Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

domingo, 3 de fevereiro de 2019



RELACÃO MÉDICO-DOENTE


NA LITERATURA PORTUGUESA


 FERNANDO NAMORA




Fernando Gonçalves Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, em abril de 1919 e faleceu em Lisboa, em janeiro de 1989. Licenciou-se em Medicina, em Coimbra. Como escritor, fez parte da geração de 1940, juntamente com Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Joaquim Namorado e João José Cochofel. Exerceu Medicina em regiões rurais da Beira Baixa e Alentejo. Fixou-se mais tarde em Lisboa, como médico do Instituto Português de Oncologia. 
Foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Escritores Médicos.
É autor de uma extensa obra que se repartiu pela poesia, pelo conto, pelo romance e pelas crónicas de viagem. Aventurou-se também pela pintura, chegando a ser premiado nessa forma de arte.
Neste trabalho despretensioso sobre o modo como é tratada a relação entre médicos e doentes na literatura portuguesa, cito quatro prosadores médicos. Deixo, agora, Amato Lusitano de parte, por não ser ficcionista. Entre todos, foi claramente Fernando Namora quem mais se preocupou em aprofundar a questão. Três dos seus romances (Retalhos da vida de um médico (1949), O Homem disfarçado (1957) e Domingo à tarde (1961) têm médicos como protagonistas. No entanto, o relacionamento do clínico com os seus pacientes é bem aparente ao longo de boa parte do resto da sua obra.
Nela, o médico procura olhar-se a si próprio e olhar os doentes e, ainda, ver-se a si mesmo pelos olhos deles. É que somos todos animais de grupo e dependemos da impressão que os outros formam de nós.  Será isso que nos leva a fingir e pretender ser outra coisa, para abrigar a alma de olhares alheios. É a esse tipo de atitude que Fernando Namora designa como o uso da máscara social.
A doença coloca os humanos em situações de fragilidade e leva muitos doentes a pôr de lado as máscaras e a olhar o clínico nos olhos. O abandono do fingimento permite uma aproximação especial entre médicos e doentes.
 … esta relação íntima e o contexto dramático da doença (com a iminência da morte) potenciam a autenticidade, a queda das máscaras sociais e a revelação do verdadeiro “eu”.
O tema é recorrente na sua escrita. Em “Retalhos da vida de um médico”, Fernando Namora relata a sua experiência clínica em pequenas povoações do interior do país. As narrativas correspondem ao início da sua vida profissional.
Eu queria lutar com desespero contra a doença, chamá-la a mim, vigiá-la infatigavelmente; reanimar de vida esse corpo vencido. Mais soro, mais tónicos, tudo o que havia à mão. Foram horas de febre, às vezes de desalento, outras de esperança, ao lado do inimigo que se apoderava irresistivelmente duma vida.
Escreve, mais adiante:
Precisava de persistir. E entreguei-me a cada doente que me procurava com um ardor desesperado. Dias e noites, a horas escusas, faminto de êxito e simpatia, ia rondar o sofrimento, animar os impacientes, oferecer-me inteiro à vida alheia”.
O médico parece sentir a dor dos que lhes pedem ajuda.
Contudo, também ele usa a máscara social. O protagonista de “O homem disfarçado” tem “como principal objetivo ver-se a si próprio com clareza, livrar-se de uma carga de simulações.
Namora escreveu, em “A vacina”:
Tem sido de há muito minha convicção de que ao médico não bastam a sabedoria universitária, as patologias dos livros, a argúcia clínica que as desvenda e subjuga; o humanismo perspicaz, comovido, diligente, do velho médico de família, legenda romântica da nossa infância, continua válido se o pudermos ajustar às coordenadas atuais – e, em muitas circunstâncias, é ele que substitui a droga no seu objetivo de dar esperança e alívio a quem o sofrimento desesperou. Deseja-se ao médico uma sólida consciência profissional, pois não há missão tão eriçada de responsabilidade – mas que não falte, nesse complexo de virtudes, a que advém de um homem lúcido e sensível que se disporá oferecer a outro a simpatia humana que pode traduzir-se sob várias e sempre fecundas expressões. A atmosfera do ato médico é, antes do mais, um diálogo entre dois homens – o que ouve, decifra, decide, em quem se confia, e o que não pode ser repelido ou defraudado na sua necessidade de proteção. O êxito da terapêutica muito depende, pois, da maneira como o médico, mestre desse diálogo, o faz desenrolar.
