Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

 

    NEM DEUSES, NEM DEMÓNIOS

Retomando um tema que me é caro, volto a especular sobre os dois  primeiros grandes anatomistas: Leonardo da Vinci e André Vesálio. O trabalho que agora publico teve como pretexto o lançamento de nova edição do notável conjunto de pequenas biografias de Fernando Namora, reunidas sob o título "Deuses e Demónios da  Medicina".


      Fernando Namora foi, de longe, o mais ilustre dos escritores que integraram as direções da SOPEM (Sociedade Portuguesa de Escritores Médicos), depois chamada SOPEAM, por lhe terem sido oportunamente associados os médicos praticantes de outras formas de arte. O retrato que apresento é da autoria do meu amigo e companheiro da direção da SOPEAM, Júlio Pego.

    Celebrarei a nova edição de Deuses e Demónios da Medicina lembrando os dois maiores anatomistas da História Médica: André Vesálio, a quem Namora dedicou um capítulo do seu livro,

e outro a quem prestou menor atenção: Leonardo da Vinci.

      Da Vinci nasceu em 1452. Estava-se em plena Renascença. Tratou-se, como é sabido, de um período de avanços extraordinários no saber humano. As Artes e as Ciências progrediram mais ou menos a par, com as Artes quase sempre à frente. Enquanto a Pintura descobria a perspetiva, Nicolau Copérnico formulava a teoria heliocêntrica do Sistema solar e a Medicina ganhava os seus primeiros fundamentos científicos.

      O desenvolvimento da Medicina começou pela Anatomia, que precedeu os avanços da Fisiologia. Sabe-se que Mondino de Liuzzi, dissecou dois cadáveres de mulher na cidade de Bolonha e, em 1316, redigiu um pequeno tratado de anatomia. Mondino foi o precursor da moderna anatomia humana, antes mesmo de se desenvolver o processo do Renascimento. Nesta gravura é clara a relação de trabalho da época. Um cirurgião auxiliar praticava a dissecação, enquanto o mestre falava do alto da cátedra.

   Outros anatomistas, como Guido da Vigevano dissecaram cadáveres de enforcados. Berengário de Carpi (1460-1530)  e Giambattista Hanani (1515-1579) praticaram disseções sem a intervenção de um cirurgião auxiliar.

      Leonardo da Vinci não foi o primeiro pintor renascentista a interessar-se por conhecimentos anatómicos. Consta que, vinte anos mais cedo, o florentino Antonio del Poillaiuolo dissecou alguns cadáveres.


      Da Vinci aprendeu no estúdio do escultor e pintor florentino Andrea del Verrocchio, cuja obra mais conhecida é a estátua equestre do condottieri Bartolomeu Colleoni. Leonardo da Vinci realizou provavelmente a sua primeira dissecção humana em 1487. Nos trabalhos produzidos anteriormente, reconhece-se, por vezes, a anatomia animal adaptada às formas humanas. O artista sabia pouco latim, o que o limitava no aspeto cultural. Os primeiros estudos de Leonardo foram influenciados pelas ideias correntes no seu tempo. Terá dissecado cerca de 30 cadáveres humanos.


 O artista que pintou a Gioconda 

foi quem primeiro desenhou um esquema

realista da anatomia do corpo feminino.

       O  inventor  de  armas  de  fogo  de muitos canos que fazem lembrar os lançadores de foguetes GRAD ou Katiucha que os russos fabricam desde a II  guerra mundial
fez também correr a imaginação atrás do sonho de voar.
                                            
      Sou colecionador de armas e esta pistola é minha. Julgo que nunca teve condições para disparar. No entanto, a semelhança com o engenho militar que se vê no diapositivo anterior é notória.


       O pintor que retratou Ginevra d` Benci 

foi igualmente o primeiro anatomista que desenhou fetos humanos e os imaginou dentro dos úteros. 


