Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

segunda-feira, 22 de junho de 2015


    PECULIARIDADES CHINESAS:

  MERIDIANOS, ACUPUNTURA E MOXABUSTÃO


Os meridianos são vias imaginárias de transporte. Dão passagem à energia e, por vezes, ao sangue. Percorrem o corpo, a profundidades variáveis.
É na rede de meridianos que se fundamenta a prática da acupuntura e, também, da moxabustão e de certas massagens. Comporta 365 pontos principais (o seu número é igual ao dos dias do ano). Atuando neles, mediante a introdução de agulhas, torna-se possível compensar a falta ou o excesso de Qi nos diversos órgãos, restabelecendo o equilíbrio necessário.


Existem dois meridianos principais: o do «caso dominante», que corre junto ao dorso e transporta a energia Yang, e o do «vaso da conceção», que cursa na parte de frente do corpo, também paralelo à coluna vertebral. Seguem-se seis meridianos Yin e outros seis Yang, relacionados com os órgãos e vísceras.
Outros meridianos de importância secundária asseguram a comunicação entre os principais, constituindo um sistema de vasos comunicantes que evita desequilíbrios da carga de energia em pontos diferentes do corpo.  
A acupuntura é uma prática chinesa milenar que, no decurso das últimas décadas, conheceu uma divulgação extraordinária no mundo ocidental. De forma que não deixa de ser curiosa, a Organização Mundial da Saúde considerou-a adequada para o tratamento de mais de quarenta afeções que vão das vertigens à gripe e às cataratas.



Os 365 pontos de acupuntura são locais onde os meridianos se superficializam.  
Diz-se que a picada é praticamente indolor. A forma das agulhas, a profundidade a que se devem introduzir e os tempos de terapêutica variam muito. Em determinadas circunstâncias, é conveniente fazê-las vibrar. Modernamente, a utilização de agulhas é associada à estimulação elétrica, ultrassónica e eletromagnética e à utilização de LASER.
Os mestres chineses esperam que a introdução das agulhas liberte o organismo da energia “saturada e estagnada”, permitindo a entrada de energia fresca.
Nem todas as ocasiões são favoráveis à terapia. As agulhas devem ser aplicadas em dias quentes e nunca em fase de Lua Nova, pois então a natureza atravessa um período de instabilidade, podendo entrechocar-se o Yin e o Yang.
Modernamente, encontrou-se uma base fisiológica para a ação benéfica da acupuntura na dor e noutras situações. A introdução das agulhas estimulará a produção de endorfinas que atuam em áreas cerebrais responsáveis pela modulação da dor, do humor e da ansiedade. A naloxona, um bloqueador dos recetores de endorfinas, bloqueia a analgesia induzida pela acupuntura.
A ingestão de chocolate e pimenta estimula também a produção de endorfinas.
A prática da moxabustão está tradicionalmente associada à acupuntura. É, aliás, uma espécie de acupuntura térmica. Consiste na aplicação localizada de calor em zonas escolhidas da pele. Eram utilizados procedimentos que produziam verdadeiras queimaduras, com dor e formação de cicatrizes.
Moxa é uma espécie de algodão da erva Artemísia. Queimado, produz um calor moderado e uniforme. Utiliza-se em bastões e cones. O bastão acesso é semelhante a um charuto e deve ser aproximado do ponto escolhido.


A Moxa tem sido misturada com alho, gengibre e sal. É também utilizada em tratamentos com ventosas de vidro, prática comum à medicina tradicional europeia, que os mais velhos de nós ainda recordam.


Gravura: retirada de Medicina Chinesa - em busca do equilíbrio perdido.
Fotografias: Internet



domingo, 21 de junho de 2015


   UM OLHAR SOBRE A MEDICINA CHINESA

         A ANATOMIA

O culto dos mortos interditava os estudos anatómicos, o que tornou a anatomia chinesa fantasiosa. A título de exemplo, o esqueleto humano seria composto por 360 ossos, não porque os tivessem contado (são 206, com variações) mas porque era esse o número das divisões do zodíaco.
A tradição chinesa privilegia o número 5. São 5 os elementos constituintes da natureza, 5 os planetas principais, 5 as cores mais admiradas e 5 os pontos cardeais (além dos nossos, incluem o Centro). Teriam de ser 5 as vísceras principais: fígado, baço, coração, pulmões e rins, todas dependentes do princípio feminino Yin. São também 5 as vísceras dependentes do princípio masculino Yang: intestino delgado, intestino grosso, estômago, bexiga e vesícula biliar. 