Em “Domingo à Tarde”, Fernando Namora disserta sobre a incapacidade de comunicação com os doentes. Nesse romance, o seu personagem principal é um médico de um hospital de Lisboa que se refugia na distância e no isolamento. Pouco fala com os enfermos – limita-se a resmungos e a acenos de cabeça.
Trata-se de um oncologista desanimado com a eficácia limitada do seu arsenal terapêutico. Fernando Namora retrata um personagem ao contrário do que ele acredita deverem ser os médicos: um clínico azedo, solitário, cético e pouco esperançoso, mostrando dificuldade em distinguir pieguice de ternura
A redenção do oncologista dá-se pela influência de Clarisse, doente incurável, uma espécie de santa padroeira que o convence da importância da solidariedade e da compreensão da parte de quem socorre os humanos em sofrimento.
Clarisse ajuda o médico a pôr a máscara de lado e a voltar ser ele mesmo. Ela afasta também os seus disfarces. Modifica-se, ao saber que sofre de leucemia. Escreve Namora:
horas depois, quando entrei no laboratório, fui encontrá-la num banquinho baixo, quase aninhada, a fazer perguntas assustadoramente ingénuas à minha assistente.
Ela própria confessa, no seguimento do livro:
Nada tenho dentro de mim a não ser o medo.
O comportamento da doente acaba por alterar a atitude do clínico, que entende que ele e os pacientes navegam na mesma embarcação, enfrentam o mesmo inimigo e têm os destinos chegados. O doente depende do seu doutor, mas o médico compreende que a sua vida só faz sentido enquanto for capaz de transmitir a quem sofre carinho e compaixão. Não se trata apenas de sentir, mas também de mostrar que se sente. O médico deve pôr a máscara de lado.
Em “Estamos no Vento”, Namora retoma um dos seus temas favoritos: a doença põe à mostra a autenticidade humana enquanto a proximidade da morte torna o fingimento quase impossível.
A medicina continua a não se bastar com os manuais, indo sempre mais dentro do homem para o entender na saúde e na doença, sabendo que esta, por lhe afrouxar as resistências, não raro desvenda o que até aí se dissimulara em disfarces.
A prática médica é, fundamentalmente, uma relação entre pessoas.
Em algumas aldeias portuguesas, pouco terá mudado nos três quartos de século que separam os textos de Júlio Dinis e Fernando Namora. O consultório permanece arredado do quotidiano. O internamento hospitalar é uma possibilidade distante. As pessoas adoecem, são tratadas, melhoram ou pioram, e, quando lhes calha a vez, agonizam, nas próprias casas. As consultas médicas são predominantemente domiciliárias. Os meios auxiliares de diagnóstico constituem uma referência afastada. Para o diagnóstico, o médico apoia-se no próprio saber e na observação meticulosa dos doentes.
O contacto com o sofrimento, o desalento e até o desespero, terá tornado confessional a escrita de Fernando Namora.
Segundo Eduardo Lourenço, irmão de um médico que me calhou operar e de quem fui amigo, Namora foi um dos que esteve sempre «em uníssono com as dores do mundo”.
A minha experiência profissional teve início decorridos vinte anos sobre a publicação da primeira edição de “Retalhos da vida de um médico” e desenrolou-se durante quatro décadas. Aconteceu em meio urbano, em ambiente hospitalar, com possibilidades de recurso a meios complementares de diagnóstico cada vez mais sofisticados. Reler Fernando Namora, o escritor português que mais páginas dedicou ao relacionamento entre médicos e doentes, transportou-me a um tempo que me parece pertencer a um mundo mais antigo.
Julgo ter entendido, ao longo da vida, a necessidade de estar perto dos doentes e de lhes fazer sentir a minha solidariedade com palavras, gestos e atitudes. Raramente me terei deparado, contudo, com a tal “máscara social” com que Fernando Namora tanto se preocupou. Poderá faltar-me sensibilidade para esse tipo de visão das relações humanas. Sinto-me, porém, tentado a considerar que ela constitui essencialmente uma realidade literária. Quanto muito, Namora terá feito generalizações a partir de uma ou outra experiência mais marcante da sua vida clínica


Texto retirado do capítulo “Relação Médico doente na Literatura Portuguesa”, do livro a integrar o Processo de candidatura da Relação Médico Doente a Património Imaterial da Humanidade.


