Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019


RELAÇÃO MÉDICO DOENTE


NA LITERATURA PORTUGUESA


 JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS




José Rodrigues Miguéis nasceu em 1901 e viria a morrer em 1980. Descontente com o Estado Novo, passou nos Estados Unidos da América mais de meia vida, tem-se mesmo nacionalizado americano, em 1942. Posteriormente, viveu alguns períodos de tempo em Portugal.
Na obra de cariz autobiográfico “Um homem sorri à morte com meia cara” Migueis relata a sua experiência pessoal quando, no ano de 1945, adoeceu e esteve internado durante vários meses no serviço de neurologia de um hospital público de Nova Iorque, o Bellevue. Terá sofrido de uma infeção no ângulo ponto-cerebeloso, provavelmente em resultado de uma otite média crónica colesteatomatosa. Queixou-se de cefaleias e alterações da visão, antes de lhe aparecer uma paralisia facial esquerda.
Afirmou José Rodrigues Miguéis:
Procurei pintar um ambiente real: o dos hospitais numa grande metrópole moderna onde a dor e a brutalidade, a doçura e o humor, e em particular a devoção dos médicos e das enfermeiras põem traços de tragédia e de epopeia, diante das quais o tema pessoal se apaga e some.
Não guardou, porém, boa memória dos médicos que o assistiram no Hospital Bellevue. Escreveu:
Estava agora na presença de estranhos que nada sabiam de mim nem tinham comigo nenhum laço, e para quem eu era apenas mais um caso de hospital, um objeto de curiosidade clínica.
Eu não existia, era um feixe de sintomas.
Rodrigues Miguéis encontrou, depois uma enfermeira excecional:
Mrs. Abbey não me abandonou um só instante. Inclinada para mim, sorria-me, falava-me como se fala a um bebé no berço, friccionava-me, aconchegava-me melhor, dizia palavras animadoras. Que solicitude e que brandura as desta mulher autoritária e brusca, e que cordialidade a sua, após mais de quarenta anos de calejante profissão.
Mais adiante, corrigiu, em parte, a sua opinião sobre os médicos:
 Se, ao traçar alguns destes episódios, roço aqui além pela ironia, é sempre com profundo respeito e comovida gratidão que me refiro aos autênticos apóstolos da medicina que tenho conhecido. Os erros são de todos nós, humanos, e não seria de esperar que deles estivessem isentos os homens de bata branca. Nem de longe tentei reincidir na sátira de que há milénios eles têm sido alvo.

Texto retirado do capítulo “Relação Médico doente na Literatura Portuguesa”, do livro a integrar o Processo de Candidatura da Relação Médico Doente a Património Imaterial da Humanidade.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019



       

             RELAÇÃO MÉDICO DOENTE


          NA LITERATURA PORTUGUESA


                       JÚLIO DINIS


        


Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871), nasceu e morreu no Porto. Aluno brilhante, chegou a ensinar na Escola Médico-Cirúrgica da cidade, mas a doença fê-lo abandonar o trabalho. A tuberculose, que lhe levara a mãe e todos os oito irmãos, vitimou-o aos 32 anos de idade. 
Sob o pseudónimo de Júlio Dinis, publicou uma série de livros que foram considerados “dos mais suaves e ternos romances portugueses”, lidos e relidos por gerações sucessivas de adolescentes.
Em “As Pupilas do Senhor Reitor” Júlio Dinis criou a figura poderosa de João Semana, velho médico bonacheirão, também proprietário rural, que não dispunha (aparentemente) de instalações semelhantes aos consultórios médicos de hoje e começava manhã cedo as suas visitas domiciliárias, montado numa égua. Amigo de toda a gente (e, em especial, do “Senhor Reitor”), tratava os pobres e os menos pobres da aldeia com a mesma atenção e interesse. Naquele tempo, ainda não se imaginava um Serviço Nacional de Saúde.
Em Portugal, quando se pretendia dizer que um médico era verdadeiramente generoso e desinteressado, contava-se dele que, não só não cobrava as consultas aos pobres, como lhes dava do seu bolso dinheiro para os medicamentos. É o que Júlio Dinis diz de João Semana.
João Semana não acreditava nos avanços da Medicina. Teria certa razão. No tempo em que Joaquim Coelho escreveu (1860-1870), a terapêutica médica eficaz era ainda uma promessa. Segundo António Lobo Antunes, a figura de João Semana não nasceu do nada. Júlio Dinis inspirou-se, para a elaborar, na personagem dum certo  doutor Silveira que a tradição popular fizera quase santo.
Para Maria José Oliveira Monteiro (“Júlio Dinis e o enigma da sua vida”), o modelo em que o escritor se inspirou para criar o seu João Semana seria outro: o Dr. Joaquim Silvestre Correia da Silva, de Grijó, povoação onde o escritor passou boa parte da sua infância.
Sobre Júlio Dinis escreveu Camilo, em carta a António Feliciano de Castilho, datada de  2/11/1867:
O autor da Pupilas do Abade é cirurgião e lente na escola do Porto. Deve ter 37 anos. É um sujeito doente e triste. Parece-me que tem muitíssima aptidão para a novela. Li, e disse cá ente mim: Jam nova progenies, etc. Aquilo é rebate de entroixar eu a minha papelada, e desempeçar a estrada à nova geração.