A falta de observação direta era compensada com a imaginação.
   Deixo aqui um fragmento de texto do médico português José Caetano Soares, que trabalhou em Macau durante muitos anos. Faz parte de «Notas sobre a Medicina Chinesa» e foi publicado pelo padre Manuel Teixeira no seu livro «A Medicina em Macau».

O tórax é fechado por três esternos, comporta o coração - órgão primordial, situado em pleno epigastro ou na parte alta da região do estômago e que, como particularidade, tem incluído um osso pequeno com a forma de uma sapeca (moeda). De cada lado estão suspensos à coluna os dois pulmões a constituir uma espécie de fole de 24 tubos, com grande número de orifícios, dos quais provém o som. A laringe atravessa-os no seu caminho para o coração. Dos órgãos abdominais, não só o fígado está separado e é independente da vesícula biliar, como o intestino delgado comunica com o coração, a urina atravessando aquele na sua trajectória para a bexiga. O rim, através da medula, liga-se com o cérebro.
Os centros nervosos praticamente não existem; só o cérebro, considerado como a continuação da medula, se chama por isso a medula do crânio. Não há diferença entre nervos e tendões, a ambos cabe a designação de «can».

Não me vou alargar sobre a anatomia e a fisiologia, tal como são entendidas pela medicina tradicional chinesa. Mencionarei apenas alguns órgãos principais e deixarei para o fim uma referência breve ao papel do «triplo aquecedor».

Coração - é o órgão principal e governa todas as vísceras. Está associado ao fogo, ao verão e ao sul.



Localiza-se «acima do fígado, baço e diafragma, tem a forma de uma flor de lótus e pesa 12 taéis.»
Fui procurar o valor do tael. Equivale a pouco menos de 30 gramas. A estimativa chinesa aproxima-se dos 250 a 400 gramas que pesa um coração saudável.
O coração está ligado por tubos aos outros órgãos principais. Comanda o fluxo sanguíneo e abriga o shen. Controla a atividade mental. É a sede do amor e da afeição. É representado pela mitológica «ave escarlate».
O estado do coração revela-se pela língua e pela face
Curiosamente, para os chineses, o pericárdio é um órgão independente, destinado a proteger o coração. 

Pulmões – Governam o Qi. Por estarem expostos ao exterior, constituem o mais frágil dos cinco órgãos Yin.


Fazem descer o Qi do ar pelo nariz, espalham-no e fazem subir os restos impuros do Qi, disseminando-os no ar.
Controlam a água do corpo. No movimento descendente, liquefazem a parte gasosa do ar e enviam-na para os rins. No movimento ascendente, fazem evaporar o líquido, que se espalha, sob a forma de suor e doutras secreções.


Têm também um atributo moral: são a sede da equidade. Estão associados ao metal, ao outono e ao oeste. O seu espírito toma a forma de um tigre.
Mostram-se através do nariz e dos cabelos.

Baço – é o órgão mais importante da digestão. Tem um papel de relevo no aproveitamento da energia dos alimentos e na sua transformação em sangue e em Qi. Mantém o sangue dentro dos vasos e encarrega-se do seu transporte por veias e artérias. Comanda os músculos, os tendões e os movimentos.


O baço é a sede da confiança.
Está associado ao elemento terra, aos meses que vão do fim do verão ao começo do outono e à direção centro. É simbolizado pela fénix.


O seu estado mostra-se pelos membros e pelos lábios. Se falta a harmonia ao Qi do baço, o doente deixa de ser capaz de diferenciar os cinco sabores fundamentais (doce, amargo, salgado, ácido e picante).

Fígado – promove a harmonia do fluxo do sangue e do Qi pelo organismo. Ajuda a digestão. Armazena o sangue, o qual «sobe» quando é necessário para o esforço físico e regressa quando deixa de ser preciso.


 É a sede da bondade.
Está associado ao elemento madeira, à primavera e à direção leste.
É representado pelo dragão.