sábado, 2 de fevereiro de 2019



RELAÇÃO MÉDICO-DOENTE


NA LITERATURA PORTUGUESA


  VIRGÍLIO FERREIRA




Virgílio Ferreira nasceu em Melo, na Serra da Estrela, em 1916, e morreu em Lisboa, em 1996. Chegou a frequentar o seminário do Fundão, mas acabou por se licenciar em Filologia Clássica, em Coimbra. Começou por aderir ao neorrealismo, porém depressa se deixou influenciar pelos existencialistas franceses André Malraux e Jean-Paul Sartre. O existencialismo já está bem patente na sua obra “Mudança”, de 1949.
Virgílio Ferreira escreveu 47 livros. É considerado um dos mais importantes romancistas portugueses do séc. XX, tendo ganho vários prémios de literatura. Foi, ainda, professor de Português e Latim em várias escolas do país.
Em “O nome da terra”, o escritor aborda a questão do consentimento informado. Na decisão da amputação da perna, o personagem, que fala na primeira pessoa, reclama ser ouvido. Considera que os médicos deram pouca importância à sua opinião. “Falam da minha perna com ela não fizesse parte de mim”. Sem o referir expressamente, o escritor deixa transparecer a falta de diálogo entre o médico e o doente.
Estou num quarto de hospital e o médico diz-me:
− Temos de lhe amputar a perna, como sabe. É coisa simples.
− Gostava de ver a minha perna depois.
− Mas é uma tolice. É uma coisa mórbida. Nem vai poder vê-la, ter a compreensão disso.
− Gostava.
Escreve, noutra página:
A gente chega ao fim, que é quando já não tem embalagem para haver mais futuro.
− E como é que começou?
Olhava a minha perna enquanto era minha e tinha uma pena triste.
Um dia fui fazer um eletrocardiograma e o médico perguntou-me?
− Não tem os dedos dos pés enegrecidos?
Que pergunta. Não tenho, doutor. Nunca tinha reparado mas disse não tenho, talvez para inclinar o destino a meu favor.


Texto retirado do capítulo “Relação Médico doente na Literatura Portuguesa”, do livro a integrar no Processo de candidatura da Relação médico doente a Património Imaterial da Humanidade.






sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019



RELACÃO MÉDICO DOENTE


  NA LITERATURA PORTUGUESA


  MIGUEL TORGA




Adolfo Coelho da Rocha, que adotou o pseudónimo literário de Miguel Torga, nasceu em S. Martinho de Anta, em 1907, e morreu em Coimbra, em 1995. Filho de um agricultor modesto, trabalhou durante a adolescência na fazenda do seu tio José, no Brasil. Foi o tio quem lhe pagou os estudos de Medicina, em Coimbra.
Ainda me lembro da placa do seu consultório, no Largo da Portagem, na mesma cidade.
Não são frequentes as referências a médicos nem a doentes nos textos de Miguel Torga. Depois de muito procurar, encontrei no IX Diário a nota que transcrevo. Foi escrita em S. Martinho de Anta, a 26 de dezembro de 1960. Por essa altura eu, caloiro de Medicina, comemorara em Coimbra um Natal triste, frio e chuvoso.
Consultas e mais consultas a esta pobre gente, que parece guardar as mazelas durante o ano para quando eu venho. Ausculto, apalpo, dou os remédios e prometo a cura. Mas acabo por me sentir o verdadeiro beneficiário do bodo clínico. Reencontro nele o gosto do ofício, que a cidade tem progressivamente amortecido. Há um lance no exercício da profissão que sempre me apaixonou: a anamnese. O relato dos padecimentos, feito pelo doente à cordialidade inquisidora do médico. É ele o grande momento humano do ato clínico. O instante em que o abismo se abre ou não abre, a verdade que vem à tona ou não vem, se realiza ou não o encontro da aflição com a piedade. A civilização tornou quase impossível esse rasgar de trevas, essa entrega total e confiada da alma dorida ao desvelo hipocrático. A conjugada ação de mil forças inibidoras invalida a instintiva ânsia reveladora do sofrimento. Cada palavra diz outra coisa, cada queixume vem mascarado. As conveniências sociais, a covardia, a suspicácia e o hábito arreigado de hipocrisia impedem qualquer sinceridade. E o infeliz facultativo cansa-se e degrada-se no consultório a interrogar clientes de má-fé. Nenhum talento, nenhuma cultura, nenhuma autoridade, nenhum ardil conseguem desfazer a ambiguidade da confissão, que acaba sempre por ser uma longa mentira premeditada. Ora, no camponês, tudo se passa doutra maneira. Dono dum campo de consciência restrito, virgem ainda nas reações, quando adoece todo ele se concentra na observação dos sintomas do mal que o rói, e descreve-os depois objetivamente, com a candura dum primário e a precisão dum cientista. Sem falsos pudores, sem perturbadoras interferências, faz um relato leal e vigoroso da enfermidade. E é uma aventura emocionante e dignificadora acompanhá-lo pelas veredas da angústia, o apelo e a solicitude de mãos dadas, fraternos, a caminho da desilusão ou da esperança.
Não deixa de ser curioso anotar a preocupação de Miguel Torga com o abandono das máscaras sociais, tão cara a Fernando Namora, como veremos adiante.

