Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

terça-feira, 20 de novembro de 2018





GRIPE PNEUMÓNICA

II


     A Pneumónica foi provocada por uma estirpe do vírus Influenza A, do subtipo H1N1. 
     O vírus da gripe é um ortomixovírus com dois tipos essenciais de glicoproteínas de superfície: a hemaglutinina e a neuraminidase. A variação da antigenicidade destas glicoproteínas permite à gripe apresentar-se de formas novas quase todos os anos. 


   De tempos a tempos, ocorrem variações maiores, as chamadas “antigenic shift”. 
    As nossas defesas imunológicas assentam na imunidade humoral, baseada na produção de anticorpos contra estes dois antigénios, ajudada pela imunidade celular, a cargo dos linfócitos T, das células exterminadoras naturais e dos macrófagos.
Em 2005, foi anunciado o sequenciamento genético do vírus da gripe de 1918, recuperado de cadáveres congelados em zonas de permafrost, ou pergelissolo. É um tipo de solo encontrado na região do Ártico. É constituído por terra, gelo e rochas permanentemente congeladas.



Estudos em ratinhos sugeriram que as mortes ocorriam quando os sistemas imunológicos reagiam exageradamente ao vírus, com libertação excessiva de citoquinas. Essas “tempestades” de citoquinas teriam precipitado o envolvimento pulmonar e a morte de adultos jovens, durante a pneumónica. Dito de outro modo, parece que morreu quem se defendeu demais.



Os sistemas imunológicos mais débeis de crianças e velhos não seriam capazes de reações tão intensas, originando menores taxas de mortalidade. As crianças e os idosos costumam ser os mais vulneráveis às epidemias. Não aconteceu assim com a pneumónica, que castigou, essencialmente os setores jovens da população, predominando entre os 20 e os 40 anos de vida. Complicou-se, frequentemente, com pneumonias bacterianas secundárias.
Apesar de existirem diferenças notáveis nas condições higiénicas e alimentares, a gripe foi transversal a um grande número de países e a todas as classes sociais.



Há quem defenda que uma parte dos óbitos por gripe poderia estar associada à intoxicação com aspirina, a qual, chegava a ser recomendada em doses de 30 gramas por dia e poderia estar associada às hemorragias. No entanto, a mortalidade foi também elevada em regiões do mundo em que a população não tinha acesso ao ácido acetilsalicílico.
Muitos consideram que a estirpe viral responsável pela gripe pneumónica foi invulgarmente agressiva. Benigna, não foi, mas terá sido ajudada, pelo menos na Europa, pela subnutrição e pela falta de condições higiénicas causadas pela guerra e, ainda, pela aglomeração de pessoas nos acampamentos militares e nas cidades. A sobrelotação dos hospitais terá facilitado a eclosão de superinfeções bacterianas, responsáveis por muitas mortes.



Os mais velhos terão sido relativamente poupados por terem tido contacto anterior com vírus aparentados a este, que terão circulado décadas atrás (pandemia de 1889-90).
As vítimas prediletas da gripe pneumónica foram as grávidas, com mortalidade excecionalmente elevada. Há quem indique uma taxa de 30% e quem aponte para números superiores.
A história da gripe está longe de acabar. Vejamos brevemente como começou. Falo, naturalmente, das epidemias que foram registadas por escrito.

            RELATOS ANTIGOS DE GRIPE A
              TUCIDIDE (ATENAS)  431 A.C.
              HIPÓCRATES (NORTE DA GRÉCIA)  412 A.C.
              POSSÍVEIS SURTOS NO SÉCULO V
              EPIDEMIAS NA ITÁLIA, NO RENASCIMENTO
              PANDEMIA DE 1530
              PANDEMIA DE 1889 (ORIGEM NA SIBÉRIA)

Tucidide (460-395 a. C.) relatou uma epidemia ocorrida em Atenas no ano de 431 a.C. Descreveu os sintomas, que parecem sobreponíveis aos da gripe e, ainda, a desregulação que a doença provocou na vida da cidade, com o oportunismo, o mercado negro dos bens essenciais e a falta de respeito pelos mortos.
Hipócrates descreveu um surto de infeção catarral acontecida no norte da Grécia no ano 412 a.C. Tratou-se, provavelmente, de gripe, e foi relatada no Livro IV das Epidemias.
Há descrições de possíveis surtos gripais no século V, mas a verdadeira história da gripe epidémica tem início entre os séculos XIV e XVI, com os relatos das epidemias italianas do Renascimento. Ocorreu uma pandemia em 1530. A partir dessa data, a gripe diminuiu de frequência na Europa, até que no inverno de 1889, nasceu na Sibéria uma nova pandemia.