Revela-se pelas unhas e pela vista. Quando lhe falta a harmonia, as unhas tornam-se baças e quebradiças e a vista falha, podendo tornar-se incapaz de diferenciar as cores.

Rins – Contribuem para a digestão e para a circulação da água e dos fluidos orgânicos.


Por armazenarem o Jing, a essência que regula a sucessão das fases da vida, são considerados os guardiões da força vital.
Associam-se ao elemento água, ao inverno e à direção norte.
São representados por uma serpente com cabeça de dragão enrolada numa tartaruga.


Parece-nos estranho serem considerados a sede da sabedoria, mas a medicina chinesa está repleta de conceitos que parecem improváveis aos nossos olhos.
O funcionamento inadequado dos rins prejudica as funções do Jing e traduz-se por esterilidade, impotência sexual e envelhecimento precoce.

O TRIPLO-AQUECEDOR é uma unidade funcional encarregada de produzir calor a partir da transformação dos alimentos e de regular o equilíbrio térmico. A parte superior engloba o diafragma, o coração e os pulmões. A parte média é constituída pelo estômago e pelo baço. O aquecedor inferior assenta no fígado, rins, bexiga e intestinos.
Cabe-lhe controlar a atividade do Qi no organismo e a respiração. Regula ainda o fluido da energia vital, do sangue e dos outros líquidos corporais, e a distribuição dos nutrientes e do Qi. Alimenta a energia sexual.

Gravuras: retiradas do livro «Medicina Chinesa - em busca do equilíbrio perfeito».

























sexta-feira, 19 de junho de 2015


        

         MEDICINA CHINESA E OCIDENTAL

          ALGUNS CONCEITOS PARALELOS


                               III

            OS "ESPÍRITOS" DE GALENO 

         E O "QI" DOS MÉDICOS CHINESES


A Medicina e a Magia nasceram de mãos dadas. Os vestígios desta geminação persistem nas sociedades modernas. Quando era preciso explicar um fenómeno incompreensível, recorria-se à intervenção dos espíritos.
Será interessante procurar analogias entre os "espíritos" de Galeno e o Qi, ou energia vital, dos médicos chineses.



Para Cláudio Galeno, certos aspetos da fisiologia humana eram influenciados por espíritos.
O «espírito natural» permitia ao fígado transformar o quilo em sangue.
O «espírito vital» nascia da combinação do calor inato do coração e do «pneuma», existente no ar inspirado. O sangue contido nas cavidades esquerdas do coração seria conduzido pelas artérias aos órgãos e tecidos periféricos. O calor gerado no coração e no sangue deveria ser dissipado pelos pulmões.
Finalmente, o «espírito animal» era formado no cérebro e depois transmitido a todo o organismo pelos nervos (que seriam estruturas ocas), para desencadear os movimentos e receber as sensações.1
      Passemos à medicina oriental.
«Qi é a matéria que está em vias de se tornar essência, ou a energia que se aproxima da materialização». A definição não é de Einstein, mas aproxima-se da Teoria da Relatividade.
Os médicos chineses atribuíam ao Qi uma grande versatilidade funcional. Eram cinco os seus tipos mais importantes.
O Qi central, ou «mar de Qi» localizava-se no peito.
Havia o Qi de cada órgão e de cada víscera, com características determinadas por eles, e o Qi dos meridianos.
O Qi protetor ou imunológico, que circulava, «forte e corajoso», defendendo o organismos das agressões externas.
Por fim, o Qi nutriente, gerado no sangue, distribuiria a energia proveniente da transformação dos alimentos por todo o corpo.