Texto retirado do capítulo “Relação Médico doente na Literatura Portuguesa”, do livro a integrar no Processo de candidatura da Relação médico doente a Património Imaterial da Humanidade.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019


RELAÇÃO MÉDICO DOENTE


NA LITERATURA PORTUGUESA


 JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS




José Rodrigues Miguéis nasceu em 1901 e viria a morrer em 1980. Descontente com o Estado Novo, passou nos Estados Unidos da América mais de meia vida, tem-se mesmo nacionalizado americano, em 1942. Posteriormente, viveu alguns períodos de tempo em Portugal.
Na obra de cariz autobiográfico “Um homem sorri à morte com meia cara” Migueis relata a sua experiência pessoal quando, no ano de 1945, adoeceu e esteve internado durante vários meses no serviço de neurologia de um hospital público de Nova Iorque, o Bellevue. Terá sofrido de uma infeção no ângulo ponto-cerebeloso, provavelmente em resultado de uma otite média crónica colesteatomatosa. Queixou-se de cefaleias e alterações da visão, antes de lhe aparecer uma paralisia facial esquerda.
Afirmou José Rodrigues Miguéis:
Procurei pintar um ambiente real: o dos hospitais numa grande metrópole moderna onde a dor e a brutalidade, a doçura e o humor, e em particular a devoção dos médicos e das enfermeiras põem traços de tragédia e de epopeia, diante das quais o tema pessoal se apaga e some.
Não guardou, porém, boa memória dos médicos que o assistiram no Hospital Bellevue. Escreveu:
Estava agora na presença de estranhos que nada sabiam de mim nem tinham comigo nenhum laço, e para quem eu era apenas mais um caso de hospital, um objeto de curiosidade clínica.
Eu não existia, era um feixe de sintomas.
Rodrigues Miguéis encontrou, depois uma enfermeira excecional:
Mrs. Abbey não me abandonou um só instante. Inclinada para mim, sorria-me, falava-me como se fala a um bebé no berço, friccionava-me, aconchegava-me melhor, dizia palavras animadoras. Que solicitude e que brandura as desta mulher autoritária e brusca, e que cordialidade a sua, após mais de quarenta anos de calejante profissão.
Mais adiante, corrigiu, em parte, a sua opinião sobre os médicos:
 Se, ao traçar alguns destes episódios, roço aqui além pela ironia, é sempre com profundo respeito e comovida gratidão que me refiro aos autênticos apóstolos da medicina que tenho conhecido. Os erros são de todos nós, humanos, e não seria de esperar que deles estivessem isentos os homens de bata branca. Nem de longe tentei reincidir na sátira de que há milénios eles têm sido alvo.

Texto retirado do capítulo “Relação Médico doente na Literatura Portuguesa”, do livro a integrar o Processo de Candidatura da Relação Médico Doente a Património Imaterial da Humanidade.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019



       

             RELAÇÃO MÉDICO DOENTE


          NA LITERATURA PORTUGUESA


                       JÚLIO DINIS


        


Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871), nasceu e morreu no Porto. Aluno brilhante, chegou a ensinar na Escola Médico-Cirúrgica da cidade, mas a doença fê-lo abandonar o trabalho. A tuberculose, que lhe levara a mãe e todos os oito irmãos, vitimou-o aos 32 anos de idade. 
Sob o pseudónimo de Júlio Dinis, publicou uma série de livros que foram considerados “dos mais suaves e ternos romances portugueses”, lidos e relidos por gerações sucessivas de adolescentes.
Em “As Pupilas do Senhor Reitor” Júlio Dinis criou a figura poderosa de João Semana, velho médico bonacheirão, também proprietário rural, que não dispunha (aparentemente) de instalações semelhantes aos consultórios médicos de hoje e começava manhã cedo as suas visitas domiciliárias, montado numa égua. Amigo de toda a gente (e, em especial, do “Senhor Reitor”), tratava os pobres e os menos pobres da aldeia com a mesma atenção e interesse. Naquele tempo, ainda não se imaginava um Serviço Nacional de Saúde.
Em Portugal, quando se pretendia dizer que um médico era verdadeiramente generoso e desinteressado, contava-se dele que, não só não cobrava as consultas aos pobres, como lhes dava do seu bolso dinheiro para os medicamentos. É o que Júlio Dinis diz de João Semana.
João Semana não acreditava nos avanços da Medicina. Teria certa razão. No tempo em que Joaquim Coelho escreveu (1860-1870), a terapêutica médica eficaz era ainda uma promessa. Segundo António Lobo Antunes, a figura de João Semana não nasceu do nada. Júlio Dinis inspirou-se, para a elaborar, na personagem dum certo  doutor Silveira que a tradição popular fizera quase santo.
Para Maria José Oliveira Monteiro (“Júlio Dinis e o enigma da sua vida”), o modelo em que o escritor se inspirou para criar o seu João Semana seria outro: o Dr. Joaquim Silvestre Correia da Silva, de Grijó, povoação onde o escritor passou boa parte da sua infância.
Sobre Júlio Dinis escreveu Camilo, em carta a António Feliciano de Castilho, datada de  2/11/1867:
O autor da Pupilas do Abade é cirurgião e lente na escola do Porto. Deve ter 37 anos. É um sujeito doente e triste. Parece-me que tem muitíssima aptidão para a novela. Li, e disse cá ente mim: Jam nova progenies, etc. Aquilo é rebate de entroixar eu a minha papelada, e desempeçar a estrada à nova geração.

Texto retirado do capítulo “Relação Médico doente na Literatura Portuguesa”, do livro a integrar no Processo de candidatura da Relação médico doente a Património Imaterial da Humanidade.





terça-feira, 29 de janeiro de 2019




       RELACÃO MÉDICO DOENTE


    NA LITERATURA PORTUGUESA





    CAMILO CASTELO BRANCO




Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, em março de 1825 e faleceu em s. Miguel de Seide, em junho de 1980. Chegou a estudar Medicina, tendo obtido aprovação nas cadeiras de Anatomia e Química. Logo a seguir, desistiu do curso.
Camilo teve uma vasta produção literária. A dada altura da sua vida, chegou a ser considerado “o maior romancista de Península Ibérica”.
Por volta dos 40 anos, começou a queixar-se de diplopia e de cegueira noturna. Era a neurosífilis, que lhe provocaria atrofia óptica e acabaria por o conduzir ao desespero.
Escreveu a 13/3/1888:
Aqui esteve quatro horas o Dr. Gama Pinto, uma cara inteligentíssima revelando um excelente coração. Conheceu rapidamente o meu deplorável estado, e fez-me um bom discurso para me dar paciência e resignação para a cegueira.
Caíram todos os meus castelos no ar quando o médico, em vez de combater a minha cegueira, tratou de me armar de paciência para tolerá-la. Fez-se na minha alma uma noite escura, que nunca mais terá aurora.
Outro médico, Ricardo Jorge (1858-1939) conheceu Camilo Castelo Branco em 1884. Segundo Maximiliano de Lemos, “Ricardo Jorge era o médico mais talhado para prestar cuidados a Camilo e para se impor ao seu espírito doente e torturado”.
O doente rebelde aceitou a autoridade do seu novo clínico. No entanto, Ricardo Jorge não foi apenas médico de Camilo. Tornou-se, também, seu amigo pessoal, tendo-o visitado em Seide, na Póvoa, no Porto e em Lisboa. Ricardo Jorge colaborou ainda no tratamento de Jorge, o filho louco de Camilo e, em 1886, facilitou o internamento dele no Hospital Conde de Ferreira.
O insigne higienista Ricardo Jorge foi também um homem de cultura. Publicou artigos de jornal, críticas artísticas e literárias e poemas. Entre os seus escritos contam-se “El Greco” (1912), “Ramalho” (1915), ”Contra um plágio do Prof. Teófilo Braga” (1917), Francisco Rodrigues Lobo (1920), “Camilo e António Aires” e o poema “As Comendas”. Ricardo Jorge chegou mesmo a pensar escrever uma biografia de Camilo, mas não o chegou a fazer.
São raras as fotografias em que Camilo figura acompanhado. Apresenta-se, numa, junto a Ana Plácido e a um dos filhos. Na outra, mostra-se ao lado de Ricardo Jorge.
Camilo teve um fim de vida atribulado. Escreveu, em carta não datada, ao Dr. Rebelo da Silva:
A minha agonia está sendo tão nova e tão extraordinária que eu me considero nos últimos transes desta crudelíssima vida.
No entanto, o sofrimento não lhe coartava o sentido de humor. Escreveu a Trindade Coelho, a 9/7/1996:
Infelizmente, os jornais tratam da minha saúde, ad libitum, fantasiosamente, como os médicos.
Raramente as relações médico doente terão acabado tão mal como no caso de Camilo Castelo Branco e do último oftalmologista que o observou.
A 21 de maio de 1890, Camilo estava desesperado com a cegueira. Escreveu ao oftalmologista Edmundo de Magalhães Machado, de Aveiro, pedindo-lhe que o salvasse. A 1 de junho, o médico deslocou-se a Seide. Reconhecendo que o mal que afligia o escritor não tinha cura, optou por o não desanimar frontalmente. Aconselhou-o a melhorar o seu estado geral, para que os órgãos da visão se pudessem recompor. Recomendou-lhe tratamentos com as águas do Gerez.
Camilo compreendeu o recado. Enquanto Ana Plácido acompanhava o médico à porta, desfechou um tiro de revólver na cabeça. Levaria cinco horas a morrer.