    Já antes do Renascimento pintores e escultores valorizavam, acima de tudo, a representação da figura humana. É nessa perspetiva que se deve situar o interesse inicial de Leonardo da Vinci pelos estudos anatómicos. A obra de Leonardo, contudo foi muito para além da anatomia chamada artística, a anatomia superficial que estudava os músculos e os tendões cujos relevos se notam sob a pele e se modificam com os esforços e as posições. Os artistas procuravam também entender as transformações impostas pela idade e por algumas doenças. Ocupavam-se ainda da fisionomia, que tratava das expressões corporais induzidas pelas emoções.

      Arrastado por uma curiosidade insaciável, da Vinci mergulhou mais fundo na aprendizagem. O que começou por uma necessidade prática de conhecer o corpo humano para melhor o desenhar ou esculpir, depressa foi desviado para o esforço de compreender o funcionamento do nosso organismo.

      Mais fundo, cada vez mais fundo.

  O pintor pretendia compreender o funcionamento da máquina humana. Escrevia em italiano e em espelho, da direita para a esquerda. Os textos eram pobres, face à exatidão das imagens.

      Leonardo da Vinci mudou-se de Florença para Milão em 1481 ou 1482. Tinha quase trinta anos. Milão possuía um dos melhores centros médicos de Itália, o Ospedale Maggiore. A dissecção humana era permitida desde 1480 numa das suas secções, o Ospedale del Brolo. 

   Ocasionalmente, pintores como Leonardo associaram-se a médicos para entenderem melhor o que viam e desenhavam. Entre 1510 e 1511, da Vinci estabeleceu amizade com o médico Marcantonio della Torre, um jovem professor de Anatomia da Universidade de Pádua. Pádua dista 32 quilómetros de Milão.

      Da Vinci e della Torre produziram em conjunto um trabalho sobre anatomia, para o qual Leonardo contribuiu com duzentos desenhos. Era a maturidade do anatomista. Alegadamente influenciado por Marcantonio, em vez de interpretar o que observava à luz dos fracos conhecimentos de que dispunha, Leonardo passou a retratar com precisão os pormenores dos corpos humanos que dissecava. A parceria teve um fim precoce. Marcantonio della Torre foi ceifado pela peste em 1511, com cerca de 30 anos.

     Os grandes artistas eram sustentados por mecenas. Durante a sua segunda estadia em Milão, Da Vinci foi protegido pelo governador francês Charles d`Ambroise. D´Ambroise faleceu em 1513. No final desse ano, Leonardo aceitou a proteção do papa Leão X, e mudou-se para Roma com os seus discípulos. Realizou algumas dissecções humanas do Ospedale di Santo Spirito.

      Leonardo não se deu bem na corte pontifícia. Tinha ultrapassado os 60 anos. Por essa altura, Miguel Ângelo e Rafael eram mais solicitados do que ele para a feitura de obras de arte. Ocupou-se da drenagem dos pântanos de Pontino, a sul de Roma. Esta é uma vista cartográfica de Pontino e da costa norte de Terracina. Da Vinci foi também um excelente cartógrafo.  

     Leonardo efetuou as suas últimas dissecções em cadáveres humanos em 1514, o ano em que Vesálio nasceu. As condições em que o fez não acrescentaram o seu prestígio. Dedicava-se a experiências estranhas e foi acusado de práticas sacrílegas. Terá brincado com os cadáveres, insuflando-lhes ar nos intestinos. O papa Leão X proibiu a sua entrada no hospital do Espírito Santo. Terminava a carreira anatómica de Leonardo da Vinci.

      Estava-se em 1514. André Vesálio nasceu no último dia desse ano. Leão X morreu em março de 1516 e Leonardo aceitou o convite de Francisco I para a corte francesa. Trabalhou num projeto de canalização a sul do rio Loire e na planta de um palácio. Terá deixado de pintar, embora ainda produzisse alguns desenhos. Segundo António de Beatis, secretário do cardeal Luís de Aragão, seria um homem já envelhecido, com uma hemiparésia direita de predomínio braquial. Não foi referida disfasia. Leonardo tinha a ambição de publicar um tratado de anatomia, «em benefício da arte» e não da Medicina. Diz ter composto cento e vinte capítulos. Terá feito mais de 750 desenhos com anotações.