O Qi circula no organismo humano como um fluxo contínuo que segue um percurso certo, equilibrado, durante o qual vai sofrendo as alterações próprias da Natureza, passando de energia positiva (Yang) a negativa (Yin), para regressar à primeira forma de acordo com as zonas por onde passa e as influências que sofre do meio ambiente.
Se não houver obstáculos nocivos ao fluir natural e harmonioso desta energia, o corpo mantém-se saudável. Quando surge o desequilíbrio, cabe ao médico determinar onde falhou a energia e corrigi-la com tratamentos adequados.2

Para além do Qi, e segundo os mestres chineses, intervêm na fisiologia humana duas outras «essências», mistas de espírito e matéria: o Jing e o Shen. 
O Jing suporta a vida orgânica, intervindo na reprodução e no processo de crescimento. Compreende uma parte congénita e outra adquirida. É associado a um movimento orgânico mais lento que o resultante da ação do Qi.
O Shen costuma ser traduzido por «espírito», embora tenha um componente material. É a vitalidade, o motor que dinamiza o Qi e o Jing, ajudando ao funcionamento intelectual do homem. A dismnésia, a confusão mental e a inibição de ação são atribuídos à perturbação do Shen.

1 – A Arte de Sangrar de Cirurgiões e Barbeiros. J. Barradas, Livros Horizonte, Lisboa, 1999.

2 – Medicina chinesa – Em busca do equilíbrio perdido. C. Jorge e B. Coelho. Instituto Cultural de Macau e Círculo de Leitores,1988.

quinta-feira, 18 de junho de 2015



MEDICINA CHINESA
II
OS CINCO ELEMENTOS

   A história da medicina chinesa confunde-se com a lenda. Os "três imperadores sábios" (Fu Hsi, Shen Nong e Huang Ti) terão vivido 2.600 anos antes de Cristo. Hipócrates nasceria dois milénios mais tarde. Hua Tuo (ou Wá Tó), o "divino cirurgião", alegadamente o primeiro médico da China a recorrer à anestesia, combinando aguardente de arroz com cannabis, foi uma personagem real, tendo vivido no segundo século da era cristã. 
Para os filósofos chineses, existem, na natureza, cinco elementos básicos: a madeira, o fogo, a terra, o metal e a água.
Eram menos, na vertente ocidental do mundo. Empédocles, de Agrigento, contemporâneo de Zenão, terá sido o primeiro a propor a teoria dos quatro elementos. Tudo o que existia resultava da mistura de quatro componentes essenciais: a água, a terra, o ar e o fogo. Segundo Platão, esses elementos coexistiram de forma desordenada até à intervenção divina. Foi Deus quem os combinou de forma harmoniosa, dando origem a seres aperfeiçoados.
Não se sabe se ocorreram, no passado, trocas de ideias e influências mútuas entre as várias filosofias. O fogo, a terra e a água eram comuns a ambas.
Entre os chineses, a madeira estaria na origem do fogo que, por sua vez, criaria a terra, ao transformar a matéria em cinza. A terra abrigaria o metal, o qual, fundido, passaria à forma líquida. A água voltaria a produzir madeira. O processo de destruição ajuda a compreender o essencial da teoria: as plantas recolhem a energia da terra; a terra elimina a água; a água apaga o fogo, que derrete o metal. Um machado de metal destrói a madeira. 
O ar dos filósofos gregos não entra nestas contas. Aliás, o vento é contado entre as «seis influências perniciosas» para a saúde.
Na medicina chinesa não se encontram equivalentes aos humores da teoria hipocrática. Não deixa, contudo, de ser curioso comparar os dois esquemas seguintes.

RELAÇÃO ENTRE OS ÓRGÃOS, OS ELEMENTOS, OS PONTOS CARDEAIS E AS ESTAÇÕES DO ANO (Retirado do livro sobre Medicina chinesa, de C. Jorge e B. Coelho)

QUALIDADES DOS ELEMENTOS, HUMORES. CORRESPONDÊNCIAS

           (Retirado do livro A arte de sangrar, de J. Barradas)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

MEDICINA CHINESA E OCIDENTAL



ALGUNS CONCEITOS PARALELOS
I
A DIALÉTICA. O YANG E O YIN

Resolvi preparar, para este blogue, dois ou três pequenos artigos sobre a medicina tradicional chinesa. Comecei por ler o interessante livrinho de Cecília Jorge e Beltrão Coelho intitulado «Medicina Chinesa – em busca do equilíbrio perdido», publicado pelo Instituto Cultural de Macau, em associação com o Círculo de Leitores, em 1988.
Para além da atenção à higiene pessoal e às medidas preventivas, patentes nesta divulgação de antigos conceitos da medicina oriental, achei particularmente interessante a preocupação com o reforço das defesas imunitárias, segundo a noção que os chineses delas faziam.