Texto retirado do capítulo “Relação Médico doente na Literatura Portuguesa”, do livro a integrar no Processo de candidatura da Relação médico doente a Património Imaterial da Humanidade.





terça-feira, 29 de janeiro de 2019




       RELACÃO MÉDICO DOENTE


    NA LITERATURA PORTUGUESA





    CAMILO CASTELO BRANCO




Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, em março de 1825 e faleceu em s. Miguel de Seide, em junho de 1980. Chegou a estudar Medicina, tendo obtido aprovação nas cadeiras de Anatomia e Química. Logo a seguir, desistiu do curso.
Camilo teve uma vasta produção literária. A dada altura da sua vida, chegou a ser considerado “o maior romancista de Península Ibérica”.
Por volta dos 40 anos, começou a queixar-se de diplopia e de cegueira noturna. Era a neurosífilis, que lhe provocaria atrofia óptica e acabaria por o conduzir ao desespero.
Escreveu a 13/3/1888:
Aqui esteve quatro horas o Dr. Gama Pinto, uma cara inteligentíssima revelando um excelente coração. Conheceu rapidamente o meu deplorável estado, e fez-me um bom discurso para me dar paciência e resignação para a cegueira.
Caíram todos os meus castelos no ar quando o médico, em vez de combater a minha cegueira, tratou de me armar de paciência para tolerá-la. Fez-se na minha alma uma noite escura, que nunca mais terá aurora.
Outro médico, Ricardo Jorge (1858-1939) conheceu Camilo Castelo Branco em 1884. Segundo Maximiliano de Lemos, “Ricardo Jorge era o médico mais talhado para prestar cuidados a Camilo e para se impor ao seu espírito doente e torturado”.
O doente rebelde aceitou a autoridade do seu novo clínico. No entanto, Ricardo Jorge não foi apenas médico de Camilo. Tornou-se, também, seu amigo pessoal, tendo-o visitado em Seide, na Póvoa, no Porto e em Lisboa. Ricardo Jorge colaborou ainda no tratamento de Jorge, o filho louco de Camilo e, em 1886, facilitou o internamento dele no Hospital Conde de Ferreira.
O insigne higienista Ricardo Jorge foi também um homem de cultura. Publicou artigos de jornal, críticas artísticas e literárias e poemas. Entre os seus escritos contam-se “El Greco” (1912), “Ramalho” (1915), ”Contra um plágio do Prof. Teófilo Braga” (1917), Francisco Rodrigues Lobo (1920), “Camilo e António Aires” e o poema “As Comendas”. Ricardo Jorge chegou mesmo a pensar escrever uma biografia de Camilo, mas não o chegou a fazer.
São raras as fotografias em que Camilo figura acompanhado. Apresenta-se, numa, junto a Ana Plácido e a um dos filhos. Na outra, mostra-se ao lado de Ricardo Jorge.
Camilo teve um fim de vida atribulado. Escreveu, em carta não datada, ao Dr. Rebelo da Silva:
A minha agonia está sendo tão nova e tão extraordinária que eu me considero nos últimos transes desta crudelíssima vida.
No entanto, o sofrimento não lhe coartava o sentido de humor. Escreveu a Trindade Coelho, a 9/7/1996:
Infelizmente, os jornais tratam da minha saúde, ad libitum, fantasiosamente, como os médicos.
Raramente as relações médico doente terão acabado tão mal como no caso de Camilo Castelo Branco e do último oftalmologista que o observou.
A 21 de maio de 1890, Camilo estava desesperado com a cegueira. Escreveu ao oftalmologista Edmundo de Magalhães Machado, de Aveiro, pedindo-lhe que o salvasse. A 1 de junho, o médico deslocou-se a Seide. Reconhecendo que o mal que afligia o escritor não tinha cura, optou por o não desanimar frontalmente. Aconselhou-o a melhorar o seu estado geral, para que os órgãos da visão se pudessem recompor. Recomendou-lhe tratamentos com as águas do Gerez.
Camilo compreendeu o recado. Enquanto Ana Plácido acompanhava o médico à porta, desfechou um tiro de revólver na cabeça. Levaria cinco horas a morrer.