     Passemos agora para André Vesálio. Vesálio é o nome aportuguesado de Andries van Wesel, mais conhecido no mundo científico como Andreas Vesalius. Nasceu em Bruxelas a 31 de dezembro de 1514 e morreu na ilha de Zakinthos na Grécia, a 15 de outubro de 1564, quando regressava duma viagem à Terra Santa. É-lhe atribuída a fundação da Anatomia moderna. O seu pai, André também, era boticário do imperador Carlos V.

     Vesálio foi outro homem do Renascimento. Fez os primeiros estudos em Bruxelas. Em 1530 matriculou-se na Universidade de Lovaina (Leuven, na Bélgica) e em 1533 mudou-se para a Universidade de Paris, onde estudou com Jacobus Sylvius (Jacques Dubois em francês), um fiel de Galeno que ficou conhecido por atribuir nomes aos músculos, que até então eram designados por números, e que deixou o seu nome ligado ao aqueduto de Sylvius e à fenda sílvica, apesar de ambos terem sido já descritos anteriormente. 

      A guerra entre a França e o Sacro Império Romano obrigou Vesálio a regressar a Lovaina, onde, em 1537, aos 23 anos, recebeu o grau de bacharel em Medicina. No mesmo ano, viajou para Pádua, um dos centros universitários mais conhecidos da Europa. 

     A sua viagem foi seguramente negociada. Após um exame de dois dias, foi-lhe atribuído o grau de Doutor em Medicina. No dia seguinte, foi nomeado professor de Cirurgia e Anatomia.

      Vesálio revelou-se então como anatomista. Ao contrário do que era habitual, executava ele próprio as dissecações. Fez também as primeiras ilustrações, destinadas a facilitar o estudo aos seus alunos.

      O número de cadáveres disponíveis para dissecção era limitado. O prestígio do jovem professor universitário levou Marcantonio Contarini, juiz do tribunal de Pádua, a reservar-lhe os corpos dos criminosos condenados à pena capital, chegando a atrasar as execuções em benefício do anatomista. Não conheço outro juiz que tenha contribuído tanto para o progresso da Medicina.

      Dispondo de corpos humanos para estudar, Vesálio constatou cedo que Galeno descrevera a anatomia de porcos e de macacos e que os seus ensinamentos contradiziam com frequência o que era possível observar no corpo humano. Durante mais de mil anos, contestar Galeno constituíra um sacrilégio para os médicos. Vesálio fê-lo bem alto, primeiro em Pádua e depois em Bolonha.


      Aos poucos, André Vesálio foi publicando os seus trabalhos. Comparou as conceções terapêuticas de Galeno e do árabe Rhazes, expôs as próprias opiniões sobre a sangria, e dissertou sobre alguns aspetos de terapêutica médica. Em 1538, apresentou em Veneza as Tabulae anatomicae. Tratava-se de seis grandes desenhos anatómicos desenhados por ele próprio, com base nas suas dissecções. Destinavam-se a facilitar o estudo aos seus alunos e representavam as veias cava e porta, as artérias e o sistema nervoso. 

      O anatomista desenhava relativamente mal e dava conta da importância que as imagens tinham para a compreensão dos textos. Procurou e obteve a colaboração de artistas de qualidade. Terá ido buscá-los à oficina de Ticiano, em Veneza. As ilustrações não foram assinadas. Diz-se que as gravuras anatómicas da Fabrica foram desenhadas por Jan Stephen van Calcar, mas não existe consenso quanto a isso. 


    Por volta de 1538, Vesálio deu início à elaboração da obra mais importante da sua vida: De humani corporis fabrica. O título pode ser traduzido, de forma aproximada como «A estrutura do corpo humano».  

      Em 1543, imediatamente antes da publicação da Fabrica, Vesálio fez imprimir o Epitome, provavelmente uma das suas obras menos conhecidas. Tratava-se de um resumo da Fabrica, destinado aos seus alunos e preparado segundo uma conceção revolucionária de ensino.  A segunda parte do livro, escrito em latim, era composta por onze gravuras anatómicas com índices. O leitor era convidado a recortar as duas últimas e a colá-las nas anteriores, emprestando aos desenhos uma dinâmica até então desconhecida nas universidades. 