       PANDEMIAS DE GRIPE A APÓS A PNEUMÓNICA
           GRIPE ASIÁTICA  1957 (H2N2)
           GRIPE DE HONG KONG  1968 (H5N1)
           GRIPE "SUÍNA" 2009 (H1N1)
            
Segundo Francisco George, as pandemias de gripe são sempre diferentes umas das outras. Sucedem-se, a cada pandemia, epidemias anuais provocadas por estirpes que lhe são aparentadas, como se duma dinastia se tratasse.



As aves, especialmente as aquáticas migratórias, como os patos selvagens, constituem o reservatório natural do vírus da gripe. As pandemias regressam, com intervalos de tempo variáveis.   
As autoridades sanitárias estão, todos os anos, à espera duma nova epidemia. Hoje dispomos de antibióticos para combater as infeções bacterianas secundárias e uma melhor organização dos cuidados sanitários. Contudo, os transportes são também mais rápidos e os vírus chegam cá mais depressa.
Em 1918, não existiam terapêuticas antivirais específicas. Na atualidade, dispomos de vários medicamentos.

        MEDICAMENTOS ANTIVIRAIS
                 ADAMANTANAS (ANTIPARKISÓNICOS)
                 AMANTADINA E RIMANTADINA

                    NUNCA FORAM EFICAZES CONTRA A GRIPE B
                     As ESTIRPES A SÃO CADA VEZ MAIS RESISTENTES

 Tendem a ser abandonadas, no tratamento da gripe.

INIBIDORES DA NEURAMINIDASE
  ZANAMIVIR
    OSELTAMAVIR (TAMIFLU)
      PERAMIVIR (I.V.)

Podem ser usados tanto para prevenir, como para tratar a gripe. O peramivir, de administração intravenosa, é sugerido para os casos em que o oseltamivir falha.
Em casos de mutação viral importante, são os únicos meios para tentar controlar a proliferação da doença, até se produzir uma vacina específica contra a estirpe nova.
A terapêutica antiviral reduz a mortalidade dos doentes com pneumonia viral, mesmo se iniciada dois dias após o início da doença. No entanto, nas epidemias de gripe A do Missisipi, em 2001 e de Hong Kong, em 2009, foram encontrados vírus que continham o gene de mutação H275Y da neuraminidase que confere resistência ao oseltamivir. 
      Tem sido recomendada a profilaxia precoce.
Contudo, há artigos que indicam que o uso profilático deste produto, em pessoas que contactaram com doentes, pode aumentar o risco de resistência.  Sugerem que a profilaxia se deve reservar a pacientes com patologia grave associada.



Tem sido tentada a associação de vários antivirais. Pelo menos num ensaio clínico, o recurso à medicação com uma combinação de oseltamivir com peramivir não deu resultados superiores ao uso isolado do oseltamivir.
O vírus da gripe pneumónica correu o mundo durante dezoito meses, de março de 1918 a agosto de 1919.

                                                                                           (Continua)

