instituto Cultural de Macau, em associação com o Círculo de Leitores, em 1988.
Para além da atenção à higiene pessoal e às medidas preventivas, patentes nesta divulgação de antigos conceitos da medicina oriental, achei particularmente interessante a preocupação com o reforço das defesas imunitárias, segundo a noção que os chineses delas faziam.


Encontram-se semelhanças notáveis entre diversas ideias chinesas e ocidentais, a começar pelos conceitos de Yang e Yin, energias geminadas e opostas que nos remetem de imediato para as ideias de unidade e luta dos contrários da filosofia hegeliana.  
    Para os chineses, o Universo é gerido por duas forças contrárias - o Yang, «calor radical», princípio masculino e positivo e o Yin, «húmido radical», elemento feminino e negativo. O equilíbrio destas duas forças gera, no  mundo, a harmonia. O predomínio duma ou doutra conduz à desordem.


HEGEL


A dialética tem raízes profundas na cultura ocidental. Segundo Aristóteles, teria sido iniciada por Zenão de Eleia, que viveu aproximadamente entre 490 e 430 a.C. Na Grécia antiga, a dialética seria apenas a arte de argumentar no diálogo. O filósofo punha uma ideia em discussão – era a «tese». Havia quem se opusesse com um pensamento contraditório – era a «antítese». Da discussão nascia a «síntese», que abrangia partes de ambos os conceitos.
O conceito de dialética está longe de ser uniforme e assume significados diferentes para distintos pensadores. Heráclito, cuja atualidade poucos põem em causa, terá sido o filósofo dialético mais radical da velha Grécia. Hegel atribuía à dialética um caráter idealista que interpretava o movimento do espírito. Engels considerou-a materialista. A segunda das três leis da dialética que Friedrich Engels propõe é a da interpenetração dos contrários. Os lados que se opõem constituem uma unidade.
Parece-me identificar, ao menos parcialmente, neste conceito, os princípios Yang e Yin da filosofia e da medicina chinesa. Para elas, o estado de saúde assenta no equilíbrio instável, em contínua modificação, das energias positiva e negativa simbolizadas na teoria cosmogónica do Yang-Yin. «Quando o “Yang” predomina, o corpo aquece, os poros fecham-se e o paciente começa a respirar com dificuldade, com falta de ar. A febre surge, a boca seca e a pessoa torna-se lenta e irritáve(citação do tratado clássico de «Medicina Interna» Huang Ti Nei Ching.)


HUANG TI – O Imperador Amarelo, suposto autor do «Clássico de Medicina Interna».


terça-feira, 7 de abril de 2015

  NECROFILIA NA LITERATURA PORTUGUESA


      CAMILO CASTELO BRANCO



No caso de Camilo, chegou a tomar-se o texto pelo autor e o nosso grande escritor nunca se livrou de todo da fama de necrófilo.
A ideia de necrofilia foi, a meu ver e no de outros, forjada pelo próprio escritor quando publicou na «Aurora do Lima», em Viana, a narrativa «Impressão indelével», que seria incluída, no mesmo ano no volume «Duas horas de leitura». Voltei a ler três contos seus com o agrado de sempre. Camilo escreve tão bem que até as suas obras menores se leem com prazer.
“Impressão indelével” não foi a primeira história em que Camilo recorreu a associações macabras para impressionar os leitores.



Neste livro publicado recentemente os editores juntaram dois contos e uma pequena novela, escritos em alturas diferentes. “O esqueleto” data de 1848, enquanto “A caveira” é de 1855 e a “Impressão indelével” remonta a 1857. Entram neste pequeno volume dois esqueletos completos e uma caveira avulsa. Nas duas últimas narrativas, os protagonistas são enterrados juntamente com as ossadas das mulheres amadas. Mesmo sem lhes juntar na história de Fanny Owen, já é necrofilia de sobra…
Vou concentrar-me na “Impressão indelével” porque nela o escritor descreve, na primeira pessoa, a exumação do cadáver de Maria do Adro e fá-lo com tal realismo que até o próprio sobrinho António de Azevedo Castelo Branco, levou a história a sério. António de Azevedo declarou, em 1890, ao biógrafo do tio materno, Alberto Pimentel, que, em casa do padre António de Azevedo, seu tio paterno, estiveram, durante anos, os ossos de Maria, sem que o inocente sacerdote disso desse conta.