Encontram-se semelhanças notáveis entre diversas ideias chinesas e ocidentais, a começar pelos conceitos de Yang e Yin, energias geminadas e opostas que nos remetem de imediato para as ideias de unidade e luta dos contrários da filosofia hegeliana.  
    Para os chineses, o Universo é gerido por duas forças contrárias - o Yang, «calor radical», princípio masculino e positivo e o Yin, «húmido radical», elemento feminino e negativo. O equilíbrio destas duas forças gera, no  mundo, a harmonia. O predomínio duma ou doutra conduz à desordem.


HEGEL


A dialética tem raízes profundas na cultura ocidental. Segundo Aristóteles, teria sido iniciada por Zenão de Eleia, que viveu aproximadamente entre 490 e 430 a.C. Na Grécia antiga, a dialética seria apenas a arte de argumentar no diálogo. O filósofo punha uma ideia em discussão – era a «tese». Havia quem se opusesse com um pensamento contraditório – era a «antítese». Da discussão nascia a «síntese», que abrangia partes de ambos os conceitos.
O conceito de dialética está longe de ser uniforme e assume significados diferentes para distintos pensadores. Heráclito, cuja atualidade poucos põem em causa, terá sido o filósofo dialético mais radical da velha Grécia. Hegel atribuía à dialética um caráter idealista que interpretava o movimento do espírito. Engels considerou-a materialista. A segunda das três leis da dialética que Friedrich Engels propõe é a da interpenetração dos contrários. Os lados que se opõem constituem uma unidade.
Parece-me identificar, ao menos parcialmente, neste conceito, os princípios Yang e Yin da filosofia e da medicina chinesa. Para elas, o estado de saúde assenta no equilíbrio instável, em contínua modificação, das energias positiva e negativa simbolizadas na teoria cosmogónica do Yang-Yin. «Quando o “Yang” predomina, o corpo aquece, os poros fecham-se e o paciente começa a respirar com dificuldade, com falta de ar. A febre surge, a boca seca e a pessoa torna-se lenta e irritáve(citação do tratado clássico de «Medicina Interna» Huang Ti Nei Ching.)


HUANG TI – O Imperador Amarelo, suposto autor do «Clássico de Medicina Interna».


terça-feira, 7 de abril de 2015

  NECROFILIA NA LITERATURA PORTUGUESA


      CAMILO CASTELO BRANCO



No caso de Camilo, chegou a tomar-se o texto pelo autor e o nosso grande escritor nunca se livrou de todo da fama de necrófilo.
A ideia de necrofilia foi, a meu ver e no de outros, forjada pelo próprio escritor quando publicou na «Aurora do Lima», em Viana, a narrativa «Impressão indelével», que seria incluída, no mesmo ano no volume «Duas horas de leitura». Voltei a ler três contos seus com o agrado de sempre. Camilo escreve tão bem que até as suas obras menores se leem com prazer.
“Impressão indelével” não foi a primeira história em que Camilo recorreu a associações macabras para impressionar os leitores.



Neste livro publicado recentemente os editores juntaram dois contos e uma pequena novela, escritos em alturas diferentes. “O esqueleto” data de 1848, enquanto “A caveira” é de 1855 e a “Impressão indelével” remonta a 1857. Entram neste pequeno volume dois esqueletos completos e uma caveira avulsa. Nas duas últimas narrativas, os protagonistas são enterrados juntamente com as ossadas das mulheres amadas. Mesmo sem lhes juntar na história de Fanny Owen, já é necrofilia de sobra…
Vou concentrar-me na “Impressão indelével” porque nela o escritor descreve, na primeira pessoa, a exumação do cadáver de Maria do Adro e fá-lo com tal realismo que até o próprio sobrinho António de Azevedo Castelo Branco, levou a história a sério. António de Azevedo declarou, em 1890, ao biógrafo do tio materno, Alberto Pimentel, que, em casa do padre António de Azevedo, seu tio paterno, estiveram, durante anos, os ossos de Maria, sem que o inocente sacerdote disso desse conta.