Texto retirado do capítulo “Relação Médico doente na Literatura Portuguesa”, do livro a integrar no Processo de candidatura da Relação médico doente a Património Imaterial da Humanidade.





segunda-feira, 28 de janeiro de 2019


A HISTÓRIA CLÍNICA 


DO REI D. JOSÉ



DESCRITA 


PELO MARQUÊS DE POMBAL


 Júlio Dantas, escritor, político e médico, dedicou vários artigos às doenças que afetaram os monarcas da dinastia de Bragança. Entre eles, é notável o estudo que dedica ao “síndroma glosso labiado do rei D. José”. Trata-se da paralisia lábio glossofaríngea, provocada por lesão dos nervos cranianos IX,X e XII.

                    D. José
O que empresta um interesse excecional a este trabalho é o facto de se basear num manuscrito do Marquês de Pombal, intitulado «Relação compendiosa do que se tem passado e vae passando na enfermidade d`El-Rei, meu Senhor». Escrito sob a forma de diário, no período que decorre de setembro de 1776 a janeiro de 1777, ilustra, numa inesperada exuberância de pormenores, o relato da última doença do rei D. José. (Dantas). O Grande Marquês elabora uma história clínica plena de argúcia, de capacidade de observação e de objetividade que não se encontra com facilidade em registos clínicos da época.

D. José, por volta de 1775, sofria de úlceras nas pernas. Eram «chagas calosas e duras», que «se haviam feito como hereditárias nos senhores da casa sereníssima de Bragança».


        Marquês de Pombal

No final de setembro de 1776, quando Pombal começa a escrever a sua «Relação compendiosa», o rei está melhor das úlceras, mas tem as penas secas, atrofiadas. É sujeito, primeiro, a banhos nas Alcaçarias. Como as chagas recidivam, é tratado com «cicatrizantes» e «incarnativos». O Marquês informa que os médicos aplicam nas úlceras do rei um unguento de fezes de ouro, alvaiade e vinagre. Dantas acha que deveria ser o triapharmacum, ou «unguento nutrido», também chamado «unguento áureo», composto de fezes de ouro (protóxido de chumbo), vinagre forte e óleo rosado, a que teria sido associado o alvaiade, utilizado na época em diversos unguentos cicatrizantes. Dias depois, as úlceras estavam fechadas e as pernas do rei «enxutas e secas».