terça-feira, 13 de novembro de 2018




               GRIPE PNEUMÓNICA




Assinala-se este ano o centenário da gripe pneumónica, a pandemia mais assassina da história da humanidade. Terá atingido 500 milhões de pessoas, em todos os continentes. Lembro que a população mundial, em 1918, era de cerca de 1.700 milhões. Adoeceram, a acreditar nestas cifras, mais de um quarto dos habitantes do planeta.
Para um curioso como eu, é surpreendente a divergência dos números apresentados por diversas fontes para o mesmo acontecimento. A estimativa do número global de mortos oscila, segundo as fontes, entre 20 e 100 milhões.
 Mesmo as estimativas mais conservadoras apontam para um número de óbitos superior ao registado ao longo dos quatro anos que durou a II Grande Guerra e que terá sido de 15 milhões, contabilizando tanto as vítimas militares como as civis. Provavelmente, a gripe pneumónica colheu, no decurso de um único ano, um terço do número de vítimas provocadas pela peste em seis séculos de história. Terá matado, nas 25 semanas da segunda vaga, mais pessoas que a SIDA em 25 anos.
Para a dificuldade em acertar contas, contribui o facto de, há um século, as estatísticas não serem fiáveis em alguns dos países mais populosos do mundo, como a China e a Índia.
A taxa de mortalidade variou com os países afetados e com as ondas epidémicas. Foi mais elevada na segunda vaga, onde terá chegado aos 6 a 8 por cento. Em algumas regiões, ter-se-á aproximado dos 20%. Nos Estados Unidos, houve populações de índios que foram devastadas.
A origem geográfica da chamada “gripe espanhola” continua a ser discutida, mas sabe-se não começou na Espanha. A explicação para a alcunha é simples. A Espanha foi um dos poucos países neutros durante a I Grande Guerra e, por essa razão, um dos raros onde a imprensa era livre de noticiar a epidemia. Sabia-se que, mesmo longe da região do conflito armado, estavam a adoecer e a morrer milhares e milhares de pessoas. Os países beligerantes evitavam alarmar em demasia as opiniões públicas nacionais e censuravam as notícias.



Foram aventadas diversas hipóteses para o início da doença. Segundo alguns, terá nascido na China, sendo transportada para a Europa pelos trabalhadores chineses que vinham abrir trincheiras na Flandres. Segundo outros, terá sido trazida por soldados provenientes da Indochina, que lutaram ao lado dos franceses. Há também quem admita a possibilidade de a gripe ter tido origem multicêntrica, com focos independentes na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos da América.

O primeiro registo seguro provém do Kansas, no centro dos Estados Unidos da América. A doença foi identificada pela primeira vez em janeiro de 1918, em Haskell County, no Kansas.
Na primavera de 1918, continuavam a ser treinados muitos recrutas americanos para participarem na guerra que se travava na Europa.
No mês de março de 1918, foi internado na base militar de Fort Riley, um jovem que se queixava de dores de garganta, mialgias e febre. Na mesma semana, adoeceram mais de duzentos soldados com os mesmos sintomas. Uma semana depois, foi registado um caso similar em Queens, Nova Iorque.
Antes do final de março, havia mais de mil militares hospitalizados. A doença espalhou-se rapidamente por outros acampamentos militares. Era a gripe.

             Auditório Municipal de Oackland, adaptado a enfermaria
Tratava-se de uma forma extremamente contagiosa da doença. Chegaram a adoecer mil e quinhentos soldados por dia. 
A doença alastrou rapidamente pelos E.U.A. 

       Enfermeiras da Cruz Vermelha em San Louis, no outono de 1918
Logo a seguir, a gripe foi transportada para a Europa pelos soldados americanos. A Pneumónica viajou por mar. Na Europa, foram registados os primeiros casos em abril de 1918. Ocorreram em soldados franceses, ingleses e americanos que se encontravam em portos de embarque, em França.


Todos os exércitos envolvidos na Grande Guerra foram devastados pela doença. Calcula-se que perto de 80 por cento das mortes das forças americanas destacadas para a Europa foram provocadas pela gripe.


A expansão da epidemia foi imparável. Em maio, atingiu Portugal, Espanha e a Grécia. Em junho, chegou à Dinamarca e à Noruega e em agosto, matava já na Holanda, na Bélgica e na Suécia. A seguir, espalhou-se pelo mundo. Mesmo ilhas remotas, no Ártico e no Pacífico foram afetadas pela pandemia.
A pneumónica grassou durante os anos de 1918 e 1919. O seu progresso não foi regular. Evoluiu em três vagas sucessivas.
A primeira foi a mais benigna e decorreu até agosto de 1918.
A segunda foi a mais mortífera. Instalou-se durante os meses frios do outono e do inverno e matou provavelmente 6 a 8 por cento dos doentes afetados.
A terceira decorreu de fevereiro a maio de 1919.