Esta é a casa do padre António, cunhado de Carolina, a irmã de Camilo. O escritor morou ali durante vários meses, na sua adolescência.
A suposta exumação foi relativamente precoce (um mês após o óbito) e não consta que padre António sofresse de anósmia.
Por outro lado, a paixão platónica que o nosso Camilo terá tido por Margarida Maria Dias, a Maria do Adro, coincide, no tempo, com o seu casamento com a Joaquina de Friúme, de quem viria a ter uma criança. O futuro escritor abandonou mãe e filha. Ambas faleceram cedo.


Maria do Adro era filha duma viúva pobre e morreu de tuberculose. Morou nesta casa, também em Vilarinho da Samardã.
Maria do Adro era cinco anos mais velha que Camilo, que casou aos quinze ou dezasseis. De forma para mim inexplicável, no conto, a iniciativa da profanação do cadáver parte do cunhado médico, Francisco José de Azevedo, que perguntou a Camilo, no dia seguinte ao seu regresso e ao recebimento da notícia da morte da Maria do Adro:
Sabe alguma coisa de anatomia?
−Eu fiz um exame.
−Atreve-se a ajudar-me a preparar um esqueleto?
−Poderei ajudá-lo.
−Então guarde segredo, porque é preciso que meu mano padre o não saiba. Temos de ir à igreja desenterrar o cadáver duma rapariga que morreu tísica.
−A Maria do Adro? – atalhei eu com estranha vivacidade.
Lembre-se que Camilo chegou a estudar Medicina e obteve aprovação em duas cadeiras, uma das quais foi Anatomia.



Para que quereria o Doutor Azevedo um cadáver em putrefação? O autor não se dá ao trabalho de explicar as intenções do cunhado.
                                                         

O nosso grande Egas Moniz foi um dos que enfiaram o barrete, abordando a suposta necrofilia de Camilo na sua interessante obra «A vida Sexual». Eu tenho um exemplar desse livro, mas não o consegui encontrar. Tive de procurar outras fontes.
Ainda era o tempo em que a patologia psiquiátrica era encarada com preocupações morais. Os médicos faziam juízos de valor ético sobre as perturbações mentais dos doentes. Escreveu Moniz:
“ A necrofilia é a mais repugnante de todas as matérias que aviltam a vida sexual do homem”. Continuou adiante, referindo-se a Camilo:
O que apenas desejei patentear é que, pelo exame das provas que as biografias publicadas nos fornecem (baseava-se essencialmente no trabalho de Alberto Pimentel, “O romance do romancista”) não podemos deixar a suspeita de que Camilo fosse um necrófilo”. Dito de outro modo: absolvia-o por falta de provas, sem deixar de sugerir aspetos reprováveis da vivência de Camilo. Não seria propriamente um necrófilo, mas…


Em 1925, comemorou-se o centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. As comemorações incluíram a inauguração de um busto do escritor, a atribuição do seu nome a uma rua da cidade do Porto e a publicação de uma obra intitulada “In memoriam de Camilo”, com contributos de muitas personalidades notáveis da vida pública e intelectual do país. Egas Moniz deu também colaborou na coletânea de textos. Foi pouco feliz na escolha do título do seu trabalho. Intitulou-o “A necrofilia em Camilo”.
De facto, no texto desmente o cabeçalho. Apesar de continuar a acreditar o homenageado desenterrara o corpo de Maria do Adro – “Não há dúvida que Camilo assistiu com seu cunhado à exumação do cadáver da sua antiga namorada” − Egas Moniz conclui o seu artigo afirmando que ”...Camilo não só nunca foi um anormal genésico, mas não mostra, por este relato, o mais leve pendor para o campo das perversões sexuais”. O comportamento do escritor teria “roçado pelo normal”.
A meu ver e no de Alexandre Cabral, o nosso Prémio Nobel da Medicina não tem razão neste caso.
Não foi, contudo, o único a pensar assim. António Sardinha, ideólogo do “fundamentalismo lusitano”, bem distante politicamente de Egas Moniz, também colaborou no “In memoriam de Camilo”. Aceitou a anormalidade de Camilo e atribuiu-a à sua ascendência hebraica.
Já em 1965, o médico João de Araújo Correia no prefácio ao livro “Camilo em Ribeira de Pena”, do também médico Mário de Menezes, escreveu: “Egas Moniz não andou longe da verdade, considerando necrófilo o extravagante Camilo”.
Tanto quanto sei, deixaram-se levar pelo génio do escritor. Até Egas Moniz, de cujo espírito arguto todos nos orgulhamos, se deixou enganar.