Texto retirado do capítulo “Relação Médico doente na Literatura Portuguesa”, do livro a integrar no Processo de candidatura da Relação médico doente a Património Imaterial da Humanidade.





segunda-feira, 28 de janeiro de 2019


A HISTÓRIA CLÍNICA 


DO REI D. JOSÉ



DESCRITA 


PELO MARQUÊS DE POMBAL


 Júlio Dantas, escritor, político e médico, dedicou vários artigos às doenças que afetaram os monarcas da dinastia de Bragança. Entre eles, é notável o estudo que dedica ao “síndroma glosso labiado do rei D. José”. Trata-se da paralisia lábio glossofaríngea, provocada por lesão dos nervos cranianos IX,X e XII.

                    D. José
O que empresta um interesse excecional a este trabalho é o facto de se basear num manuscrito do Marquês de Pombal, intitulado «Relação compendiosa do que se tem passado e vae passando na enfermidade d`El-Rei, meu Senhor». Escrito sob a forma de diário, no período que decorre de setembro de 1776 a janeiro de 1777, ilustra, numa inesperada exuberância de pormenores, o relato da última doença do rei D. José. (Dantas). O Grande Marquês elabora uma história clínica plena de argúcia, de capacidade de observação e de objetividade que não se encontra com facilidade em registos clínicos da época.

D. José, por volta de 1775, sofria de úlceras nas pernas. Eram «chagas calosas e duras», que «se haviam feito como hereditárias nos senhores da casa sereníssima de Bragança».


        Marquês de Pombal

No final de setembro de 1776, quando Pombal começa a escrever a sua «Relação compendiosa», o rei está melhor das úlceras, mas tem as penas secas, atrofiadas. É sujeito, primeiro, a banhos nas Alcaçarias. Como as chagas recidivam, é tratado com «cicatrizantes» e «incarnativos». O Marquês informa que os médicos aplicam nas úlceras do rei um unguento de fezes de ouro, alvaiade e vinagre. Dantas acha que deveria ser o triapharmacum, ou «unguento nutrido», também chamado «unguento áureo», composto de fezes de ouro (protóxido de chumbo), vinagre forte e óleo rosado, a que teria sido associado o alvaiade, utilizado na época em diversos unguentos cicatrizantes. Dias depois, as úlceras estavam fechadas e as pernas do rei «enxutas e secas».