A etiologia das reais úlceras é desconhecida e a sífilis é sempre mencionada na discussão. Tratava-se de úlceras antigas, de muitos anos.
A seguir a uma infeção cutânea acompanhada de febre, iniciada a 1 de novembro de 1976, começou a «esboçar-se o síndroma paralítico que daí a pouco há de dominar a situação patológica do rei. Este síndroma, que se estabelece insidiosamente, sem ictus apoplectiforme, e que durante cerca de quatro meses se vai definindo, completando e agravando, até determinar a morte por síncope ou por asfixia, é descrito pelo marquês de Pombal com a mais inesperada clareza nas poucas folhas da Relação Compendiosa» (Dantas):
Manifestou-se, logo nos dias 4,5 e 6, um tealismo ou salivação extraordinária, que, trazendo consigo um grande impedimento dos queixos, e na língua, privou o dito senhor da articulação das palavras, sem poder pronunciar alguma que fosse percetível.
Acresceu ainda a tudo o referido, de 6 a 7 de novembro, o sintoma de umas tão fortes convulsões na perna e no braço do mesmo lado esquerdo, que os médicos julgaram já estar o dito senhor atacado de uma paralisia: o que com estes tristíssimos motivos pediu a religiosíssima piedade de sua Majestade o sagrado Viatico, que se lhe administrou…
Tinha porém sobrevindo o sintoma de um escarro detido na garganta, que os médicos (naturalmente espavoridos como pequenos homens à vista de tão grande senhor) temeram que fosse estertor…
… Nos outros dias que se têm seguido, veio a descobrir-se que o escarro, que antes se havia suposto, não era um escarro; mas sim uma convulsão na garganta, tão forte e rebelde que, apesar de todos os remédios, impedia a deglutição quase inteiramente; ou de sorte que sua Majestade não tem podido engolir: nem alguns bocados de uma sopa fervida; nem de um gigote igualmente miúdo e suave; nem alguns sorvos de água; sem uns grandes esforços e sem um grande aperto de respiração tal, que o tem feito parecer que sufocava. 
D. José sobreviveu três meses à doença. Não foi autopsiado.
    Segundo Pombal o rei não sofreu a menor perturbação de cabeça. Não existiam paralisias dos membros. Terão ocorrido algumas atrofias musculares nas pernas, onde tivera úlceras.  
A salivação parecia extraordinária porque a disfagia impedia o rei de engolir a saliva. Privado da articulação das palavras pela disartria, o rei emitia apenas sons inarticulados. Tem de servir-se de pena de lápis para determinar o que convêm ao arranjo da sua consciência. A paralisia do palato e da faringe permitia a entrada de alimentos na laringe, determinando episódios de sufocação.
Apesar da eloquência do Marquês de Pombal na descrição da doença, não é possível, no caso do rei D. José, distinguir a paralisia bulbar da pseudobulbar. A diferenciação faz-se pelo maior grau de atrofia dos músculos inervados pelos pares cranianos baixos na forma bulbar. Quanto às convulsões jaksonianas, não integram habitualmente os quadros de paralisia bulbar e pseudobulbar, levando a supor que as lesões encefálicas que atingiram o rei tinham também localização cortical.
A paralisia bulbar ocorre na esclerose lateral amiotrófica, que raramente mata tão depressa e produz geralmente atrofias musculares acentuadas e acompanhadas de fasciculações, que não são descritas. As paralisias pseudobulbares podem ser provocadas por lesões cerebrais vasculares bilaterais, envolvimento por sífilis das artérias cerebrais, tumores e quistos cerebrais, esclerose múltipla, meningite tuberculosa e aneurismas do tronco basilar.
Não sou capaz de propor uma etiologia credível para a doença que levou à morte o rei D. José I. Não podemos, contudo, esquecer que as paralisias começaram três dias após uma infeção cutânea acompanhada de febre, o que faz pensar numa meningoencefalite, ou num abcesso cerebral com localização bulbar.


Bibliografia
                   Dantas, Júlio. Dantas, Júlio. 1914. “O síndrome glosso labiado 
                   de D. José”, Academia das Sciências de Lisboa, Boletim da 
                   Segunda classe; Actos e pareceres, estudos, documentos 
                   notícias,  Volume VII, 1912-1913, pg 339-350, Coimbra: 
                   Imprensa da Universidade.

                   Haymaker, Webb. Bing`s local diagnosis in neurological diseases. 
                   1969. Saint Louis: The C. V. Mosby Company.

                   Merritt, Houston. A texbook of Neurology. 1973. Philadelphia: 
                   Lea & Febiger.