Nas suas novelas, Camilo recorria a tudo o que pudesse cativar o interesse dos leitores. Nada há, no seu percurso de vida, que aponte para a existência de parafilias. Como os psiquiatras sabem, tais comportamentos repetem-se.
Em tempos, eu pus estas palavras na boca de Camilo: “É verdade, ou não, o que escrevo? Umas vezes é. Noutras, passa a ser. Um texto, ao verter-se no papel, ganha existência própria; faz-se real”.
Ao molhar o aparo no tinteiro, ainda sou eu; mudo no traçar das primeiras frases. Transformo-me; faço-me personagem e moro nos capítulos do romance; exponho a alma em cada artigo de gazeta.
Sou quem escreve. Sou também o que está escrito.
Disse Camilo ao seu amigo Freitas Fortuna, que lhe disponibilizou o jazigo de família para o último repouso:
Caveiras, só tive uma perto de mim quando estudava anatomia.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

          

         NECROFILIA NA LITERATURA PORTUGUESA

              FIALHO DE ALMEIDA

   
Qualquer médico sabe que a necrofilia é um padrão desviante do comportamento sexual em que a excitação é desencadeada pela visão de cadáveres ou pelo contacto com eles. 
Conhecem-se diversos casos em que os autores recorreram a descrições de necrofilia para chamarem a atenção dos leitores para as suas obras. Um dos mais emblemáticos será o poema "O noivado do Sepulcro" de Soares dos Passos. Quem não se lembra de:

                    "Vai alta a lua!Na mansão da morte
                      Já media noite com vagar soou..."

Quer Fialho de Almeida, quer Camilo Castelo Branco produziram obras literárias que tiveram a necrofilia por tema. Neste artigo, vou falar de Fialho.


Conheço «A Ruiva», de Fialho de Almeida, desde os meus catorze ou quinze anos. Por essa altura, eu lia tudo o que encontrava. O meu pai tinha a sua obra. Li a toda a coleção de «Os gatos» e a seguir, li "Os contos".  Lembro-me de ter achado «A Ruiva» uma narrativa erótica.
Fialho de Almeida ainda foi contemporâneo de Camilo. Nasceu quando Camilo Castelo Branco ia nos 32 anos e sobreviveu-lhe dezanove.


Fialho conhecia Camilo e apreciava-o. Dedicou-lhe os seus «Contos», em temos muito elogiosos.
Eu andava à procura da "Ruiva" de Fialho e encontrei a de Renoir.

Descobri, por acaso, que o pintor Pierre Renoir era pai do realizador de cinema Jean Renoir. Andrée Hessling, aqui retratada, usou também usou o nome de Catarina. Foi o último modelo do pai e a primeira atriz dos filmes do filho, que se casou com ela.


Voltei a ler «A Ruiva», desta vez na Internet. Encontra-se digitalizada e disponível gratuitamente, no sítio da Biblioteca Nacional e, pelo menos, noutro endereço eletrónico. É fácil de descarregar para o computador pessoal.
No conto de Fialho, a necrófila é Carolina, a Ruiva, filha do coveiro e órfã de mãe. Ainda virgem – e passo a citar Fialho:
“Nas horas de calor, de verão, quando sob os ciprestes os empregados do cemitério dormiam, ia devagarinho, sem ser pressentida, à casa dos depósitos, escolhia os cadáveres dos moços, dos belos, se os havia, e como um pequeno vampiro sequioso entreabria as mortalhas, despregando com uma navalhinha as camisas; metia a mão devagarinho pelo peito, metia, escorregando-a ao longo das carnes, beliscando-as levemente, com prazer”.
E a história, que é mais novela do que conto, vai de desgraça em desgraça. O autor obriga o coveiro a enterrar a própria filha. O texto acaba com o narrador a olhar a caveira da Ruiva em cima da sua mesa de trabalho.
Ao menos, não foram atribuídas a Fialho de Almeida tendências sexuais desviantes.