A etiologia das reais úlceras é desconhecida e a sífilis é sempre mencionada na discussão. Tratava-se de úlceras antigas, de muitos anos.
A seguir a uma infeção cutânea acompanhada de febre, iniciada a 1 de novembro de 1976, começou a «esboçar-se o síndroma paralítico que daí a pouco há de dominar a situação patológica do rei. Este síndroma, que se estabelece insidiosamente, sem ictus apoplectiforme, e que durante cerca de quatro meses se vai definindo, completando e agravando, até determinar a morte por síncope ou por asfixia, é descrito pelo marquês de Pombal com a mais inesperada clareza nas poucas folhas da Relação Compendiosa» (Dantas):
Manifestou-se, logo nos dias 4,5 e 6, um tealismo ou salivação extraordinária, que, trazendo consigo um grande impedimento dos queixos, e na língua, privou o dito senhor da articulação das palavras, sem poder pronunciar alguma que fosse percetível.
Acresceu ainda a tudo o referido, de 6 a 7 de novembro, o sintoma de umas tão fortes convulsões na perna e no braço do mesmo lado esquerdo, que os médicos julgaram já estar o dito senhor atacado de uma paralisia: o que com estes tristíssimos motivos pediu a religiosíssima piedade de sua Majestade o sagrado Viatico, que se lhe administrou…
Tinha porém sobrevindo o sintoma de um escarro detido na garganta, que os médicos (naturalmente espavoridos como pequenos homens à vista de tão grande senhor) temeram que fosse estertor…
… Nos outros dias que se têm seguido, veio a descobrir-se que o escarro, que antes se havia suposto, não era um escarro; mas sim uma convulsão na garganta, tão forte e rebelde que, apesar de todos os remédios, impedia a deglutição quase inteiramente; ou de sorte que sua Majestade não tem podido engolir: nem alguns bocados de uma sopa fervida; nem de um gigote igualmente miúdo e suave; nem alguns sorvos de água; sem uns grandes esforços e sem um grande aperto de respiração tal, que o tem feito parecer que sufocava. 
D. José sobreviveu três meses à doença. Não foi autopsiado.
    Segundo Pombal o rei não sofreu a menor perturbação de cabeça. Não existiam paralisias dos membros. Terão ocorrido algumas atrofias musculares nas pernas, onde tivera úlceras.  
A salivação parecia extraordinária porque a disfagia impedia o rei de engolir a saliva. Privado da articulação das palavras pela disartria, o rei emitia apenas sons inarticulados. Tem de servir-se de pena de lápis para determinar o que convêm ao arranjo da sua consciência. A paralisia do palato e da faringe permitia a entrada de alimentos na laringe, determinando episódios de sufocação.
Apesar da eloquência do Marquês de Pombal na descrição da doença, não é possível, no caso do rei D. José, distinguir a paralisia bulbar da pseudobulbar. A diferenciação faz-se pelo maior grau de atrofia dos músculos inervados pelos pares cranianos baixos na forma bulbar. Quanto às convulsões jaksonianas, não integram habitualmente os quadros de paralisia bulbar e pseudobulbar, levando a supor que as lesões encefálicas que atingiram o rei tinham também localização cortical.
A paralisia bulbar ocorre na esclerose lateral amiotrófica, que raramente mata tão depressa e produz geralmente atrofias musculares acentuadas e acompanhadas de fasciculações, que não são descritas. As paralisias pseudobulbares podem ser provocadas por lesões cerebrais vasculares bilaterais, envolvimento por sífilis das artérias cerebrais, tumores e quistos cerebrais, esclerose múltipla, meningite tuberculosa e aneurismas do tronco basilar.
Não sou capaz de propor uma etiologia credível para a doença que levou à morte o rei D. José I. Não podemos, contudo, esquecer que as paralisias começaram três dias após uma infeção cutânea acompanhada de febre, o que faz pensar numa meningoencefalite, ou num abcesso cerebral com localização bulbar.


Bibliografia
                   Dantas, Júlio. Dantas, Júlio. 1914. “O síndrome glosso labiado 
                   de D. José”, Academia das Sciências de Lisboa, Boletim da 
                   Segunda classe; Actos e pareceres, estudos, documentos 
                   notícias,  Volume VII, 1912-1913, pg 339-350, Coimbra: 
                   Imprensa da Universidade.

                   Haymaker, Webb. Bing`s local diagnosis in neurological diseases. 
                   1969. Saint Louis: The C. V. Mosby Company.

                   Merritt, Houston. A texbook of Neurology. 1973. Philadelphia: 
                   Lea & Febiger.



quinta-feira, 22 de novembro de 2018




GRIPE PNEUMÓNICA
III
A PENUMÓNICA EM PORTUGAL

    Os portugueses poderiam mesmo chamar “espanhola” à gripe pneumónica. Os primeiros casos ocorreram em maio de 1918, em Vila Viçosa. Foram trazidos de Espanha por trabalhadores sazonais portugueses vindos de Badajoz e de Olivença.


A gripe espalhou-se rapidamente pelo Alentejo. Chegou a Lisboa e ao Porto em junho. Em pouco tempo, espalhou-se por todo o país.
Em setembro, instalou-se na Madeira, levada por passageiros embarcados no navio Mormugão.