    A “Fabrica” foi impressa em Basileia, na tipografia de Joannes Oporinus, em 1543. Foi publicada num único volume e consta de sete «livros» ou capítulos que ilustram os diversos aspetos da anatomia humana. É escrita em latim e profusamente ilustrada com magníficas xilogravuras. São apresentadas 22 ilustrações grandes e 187 pequenas. Esta publicação marca, segundo alguns historiadores, o início da Medicina moderna.

    O primeiro capítulo trata da descrição dos ossos, enquanto o segundo ilustra os ligamentos e os músculos que asseguram os movimentos voluntários. O autor descreve ainda os processos de dissecção a que recorreu.

    Esta gravura é de Leonardo. Teria de ter semelhanças, pois os modelos eram quase idênticos. Foi, contudo, desenhada quatro décadas mais cedo.


      Estes dois «livros» apontam para vários erros de Galeno e constituem o que de melhor Vesálio conseguiu em matéria de exatidão. As gravuras são duma beleza difícil de ultrapassar. Serão também as ilustrações anatómicas mais famosas de todos os tempos.


     O terceiro «livro» trata do sistema circulatório. Nesta matéria, Vesálio não foi capaz de se libertar da influência de Galeno. A sua descrição dos ramos do arco aórtico parece inspirada na anatomia dos macacos. No entanto, há aqui avanços científicos: André Vesálio descreveu a veia mesentérica inferior e as veias hemorroidárias.

      O «livro» IV trata do sistema nervoso. Vesálio clarificou o significado da palavra «nervo» como estrutura capaz de conduzir sensações e movimentos, diferenciando-o de ligamento e de tendão. Aceitou, ainda assim, que a ação dos nervos residia na distribuição do «espírito animal» a partir do cérebro, como sugeria Galeno. As noções transmitidas pelo sábio greco-romano, que dividia os nervos cranianos em sete pares, estavam presentes no pensamento de todos os médicos da época e Vesálio não refutou este conceito, apesar de ter descrito parte do nervo troclear. Pôde, entretanto, constatar que o nervo óptico não era oco, como se supunha. Sem atingir o brilhantismo que demonstrou noutros capítulos, o anatomista fez algum avanço na descrição dos nervos espinhais.

      No «livro» V da Fabrica, André Vesálio descreve as vísceras abdominais, aproximando os órgãos da nutrição dos reprodutores. Aceitou a ideia de Galeno, segundo a qual o sangue era produzido no fígado, mas rejeitou a noção de que esta víscera era composta de sangue solidificado. Negou também que a veia cava se originasse no fígado e que este órgão se dividisse em múltiplos lobos, como afirmara Galeno, assentando em observações de animais. Rejeitou ainda a existência duma abertura direta das vias biliares para o estômago. Ao tratar dos órgãos da reprodução, André Vesálio refutou a ideia antiga do útero segmentado, proveniente de dissecções em animais. Curiosamente, a sua representação da vagina humana assemelha-se antes a um pénis. Estariam em causa ideias correntes sobre a suposta simetria dos géneros. Vesálio considerava que o útero e a vagina eram um só órgão e apelidou a vagina de «colo». Os ovários eram também chamados «testículos da mulher».

      Alguns anatomistas interessavam-se mais por determinados aspetos do corpo humano.  Por volta de 1510, Leonardo desenhou fetos humanos. Seria extraordinariamente difícil conseguir cadáveres de mulheres grávidas. O mais provável é que tenha dissecado embriões resultantes de abortos, projetando os seus achados para um período mais avançado da gestão.

      Leonardo da Vinci atreveu-se a desenhar uma cópula humana em corte aproximadamente sagital. Trata-se de uma compilação de ideias e de imagens, uma espécie de síntese do que Leonardo leu e observou. Será dos trabalhos de Leonardo da Vinci que contêm mais incorreções, mas não deixa de suscitar assombro. O útero é representado ligado à medula espinhal. Da Vinci inventou um canal que liga diretamente o coração aos testículos e outro que estabelece uma conexão entre o útero e as mamas. Curiosamente este trabalho, um dos mais imperfeitos do anatomista, foi dos primeiros a ser gravado em madeira e impresso.