Tratou-se de uma pandemia gripal de virulência e agressividade raras. Matava rapidamente, por vezes em dois ou três dias, com dificuldade respiratória aguda e sintomas hemorrágicos. Era frequente a associação de infecções bacterianas graves.   
                                                                                                                     (Continua)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018



                          AMADEO


Faz hoje cem anos que morreu, em Espinho, Amadeo de Sousa Cardoso. Foi ceifado pela Gripe Pneumónica, a pandemia mais mortífera de que há registo na História da Humanidade.
Em Portugal, a gripe terá provocado entre 60.000 e 120.000 mortos. Sucumbiam 6 a 8 % do total das pessoas infetadas. A “Pneumónica” atingia preferencialmente o grupo etário situado entre os 20 e os 40 anos. Era o caso de Amadeo, que festejaria o seu 31º aniversário dali a um mês.
       Durante a sua prolongada estadia em Paris, Amadeo de Sousa Cardoso privou com alguns dos nomes mais sonantes da pintura e da escultura da época. Outro Amadeu (Modigliani) tornou-se seu amigo chegado. A I Grande Guerra fê-lo voltar à Pátria.
      Quem olha hoje as obras de Amadeo, fica impressionado pela vitalidade que transmitiu ao pincel. Lê-se ali vontade de experimentar, ambição, bom gosto, desejo de afirmação e uma grande harmonia na mistura das cores. Aqui e além, o artista dá a impressão de tatear, como se percorresse, de olhos vendados, uma vereda pouco conhecida. Pintou centenas de quadros. Em vários deles, parece brilhar a centelha do génio.

                           Procissão do Corpo de Deus
        A pensar em quadros seus, escreveu Pessoa, pela voz de Álvaro de Campos: só tem direito ou o dever de exprimir o que sente, em arte, o indivíduo que sente por vários. O que é preciso é o artista que sinta por um certo número de Outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro.
       O pintor não se fidelizou a qualquer corrente estética. Afirmou, numa entrevista a um jornal português:
 Eu não sigo escola alguma. Nós, os novos, só procuramos a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstracionista? De tudo um pouco.
Alcançou a perfeição em várias dessas correntes, mas não se deteve em nenhuma. Chegou a escrever: 
   Eu, nem a mim mesmo me sigo na visão artística. Tudo o que tenho feito é diferente do precedente e sempre mais perfeito. 


Galgos

Ia outubro de 1918 adiantado, quando Amadeo de Sousa Cardoso escreveu ao irmão António a sua última carta conhecida. Deixo aqui excertos dela.

Meu caro António:
Algumas notícias nossas e são as seguintes: a Gracita continua no mesmo estado. Não tem piorado, mas também as melhoras não são para dar descanso. Na noite passada, o termómetro acusou altíssima temperatura. Hoje, até à hora que escrevo, tem baixado: 39, 39 e meio.
Eu ando constipadíssimo. De vez em quando, sinto bastante opressão no peito. Tenho-me atirado ao vinho do Porto, como prevenção.
Não sei quê que me diz que vae haver grande mudança na vida da nossa família. Será pessimismo meu, oxalá!
Abraça-te teu muito dedicado irmão,
Amadeo

O pintor de Manhufe morreu cedo e o seu valor foi reconhecido tarde.
Ninguém pode saber quanto teria ainda para dar à arte portuguesa e mundial. Embora seja pouco útil conjeturar, alguns dos que o apreciam interrogam-se: teria Amadeo acabado por se encostar a algum dos movimentos estéticos da época, ou viria a criar uma escola própria?

Fontes: Alfaro, Catarina. Amadeo de Souza Cardoso
           Wikipedia.




sábado, 20 de outubro de 2018





  HOMENAGEM
AO DOUTOR MÁRIO BRAGA TEMIDO

                                         



Congratulo-me com o espírito de abertura com que a direção do Ateneu, presidida pelo doutor João Freitas, acolheu esta iniciativa, veiculada pelo nosso colega e amigo comum Fernando Martinho.
Sou presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos há poucos meses. Entendo que a SOPEAM se deve aliar pontualmente a instituições não médicas, para convívio e troca de informação cultural. Tem acontecido assim, no decurso dos dois últimos anos com a Liga de Amigos de Setúbal e Azeitão, e estou aqui hoje. Talvez, para o ano, se encontre um pretexto que nos junte outra vez.  