Esta é a casa do padre António, cunhado de Carolina, a irmã de Camilo. O escritor morou ali durante vários meses, na sua adolescência.
A suposta exumação foi relativamente precoce (um mês após o óbito) e não consta que padre António sofresse de anósmia.
Por outro lado, a paixão platónica que o nosso Camilo terá tido por Margarida Maria Dias, a Maria do Adro, coincide, no tempo, com o seu casamento com a Joaquina de Friúme, de quem viria a ter uma criança. O futuro escritor abandonou mãe e filha. Ambas faleceram cedo.


Maria do Adro era filha duma viúva pobre e morreu de tuberculose. Morou nesta casa, também em Vilarinho da Samardã.
Maria do Adro era cinco anos mais velha que Camilo, que casou aos quinze ou dezasseis. De forma para mim inexplicável, no conto, a iniciativa da profanação do cadáver parte do cunhado médico, Francisco José de Azevedo, que perguntou a Camilo, no dia seguinte ao seu regresso e ao recebimento da notícia da morte da Maria do Adro:
Sabe alguma coisa de anatomia?
−Eu fiz um exame.
−Atreve-se a ajudar-me a preparar um esqueleto?
−Poderei ajudá-lo.
−Então guarde segredo, porque é preciso que meu mano padre o não saiba. Temos de ir à igreja desenterrar o cadáver duma rapariga que morreu tísica.
−A Maria do Adro? – atalhei eu com estranha vivacidade.
Lembre-se que Camilo chegou a estudar Medicina e obteve aprovação em duas cadeiras, uma das quais foi Anatomia.



Para que quereria o Doutor Azevedo um cadáver em putrefação? O autor não se dá ao trabalho de explicar as intenções do cunhado.
                                                         

O nosso grande Egas Moniz foi um dos que enfiaram o barrete, abordando a suposta necrofilia de Camilo na sua interessante obra «A vida Sexual». Eu tenho um exemplar desse livro, mas não o consegui encontrar. Tive de procurar outras fontes.
Ainda era o tempo em que a patologia psiquiátrica era encarada com preocupações morais. Os médicos faziam juízos de valor ético sobre as perturbações mentais dos doentes. Escreveu Moniz:
“ A necrofilia é a mais repugnante de todas as matérias que aviltam a vida sexual do homem”. Continuou adiante, referindo-se a Camilo:
O que apenas desejei patentear é que, pelo exame das provas que as biografias publicadas nos fornecem (baseava-se essencialmente no trabalho de Alberto Pimentel, “O romance do romancista”) não podemos deixar a suspeita de que Camilo fosse um necrófilo”. Dito de outro modo: absolvia-o por falta de provas, sem deixar de sugerir aspetos reprováveis da vivência de Camilo. Não seria propriamente um necrófilo, mas…


Em 1925, comemorou-se o centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. As comemorações incluíram a inauguração de um busto do escritor, a atribuição do seu nome a uma rua da cidade do Porto e a publicação de uma obra intitulada “In memoriam de Camilo”, com contributos de muitas personalidades notáveis da vida pública e intelectual do país. Egas Moniz deu também colaborou na coletânea de textos. Foi pouco feliz na escolha do título do seu trabalho. Intitulou-o “A necrofilia em Camilo”.
De facto, no texto desmente o cabeçalho. Apesar de continuar a acreditar o homenageado desenterrara o corpo de Maria do Adro – “Não há dúvida que Camilo assistiu com seu cunhado à exumação do cadáver da sua antiga namorada” − Egas Moniz conclui o seu artigo afirmando que ”...Camilo não só nunca foi um anormal genésico, mas não mostra, por este relato, o mais leve pendor para o campo das perversões sexuais”. O comportamento do escritor teria “roçado pelo normal”.
A meu ver e no de Alexandre Cabral, o nosso Prémio Nobel da Medicina não tem razão neste caso.
Não foi, contudo, o único a pensar assim. António Sardinha, ideólogo do “fundamentalismo lusitano”, bem distante politicamente de Egas Moniz, também colaborou no “In memoriam de Camilo”. Aceitou a anormalidade de Camilo e atribuiu-a à sua ascendência hebraica.
Já em 1965, o médico João de Araújo Correia no prefácio ao livro “Camilo em Ribeira de Pena”, do também médico Mário de Menezes, escreveu: “Egas Moniz não andou longe da verdade, considerando necrófilo o extravagante Camilo”.
Tanto quanto sei, deixaram-se levar pelo génio do escritor. Até Egas Moniz, de cujo espírito arguto todos nos orgulhamos, se deixou enganar.