Atingiu no mesmo mês os Açores, transmitida por doentes que seguiram, por mar, de Bordéus para Ponta Delgada.
     Quando ocorreram, em Vila Nova de Gaia, em agosto, alguns casos de pneumonia fulminante, houve quem receasse estar a enfrentar um surto de peste bubónica, de que havia memória recente. Ocorreu uma epidemia de peste, na região, no final do século XIX. As autoridades sanitárias esclareceram que se tratava de gripe, mas a população nada terá ganho com a troca.


Era o início da segunda vaga de gripe. Durou poucos meses, mas acompanhou-se de uma taxa mortalidade que chegou aos 6,6%.
      Perante um flagelo que não entendiam, nem eram capazes de combater, muitos portugueses refugiaram-se na religião e procuraram obter, como durante a Idade Média, por meio de preces e procissões, o auxílio que as autoridades sanitárias eram impotentes para proporcionar.


Segundo João Frada, os concelhos da Região Norte foram relativamente poupados pela doença.
Por outro lado, as taxas mais elevadas de mortalidade não se verificaram nos concelhos mais populosos do continente. Benavente foi a povoação mais afetada pela epidemia, tendo morrido sete por cento dos doentes atingidos. Entre as cidades, as mais afetadas foram Covilhã e Leiria.
Foram, nessa altura, ensaiadas as primeiras vacinas polivalentes.


Ricardo Jorge, diretor do então Instituto Central de Higiene, teve um papel importante, ainda que nem sempre consensual, no combate à gripe. Tornou obrigatória a notificação de todos os casos, procurou impedir as movimentações das forças militares e as migrações dos trabalhadores agrícolas sazonais e esforçou-se por conter os aumentos dos preços dos medicamentos nas farmácias. Suspendeu as aulas e proibiu as visitas aos hospitais. No entanto, as salas de espetáculos continuaram a funcionar.
        Em Lisboa, o Liceu Camões e o convento das Trinas foram transformados em hospitais.


Como noutros países, as crianças pequenas e os adultos jovens foram mais atingidos.
Segundo Helena Rebelo de Andrade, a pandemia gripal encontrou Portugal a braços com uma crise “económica, social, política e sanitária”.
     O quadro clínico era semelhante aos das gripes dos nossos dias: febre, cefaleias, mialgias, ardor faríngeo, rinorreia e, ocasionalmente, conjuntivite. Na maioria dos casos, a doença evoluía bem e curava em 3 a 5 dias.
       A complicação mais temida era a pneumonia primária, com expetoração hemoptoica e espumosa. Provocava muitas vezes síndromes de insuficiência respiratória aguda, matando o doente num dia ou em dois. Ocasionalmente, eram invadidos outros órgãos e sistemas, surgindo miocardites, encefalites e, provavelmente em associação com o uso de salicilatos, síndromas de Reye.


     Neste gráfico, é bem claro o efeito da gripe pneumónica na evolução da curva de mortalidade do nosso país.
Que conselhos se poderiam dar aos doentes? Alguns são atuais hoje, como ficar em casa, repousar e adotar uma dieta ligeira. Recomendavam-se caldos de galinha e gargarejos mentolados. A febre era combatida com soluções de quinino e salicilatos. A tosse tratava-se com xaropes de benzoato de sódio e de acetato de amónio. Nos casos mais graves, recorria-se a injeções de soluções arsenicais, cafeína e adrenalina.
      A desgraça estava à vista de todos. Saíam, cada dia, funerais da própria rua e até da casa ao lado. A epidemia era transversal a todas as classes sociais. Morriam padeiros, leiteiros, médicos e coveiros. Os sinos das igrejas tocavam quase continuamente a finados.



        A morte banalizou-se. Faltavam os caixões e muitos corpos eram sepultados em valas comuns envoltos em serapilheiras. 
    No nosso país, foram mais atingidos pela gripe as crianças com menos de dois anos de idade e os adultos jovens. Metade dos óbitos registou-se entre os 20 e os 40 anos de idade.