Evocar o doutor Mário Temido é chamar à memória os anos finais da minha juventude, quando o coração era mais aberto e a generosidade fazia parte natural do nosso quotidiano.
É recordar a Sé Velha, onde vivi durante a maioria dos anos que passei em Coimbra. Morei muito tempo no Beco da Carqueja. A Sé Velha era, e espero que continue a ser, um espaço especial dentro de Coimbra, um lugar de convivência chegada entre estudantes e a população em geral.
Terá havido outros locais no país em que a juventude estudantil se tenha aproximado dos pequenos funcionários públicos e dos empregados de comércio com visões políticas progressivas, mas, aos meus olhos, a experiência da Sé Velha será sempre única.
Por bares e cafés em que toda a gente se conhecia, discutia-se quase abertamente a situação política, geralmente numa perspetiva de Esquerda. Sonhávamos, em conjunto, com um Portugal democrático, moderno, pacífico, livre da herança colonial e em convivência fraterna com os povos das antigas colónias, que deveriam definir livremente os próprios destinos.
Lembrar o doutor Mário Temido é, naturalmente, falar do Ateneu de Coimbra, a cuja Mesa da Assembleia Geral presidiu. O Ateneu desempenhou um papel histórico como polo agregador de pessoas de boa vontade que não se reviam nas vetustas estruturas políticas do Estado Novo e tinham a coragem de afrontar o regime salazarista.
O interesse científico do doutor Mário Temido pela malária é fácil de entender. Nasceu e cresceu no Baixo Mondego, uma região onde o desenvolvimento da cultura do arroz agravou a endemia antiga de paludismo – as sezões. A doença foi erradicada em Portugal nos meados do século XX, mas os mosquitos anopheles continuam aí e é bem possível que as recentes alterações climáticas favoreçam o reaparecimento da malária entre nós.
Quando fundámos o Posto Médico do Ateneu, éramos jovens médicos, cheios de boa vontade, mas inexperientes. O doutor Mário Temido era o companheiro mais velho que nos esclarecia as dúvidas e aconselhava, nos casos mais difíceis, que nem eram tão raros assim.
Como a juventude na profissão não permitia exageros de confiança redobrávamos de cuidados na abordagem dos doentes mais frágeis. É possível que enviássemos para a urgência do hospital, que era logo ali acima, casos clínicos que a poderiam dispensar.


Sem dizer nomes, vou contar um episódio da vida de um senhor cujo filho era proprietário de um pequeno estabelecimento na Rua do Correio. O homem, que teria, à data, os anos que eu conto hoje, possuía um coração muito fraco. De tempos a tempos, ia vê-lo a casa e, quando me parecia necessário, mandava-o para o hospital.
Aconteceu assim numa sexta-feira. Surpreendeu-me que, logo na segunda-feira seguinte, me voltassem a chamar. Contou-me o doente:
− Ó senhor doutor… Eu estava na cama três. Morreu o da cama um e, algumas horas mais tarde, o da cama dois. Domingo de manhã, faleceu o da cama quatro. Ela saltou! A morte saltou por cima de mim! Assinei o pedido de alta e aqui estou!
Eram mais os dias calmos e de convívio. Como disse, o relacionamento dos estudantes com a malta da Sé Velha, era especial.
Eu vivia duma bolsa de estudo e as mesadas chegavam a atrasar-se três, quatro e mais meses. Vivíamos, então, a crédito. Certa vez que me viu preocupado, o Mário Ferreira, proprietário do Café Oásis, a quem já devia três meses de bicas e cigarros, chamou-me de lado. “Doutor Trabulo, disse-me. Não se chateie. Pegue lá cinquenta paus. Leve a esposa a jantar fora e depois vão os dois ao cinema. Quando receber, paga tudo junto…”
Foram anos bons. Vivíamos modestamente, mas tínhamos a alegria própria da juventude. O doutor Mário Temido ia-nos apoiando com a sua amizade e o seu saber. Fico contente por ter surgido esta oportunidade de o recordar.