Nas suas novelas, Camilo recorria a tudo o que pudesse cativar o interesse dos leitores. Nada há, no seu percurso de vida, que aponte para a existência de parafilias. Como os psiquiatras sabem, tais comportamentos repetem-se.
Em tempos, eu pus estas palavras na boca de Camilo: “É verdade, ou não, o que escrevo? Umas vezes é. Noutras, passa a ser. Um texto, ao verter-se no papel, ganha existência própria; faz-se real”.
Ao molhar o aparo no tinteiro, ainda sou eu; mudo no traçar das primeiras frases. Transformo-me; faço-me personagem e moro nos capítulos do romance; exponho a alma em cada artigo de gazeta.
Sou quem escreve. Sou também o que está escrito.
Disse Camilo ao seu amigo Freitas Fortuna, que lhe disponibilizou o jazigo de família para o último repouso:
Caveiras, só tive uma perto de mim quando estudava anatomia.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

          

         NECROFILIA NA LITERATURA PORTUGUESA

              FIALHO DE ALMEIDA

   
Qualquer médico sabe que a necrofilia é um padrão desviante do comportamento sexual em que a excitação é desencadeada pela visão de cadáveres ou pelo contacto com eles. 
Conhecem-se diversos casos em que os autores recorreram a descrições de necrofilia para chamarem a atenção dos leitores para as suas obras. Um dos mais emblemáticos será o poema "O noivado do Sepulcro" de Soares dos Passos. Quem não se lembra de:

                    "Vai alta a lua!Na mansão da morte
                      Já media noite com vagar soou..."

Quer Fialho de Almeida, quer Camilo Castelo Branco produziram obras literárias que tiveram a necrofilia por tema. Neste artigo, vou falar de Fialho.


Conheço «A Ruiva», de Fialho de Almeida, desde os meus catorze ou quinze anos. Por essa altura, eu lia tudo o que encontrava. O meu pai tinha a sua obra. Li a toda a coleção de «Os gatos» e a seguir, li "Os contos".  Lembro-me de ter achado «A Ruiva» uma narrativa erótica.
Fialho de Almeida ainda foi contemporâneo de Camilo. Nasceu quando Camilo Castelo Branco ia nos 32 anos e sobreviveu-lhe dezanove.


Fialho conhecia Camilo e apreciava-o. Dedicou-lhe os seus «Contos», em temos muito elogiosos.
Eu andava à procura da "Ruiva" de Fialho e encontrei a de Renoir.

Descobri, por acaso, que o pintor Pierre Renoir era pai do realizador de cinema Jean Renoir. Andrée Hessling, aqui retratada, usou também usou o nome de Catarina. Foi o último modelo do pai e a primeira atriz dos filmes do filho, que se casou com ela.


Voltei a ler «A Ruiva», desta vez na Internet. Encontra-se digitalizada e disponível gratuitamente, no sítio da Biblioteca Nacional e, pelo menos, noutro endereço eletrónico. É fácil de descarregar para o computador pessoal.
No conto de Fialho, a necrófila é Carolina, a Ruiva, filha do coveiro e órfã de mãe. Ainda virgem – e passo a citar Fialho:
“Nas horas de calor, de verão, quando sob os ciprestes os empregados do cemitério dormiam, ia devagarinho, sem ser pressentida, à casa dos depósitos, escolhia os cadáveres dos moços, dos belos, se os havia, e como um pequeno vampiro sequioso entreabria as mortalhas, despregando com uma navalhinha as camisas; metia a mão devagarinho pelo peito, metia, escorregando-a ao longo das carnes, beliscando-as levemente, com prazer”.
E a história, que é mais novela do que conto, vai de desgraça em desgraça. O autor obriga o coveiro a enterrar a própria filha. O texto acaba com o narrador a olhar a caveira da Ruiva em cima da sua mesa de trabalho.
Ao menos, não foram atribuídas a Fialho de Almeida tendências sexuais desviantes.