  NÚMERO DE ÓBITOS EM PORTUGAL
(MILHARES)
JOÃO FRADA   60
JOSÉ MANUEL SOBRAL  DE » 50 A » 100
WIKIPEDIA       CERCA DE 120


       O número de óbitos registado em Portugal varia também, segundo as fontes, entre 50 e 120 mil. João Frade contabiliza exatamente 60.174, mas poderão ter-lhe escapado inúmeros casos sem diagnóstico ou com diagnósticos enganosos. Note-se que em 1918, os portugueses eram menos de seis milhões.
          Entre dezenas de milhar de desconhecidos, a gripe ceifou as vidas de várias personalidades com relevo na sociedade portuguesa.


                 O pintor Amadeu de Souza Cardoso


       O suposto vidente de Fátima, Jacinto Marto


       O pianista e compositor António Fragoso
       E, last but not least, o fundador do Sporting, José Alvalade.

    A gripe pneumónica provocou uma crise demográfica grave no nosso país, com um saldo negativo de 70.291 habitantes, só em 1918.






terça-feira, 20 de novembro de 2018





GRIPE PNEUMÓNICA

II


     A Pneumónica foi provocada por uma estirpe do vírus Influenza A, do subtipo H1N1. 
     O vírus da gripe é um ortomixovírus com dois tipos essenciais de glicoproteínas de superfície: a hemaglutinina e a neuraminidase. A variação da antigenicidade destas glicoproteínas permite à gripe apresentar-se de formas novas quase todos os anos. 


   De tempos a tempos, ocorrem variações maiores, as chamadas “antigenic shift”. 
    As nossas defesas imunológicas assentam na imunidade humoral, baseada na produção de anticorpos contra estes dois antigénios, ajudada pela imunidade celular, a cargo dos linfócitos T, das células exterminadoras naturais e dos macrófagos.
Em 2005, foi anunciado o sequenciamento genético do vírus da gripe de 1918, recuperado de cadáveres congelados em zonas de permafrost, ou pergelissolo. É um tipo de solo encontrado na região do Ártico. É constituído por terra, gelo e rochas permanentemente congeladas.



Estudos em ratinhos sugeriram que as mortes ocorriam quando os sistemas imunológicos reagiam exageradamente ao vírus, com libertação excessiva de citoquinas. Essas “tempestades” de citoquinas teriam precipitado o envolvimento pulmonar e a morte de adultos jovens, durante a pneumónica. Dito de outro modo, parece que morreu quem se defendeu demais.



Os sistemas imunológicos mais débeis de crianças e velhos não seriam capazes de reações tão intensas, originando menores taxas de mortalidade. As crianças e os idosos costumam ser os mais vulneráveis às epidemias. Não aconteceu assim com a pneumónica, que castigou, essencialmente os setores jovens da população, predominando entre os 20 e os 40 anos de vida. Complicou-se, frequentemente, com pneumonias bacterianas secundárias.
Apesar de existirem diferenças notáveis nas condições higiénicas e alimentares, a gripe foi transversal a um grande número de países e a todas as classes sociais.



Há quem defenda que uma parte dos óbitos por gripe poderia estar associada à intoxicação com aspirina, a qual, chegava a ser recomendada em doses de 30 gramas por dia e poderia estar associada às hemorragias. No entanto, a mortalidade foi também elevada em regiões do mundo em que a população não tinha acesso ao ácido acetilsalicílico.
Muitos consideram que a estirpe viral responsável pela gripe pneumónica foi invulgarmente agressiva. Benigna, não foi, mas terá sido ajudada, pelo menos na Europa, pela subnutrição e pela falta de condições higiénicas causadas pela guerra e, ainda, pela aglomeração de pessoas nos acampamentos militares e nas cidades. A sobrelotação dos hospitais terá facilitado a eclosão de superinfeções bacterianas, responsáveis por muitas mortes.



Os mais velhos terão sido relativamente poupados por terem tido contacto anterior com vírus aparentados a este, que terão circulado décadas atrás (pandemia de 1889-90).
As vítimas prediletas da gripe pneumónica foram as grávidas, com mortalidade excecionalmente elevada. Há quem indique uma taxa de 30% e quem aponte para números superiores.
A história da gripe está longe de acabar. Vejamos brevemente como começou. Falo, naturalmente, das epidemias que foram registadas por escrito.