António Trabulo
(Palestra proferida no Ateneu de Coimbra a 19/10/2018)

segunda-feira, 3 de setembro de 2018



O FÍSICO PRODIGIOSO


Li, recentemente, “O físico prodigioso” de Jorge de Sena.
Diz o autor que se trata de um desenvolvimento ampliado e duma fusão de duas histórias do “Orto do Esposo”, um livro moralístico-religioso da literatura portuguesa da primeira metade do século XV. As narrativas são a do homem que tinha poderes mágicos de curar e fazer ressuscitar os mortos com o seu sangue e a do homem que não podia ser enforcado porque o diabo o protegia, levantando-o no ar.
O resultado é saboroso. Não resisto a publicar aqui um pequeno excerto.

Avançaram para ele dois físicos com longas vestes pretas adejando em reflexos como de corvo. E logo lhe começaram um exame. “Usava ele umbigo de menino, cozido ou frito? E a corda de enforcado? Quanto tempo a punha de molho? Pela lua nova ou no minguante? E o olho mirrado do gato preto? Torrava-o? E a mão de toupeira? Em molho de giesta ou de serpão?




domingo, 24 de junho de 2018


O MÉDICO DO FUTURO


Não é possível prever a situação dos nossos colegas dentro de 25 ou 50 anos e muito menos saber como irão desenvolver as suas atividades. É certo que existirão, pois o Homem é vulnerável e terá, mais cedo ou mais tarde, o sofrimento por companhia e a morte por última garantia.
Completei 75 anos e, ao longo da vida, atravessei o que foi provavelmente o período de maiores mudanças na História da Humanidade. Assisti à generalização do saneamento nas aldeias portuguesas, ao começo do uso dos frigoríficos, da televisão, das máquinas de lavar roupa e louça, do plástico, dos computadores e da Internet. As viagens aéreas banalizaram-se e houve até homens que deram passos na lua. No campo profissional, enquanto eu crescia, vulgarizou-se o uso dos antibióticos. Seguiu-se a vacinação em massa contra muitas doenças e a banalização do uso da contraceção. Ocorreram progressos notáveis na imagiologia médica e desenvolveram-se técnicas de tratamento endovascular e de cirurgia minimamente invasiva, enquanto os laboratórios iam lançando no mercado medicamentos cada vez mais eficazes. Pelo menos nos países mais desenvolvidos, reduziram-se substancialmente as taxas de mortalidade infantil e prolongou-se o tempo médio de vida.
A Medicina Científica é uma disciplina recente. Acompanhou, como tinha de ser, a evolução da Ciência em geral. É costume situar as suas raízes no Renascimento, sem esquecer as gerações de médicos ilustres que nos precederam. Como afirmou Bernardo de Chartres (falando do conhecimento em geral) somos anões aos ombros de gigantes.