sábado, 28 de março de 2015


HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA

V

WILLIAM HARVEY  E A GRANDE CIRCULAÇÃO



William Harvey nasceu em 1578 e faleceu em 1657. Fez os primeiros estudos em Folkstone, a sua terra natal, e mudou-se depois para Cantuária, onde frequentou a escola real. Aos quinze anos, transferiu-se para Cambridge, onde estudou durante meia década. A seguir, viajou pela Europa. A partir de 1599, frequentou a Universidade de Pádua, sob a orientação de Fabrício de Acquapendente e formou-se em Medicina aos 24 anos. Note-se que a Universidade de Pádua, a mais prestigiada Escola Médica da altura, está presente em todos os artigos desta pequena série. O nome de Fabrício ficou associado à descoberta das válvulas venosas cuja existência fora descrita pelo nosso Amato Lusitano 24 anos mais cedo.
Feito médico, Harvey regressou a Cambridge onde obteve o doutoramento. Estabeleceu-se a seguir em Londres e entrou para o Colégio dos Médicos. Iria trabalhar no Hospital de S. Bartolomeu durante quase toda a vida. O seu prestígio e o casamento com a filha do doutor Lancelot Brown, médico da rainha Isabel e de James I valeram-lhe a nomeação como médico do rei James I. Morto este, passou a tratar o novo rei Carlos I.
A reflexão sobre os conhecimentos anatómicos reunidos ao longo dos dois séculos anteriores e a o começo do entendimento de alguns mecanismos fisiológicos do corpo humano permitiram a William Harvey dar início às investigações que culminaram, em 1628, com a descrição da grande circulação sanguínea.
Andrea Cesalpino já se tinha apercebido de que o movimento do sangue nas veias se fazia sempre da periferia para o coração, enquanto o circuito essencial da pequena circulação fora desvendado pelos trabalhos de Ibn al-Nafis e publicitado por Miguel Servet e Realdo Colombo.
William Harvey fez muitas autópsias humanas e animais, mas compreendeu cedo que havia pouco a aprender no estudo de cadáveres, uma vez que o sangue se movimentava apenas em organismos vivos. Observou sistematicamente, à lupa, os batimentos cardíacos de uma série de pequenos animais, entre os quais se incluíam caracóis, moscas e camarões. Escreveu: «se os anatomistas fossem tão versados na dissecção de animais inferiores como o são no corpo humano, muitas coisas que até hoje os deixam perplexos seriam compreendidas sem dificuldades».
Julgou-se, durante séculos a fio, que o sangue tinha uma existência muito curta, formando-se no fígado para se extinguir rapidamente nos órgãos periféricos. Foi Harvey quem postulou que a sua existência era, afinal, relativamente prolongada. O médico inglês calculou a quantidade de sangue expelido diariamente pelo ventrículo esquerdo. Mesmo fazendo as contas muito por baixo, chegou às centenas de litros. Nunca o fígado seria capaz de produzir tamanha quantidade de sangue. O sangue contido nas artérias e veias tinha a mesma origem, não sendo produzido em partes diferentes do corpo humano. O sangue arterial não era consumido na periferia, mas regressava pelas veias ao coração para voltar a circular por todo o organismo. Os ventrículos contraíam-se quase ao mesmo tempo, expelindo o sangue para a aorta e para a artéria pulmonar. Todo o sangue do ventrículo direito seguia para os pulmões, regressando, pelas veias pulmonares, ao ventrículo esquerdo.


Em 1628, Harvey publicou a monografia Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in animalibus que ficou conhecida pela abreviatura «De motu cordis» e revolucionou as bases em que a Medicina assentara durante mais de um milénio. O investigador escolheu a Feira do Livro de Frankfurt, para lançar a sua obra. O seu reconhecimento foi imediato, assim como o escândalo que despertou. Um grande número de médicos conhecidos apressou-se a expressar o desagrado pela nova teoria e houve quem o chamasse charlatão. A sua reputação profissional foi afetada negativamente e um número apreciável dos seus doentes abandonou-o.
No entanto, Harvey utilizara o método experimental, que se havia de impor mais tarde na investigação científica. Qualquer ideia nova deveria mostrar a sua validade sujeitando-se à experimentação. As suas experiências foram repetidas por terceiros e a verdade veio ao de cima. Diz Namora que «William Harvey foi dos raros génios da Medicina que assistiram á consagração da sua obra».
Harvey foi contemporâneo de Shakespeare e de Descartes. Shakespeare escreveu o Hamlet enquanto Harvey estudava em Pádua.


     René Descartes entusiasmou-se com a descoberta da circulação do sangue e publicitou-a nos seus livros As Paixões da Alma e o Discurso do Método. A noção de «espírito», tão cara aos antigos, foi reformulada por Descartes: «porque o que eu chamo espíritos não é mais do que matéria, com a particularidade única de ser constituído por corpos muito pequenos que se movem muito depressa.»