            RELATOS ANTIGOS DE GRIPE A
              TUCIDIDE (ATENAS)  431 A.C.
              HIPÓCRATES (NORTE DA GRÉCIA)  412 A.C.
              POSSÍVEIS SURTOS NO SÉCULO V
              EPIDEMIAS NA ITÁLIA, NO RENASCIMENTO
              PANDEMIA DE 1530
              PANDEMIA DE 1889 (ORIGEM NA SIBÉRIA)

Tucidide (460-395 a. C.) relatou uma epidemia ocorrida em Atenas no ano de 431 a.C. Descreveu os sintomas, que parecem sobreponíveis aos da gripe e, ainda, a desregulação que a doença provocou na vida da cidade, com o oportunismo, o mercado negro dos bens essenciais e a falta de respeito pelos mortos.
Hipócrates descreveu um surto de infeção catarral acontecida no norte da Grécia no ano 412 a.C. Tratou-se, provavelmente, de gripe, e foi relatada no Livro IV das Epidemias.
Há descrições de possíveis surtos gripais no século V, mas a verdadeira história da gripe epidémica tem início entre os séculos XIV e XVI, com os relatos das epidemias italianas do Renascimento. Ocorreu uma pandemia em 1530. A partir dessa data, a gripe diminuiu de frequência na Europa, até que no inverno de 1889, nasceu na Sibéria uma nova pandemia.

       PANDEMIAS DE GRIPE A APÓS A PNEUMÓNICA
           GRIPE ASIÁTICA  1957 (H2N2)
           GRIPE DE HONG KONG  1968 (H5N1)
           GRIPE "SUÍNA" 2009 (H1N1)
            
Segundo Francisco George, as pandemias de gripe são sempre diferentes umas das outras. Sucedem-se, a cada pandemia, epidemias anuais provocadas por estirpes que lhe são aparentadas, como se duma dinastia se tratasse.



As aves, especialmente as aquáticas migratórias, como os patos selvagens, constituem o reservatório natural do vírus da gripe. As pandemias regressam, com intervalos de tempo variáveis.   
As autoridades sanitárias estão, todos os anos, à espera duma nova epidemia. Hoje dispomos de antibióticos para combater as infeções bacterianas secundárias e uma melhor organização dos cuidados sanitários. Contudo, os transportes são também mais rápidos e os vírus chegam cá mais depressa.
Em 1918, não existiam terapêuticas antivirais específicas. Na atualidade, dispomos de vários medicamentos.

        MEDICAMENTOS ANTIVIRAIS
                 ADAMANTANAS (ANTIPARKISÓNICOS)
                 AMANTADINA E RIMANTADINA

                    NUNCA FORAM EFICAZES CONTRA A GRIPE B
                     As ESTIRPES A SÃO CADA VEZ MAIS RESISTENTES

 Tendem a ser abandonadas, no tratamento da gripe.

INIBIDORES DA NEURAMINIDASE
  ZANAMIVIR
    OSELTAMAVIR (TAMIFLU)
      PERAMIVIR (I.V.)

Podem ser usados tanto para prevenir, como para tratar a gripe. O peramivir, de administração intravenosa, é sugerido para os casos em que o oseltamivir falha.
Em casos de mutação viral importante, são os únicos meios para tentar controlar a proliferação da doença, até se produzir uma vacina específica contra a estirpe nova.
A terapêutica antiviral reduz a mortalidade dos doentes com pneumonia viral, mesmo se iniciada dois dias após o início da doença. No entanto, nas epidemias de gripe A do Missisipi, em 2001 e de Hong Kong, em 2009, foram encontrados vírus que continham o gene de mutação H275Y da neuraminidase que confere resistência ao oseltamivir. 
      Tem sido recomendada a profilaxia precoce.
Contudo, há artigos que indicam que o uso profilático deste produto, em pessoas que contactaram com doentes, pode aumentar o risco de resistência.  Sugerem que a profilaxia se deve reservar a pacientes com patologia grave associada.



Tem sido tentada a associação de vários antivirais. Pelo menos num ensaio clínico, o recurso à medicação com uma combinação de oseltamivir com peramivir não deu resultados superiores ao uso isolado do oseltamivir.
O vírus da gripe pneumónica correu o mundo durante dezoito meses, de março de 1918 a agosto de 1919.

                                                                                           (Continua)