Hipócrates, Hua Tuo, Galeno e Averróis não podiam ter acesso ao arsenal terapêutico de que dispõem hoje até os mais humildes e menos preparados dos nossos Colegas. No entanto, entenderam bem a profissão médica e granjearam não só o respeito das gentes do seu tempo como o das gerações que lhes sucederam.
Estranhamente, enquanto o conhecimento progredia, as relações médico doente iam-se deteriorando. Tratou-se de um processo social evolutivo em que os “sábios” eram sujeitos a escrutínio e que se desenvolveu no nosso País sobretudo na segunda metade do século XX. O padre, o juiz, o médico e o professor, considerados outrora os expoentes do saber em vilas e cidades, foram sendo postos em causa.
As críticas à profissão médica são antigas e muitas vezes justas. Basta lembrarmos Molière e Bocage.
Bem, a introdução foi longa. Perguntarão os leitores menos pacientes: que sabe um velho do futuro?
A resposta é: mesmo sem ser bruxo, sei alguma coisa.
Desconheço naturalmente as maravilhas que a evolução técnica irá pôr à disposição dos nossos Colegas de amanhã. No entanto, a natureza humana não se irá modificar. As pessoas em sofrimento irão continuar a precisar da compaixão de quem os trata. Compaixão, compreensão, afeto, proximidade e capacidade de comunicação. Em suma: empatia.
Provavelmente, o fator mais relevante na aproximação médico doente continuará a disponibilidade para ouvir. Não existem bons médicos que não saibam escutar os seus doentes. Poderá seguir-se a voz, que transmite sentimentos e raciocínio. Os enfermos querem entender o que pensamos. A escolha das palavras e o recurso à prudência são atributos antigos da Arte de Curar.
Um amigo meu escreveu neste espaço, anos atrás, que o olhar detinha capacidades curativas. O doente pretende que atentemos nele e o modo de olhar pode ajudar a expressar os nossos sentimentos. Mas não é apenas o olhar. Ouvir, falar, sorrir, tocar, são atos terapêuticos que reforçam a ação dos medicamentos e das técnicas. Mesmo em Especialidades em que a palpação não seja essencial para a observação clínica, um aperto de mão ou uma palmadinha no ombro ajudam a dizer aos doentes que nos interessamos por eles.
Trata-se de procedimentos objetivos e mensuráveis. Há quem valorize o efeito placebo em cerca de 40%, embora sejam apontados outros números.
Bastará lembrar as medicinas chamadas alternativa que se desenvolvem à nossa volta. Pouco mais terão a oferecer aos doentes além desse efeito e, ainda assim, florescem. Tolos serão os médicos que não procurem reforçar a ação curativa com os efeitos da empatia.  
Por outro lado, convirá lembrar os começos da nossa profissão, quando a Medicina e a Magia andavam de mãos dadas e os médicos eram considerados intermediários entre os homens e os deuses. Foi sempre útil manter algum distanciamento que induzisse referência. O médico poderá ser como um irmão, mas um irmão mais velho.
Serão técnicas de relações públicas? Em parte, são. Em muitos atos humanos entram, em proporções variáveis, os sentimentos e a razão. No entanto, se não houver sinceridade na abordagem, os doentes acabarão por dar pelo embuste e o efeito adjuvante irá perder-se. Quem não for capaz de sentir verdadeiramente a compaixão e de exercer o seu mister com bondade, deverá escolher outro ofício, em vez de ser médico.
Entendo os constrangimentos que se colocam hoje à nossa atividade profissional. Os patrões querem rentabilizar o que nos pagam e obrigam-nos a consultas em contrarrelógio, quando não à telemedicina. Haverá que contrariar essa tendência. Teremos de nos manter próximos dos doentes.
Hoje, como ontem, as palavras e as atitudes têm efeitos terapêuticos. Tolos serão os médicos que as desprezem.
Mesmo com tecnologias novas e revolucionárias, a natureza humana não mudará e será bom tê-la em linha de conta. A ligação entre aquele que trata e aquele que sofre, independentemente dos avanços tecnológicos, deverá continuar a ser uma relação humana privilegiada.







SOPEAM




Fui ontem eleito presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos (SOPEAM).
Um par de anos atrás, recusara o convite para o cargo, mantendo-me num lugar mais discreto da Direção. Havia muito que não alimentava ambições pessoais que fossem além da escrita e do bem-estar da família e dos amigos.
O que me fez mudar de ideias foi provavelmente o sucesso relativo das jornadas LASA/SOPEAM, encerradas no ano transato. No decurso de dois anos, realizámos na Casa da Baía, em Setúbal, 40 conferências sobre temas variados. Algumas delas atingiram níveis elevados de qualidade. A colaboração do meu amigo e colega Machado Luciano, então presidente da LASA, foi preciosa para o êxito da iniciativa.
Fui sempre conhecido entre os meus como imaginativo e sonhador. Os Cursos Portugueses de Neurocirurgia, a que tive a honra de dar início em 1997, enquanto Coordenador de uma notável Comissão de Ensino da Sociedade Portuguesa de Neurocirurgia, mostraram-me que era capaz de congregar vontades e de transformar sonhos razoáveis em realidades frutuosas. Liderei a iniciativa durante quatro anos e é com orgulho que vejo hoje os Cursos aproximarem-se da XXII edição.
As jornadas LASA/SOPEAM ensinaram-me depois que era capaz de repetir esse trabalho fora do âmbito da minha Especialidade Médica.
Olhei em volta e fui construindo projetos. Alicercei-me no apoio de amigos antigos e de alguns novos, pois não moramos sozinhos no mundo e as obras não se realizam sem homens e mulheres interessados em colaborar. Construi um plano provisório e ambicioso, previsto para um mandato de dois anos.
Irei dando conta do que se for realizando.