Fontes:

Barradas, Joaquim. A arte de Sangrar de cirurgiões e barbeiros. Livros Horizonte, Lisboa, 1999.
Gutiérrez, F. A dissecção no Islão e no ocidente cristão na Idade Média. 22/agosto/2010, Terceira cultura (Internet).
Namora, F. Deuses e Demónios da Medicina. Publicações Europa América, Lisboa, 1968.
Vários. Wikipedia, Internet.


sexta-feira, 27 de março de 2015


HISTÓRIA DA CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA

IV

 DE CLAUDIO GALENO A WILLIAM HARVEY


De modo geral, o processo de aquisição do conhecimento desenvolve-se de forma progressiva, assentando cada avanço em conquistas anteriores. Não aconteceu exatamente assim com a compreensão da circulação sanguínea. Dissemos atrás que, para Galeno, o sangue não circulava: era formado continuamente no fígado e extinguia-se nos tecidos periféricos. A autoridade de Galeno impôs-se, na Medicina europeia e árabe, durante cerca de um milénio.



O primeiro médico do mundo a entender a pequena circulação sanguínea foi o árabe Abu-Alhassan Alauldin Ali Bin Abi-Hazem Al-Quarashi. Nasceu em Damasco em 1210 e faleceu em 1288. Ficou conhecido pelo nome de Ibn al-Nafis. Expôs as suas conceções no Comentário ao Canon de Avicena, quase quatro séculos antes da publicação da obra decisiva de William Harvey. Nem Leonardo da Vinci, que entendeu o funcionamento das válvulas cardíacas antes do nascimento de Vesálio, nem o próprio André Vesalio, que negou, na segunda edição da sua obra fundamental De humani corporis fabrica, em 1555, a existência da comunicação interventricular, essencial para a teoria de Galeno, tiveram conhecimento dos trabalhos de al-Nafis.



Miguel Servet publicou em 1553 a sua obra Christianismi Restitutio em que descrevia o mecanismo da pequena circulação sanguínea. Seria um conhecedor da literatura muçulmana e judaica e terá tido acesso aos escritos de Ibn al-Nafis, traduzidos para o latim em 1547 por Andrea Alpago di Belluno. Não fez, contudo, referência à descoberta do médico árabe. Involuntariamente ou não, ficou, até ao começo do século XX, com os louros atinentes à descoberta da pequena circulação sanguínea.



Matteo Realdo Colombo (1516-1559), discípulo de Vesálio e seu sucessor na Cátedra de Anatomia em Pádua, resumiu os avanços científicos dos anatomistas que o precederam. Reafirmou a ausência de comunicação interventricular, descreveu os mecanismos de abertura e encerramento valvulares e voltou a explicar a pequena circulação, confirmando os escritos de Miguel Servet com vivissecções de cães e outros animais. O seu livro De Re Anatomica foi publicado meses após a sua morte. Inclui algumas descobertas originais, como a expansão arterial com as pulsações e o encerramento da válvula pulmonar durante a diástole para impedir o refluxo sanguíneo. O seu contributo mais importante para a circulação sanguínea terá sido a descoberta de que a ação principal do coração residia na sístole e não na diástole.
Realdo Colombo foi um personagem controverso. Ao contrário de outros médicos ilustres, começou por ter formação cirúrgica e conheceria mal os textos clássicos. Ficaram célebres as suas críticas a Vesálio e a suposta usurpação da primazia de Fallopio na descrição do clitóris. Realdo, na sua obra, nem sempre citou devidamente os anatomistas que o precederam. Muitos médicos, incluindo William Harvey, ficaram convencidos de que tinha sido ele o descobridor da pequena circulação.   



Andrea Cesalpino nasceu em Arezzo, na Toscânia, em 1519. Viria a falecer em Roma em 1603. Estudou com Realdo Colombo. É sobretudo conhecido na história da ciência como botânico. Foi o primeiro médico a fazer referência à circulação do sangue. Afirmou que o centro do sistema circulatório residia no coração e não no fígado. Percebeu que o sangue fluía nas veias apenas numa direção, a do coração, ainda que não tenha entendido que circulava em circuito fechado. Nas suas obras Quaestionum medicarum Libri II e Facultatibus medicamentis Libri II, publicados em 1593, postulou que o sangue se deslocava continuamente da veia cava para o coração e percorria o circuito pulmonar até à aorta. Embora admitisse que algum sangue venoso passava diretamente para as artérias, assomou-se do entendimento da grande circulação. Estava aberto o caminho para o trabalho de William Harvey.