                                 

      O «livro» VI da Fabrica trata dos órgãos torácicos. Vesálio achou a substância do coração parecida com a dos músculos, sem lhe atribuir essa qualidade por não dispor de movimentos voluntários. Considerou-o formado por duas câmaras ou ventrículos. A aurícula direita seria uma continuação das veias cavas e a esquerda faria parte da veia pulmonar. Vesálio não poderia encontrar no septo interventricular os inexistentes pequenos orifícios através dos quais, de acordo com Galeno, o sangue passaria do ventrículo direito para o esquerdo, mas não descortinou explicação melhor para a circulação sanguínea. O coração era geralmente considerado o local onde se situava a alma. Não a achando, o anatomista adotou uma atitude prudente e ambígua que lhe permitiu evitar a hostilidade do clero.

      
      Os últimos estudos anatómicos de Leonardo da Vinci foram dedicados ao coração. Leonardo desenhou as artérias coronárias e identificou as aurículas. Descreveu os movimentos de sístole e de diástole e compreendeu, antes de ninguém, o mecanismo de abertura e encerramento das válvulas do coração.

     O sétimo e último «livro» da Fabrica trata da anatomia do cérebro e expõe as fases da sua dissecção. Aborda ainda os órgãos dos sentidos.


      André Vesálio negou aos ventrículos cerebrais outra função que não fosse a drenagem de líquido. Recusou também a ideia de que a mente, ou espírito, pudesse ser dividida em faculdades separadas. Rematou o seu trabalho sobre o cérebro aconselhando os métodos a utilizar na sua dissecção.

     Reproduzo aqui uma ilustração de da Vinci da base do crânio. O artista desenha com exatidão as artérias meníngeas e mostra uma série de nervos cranianos. O quiasma ótico tinha sido já descrito por Mondino. Leonardo ilustra os olhos, os nervos ópticos, o quiasma, os nervos olfativos, o motor ocular comum, o motor ocular externo e as divisões oftálmica, maxilar superior e mandibular do trigémeo. Note-se que, dos nervos oculomotores, apenas o patético não é representado.

      Leonardo teve uma ideia simples para estudar os ventrículos: encheu-os com cera quente. Depois de arrefecida, removia o cérebro envolvente, obtendo um molde sólido do sistema ventricular. Veem-se aqui os ventrículos cerebrais, também observados de perfil, e a base do cérebro, com as meninges envolventes. Tudo isso era novidade na ciência médica.

 


      A Fabrica termina com um subcapítulo sobre a vivissecção.

     Nenhuma obra anatómica voltaria a obter tamanho êxito, nem modificaria tão profundamente os conceitos anteriores. A Fabrica representa, para alguns historiadores, o início da Medicina moderna. Quando a fez publicar, André Vesálio tinha 29 anos. Durante o resto da sua vida, o grande anatomista pouco mais produziu. 

      Vesálio deu conta precocemente dos erros que enfermavam a obra de Galeno. Claudio Galeno foi um grande médico e um grande cirurgião. Os seus seguidores, em vez de se inspirarem na sua capacidade de recolher informações por observação direta, fizeram dos seus ensinamentos «bíblia». As suas obras, traduzidas em hebraico e árabe e retraduzidas para latim, foram praticamente incontestadas durante os treze séculos que decorreram entre a sua morte e o nascimento de Vesálio. Para que se desse a evolução nos conhecimentos médicos, era necessário romper com o passado. Tornava-se indispensável criticar Galeno. Era tempo de substituir os dados (tantas vezes falsos), recolhidos das dissecações de animais diversos, pelo estudo direto da anatomia humana. André Vesálio descreveu estruturas antes desconhecidas e corrigiu erros assumidos como verdades havia séculos. Era o espírito científico a desabrochar. Enganou-se algumas vezes, como seria natural. As suas imperfeições seriam progressivamente corrigidas pelos anatomistas que se lhe seguiram.

      O sucesso extraordinário da obra de Vesálio teve uma consequência nefasta: O anatomista, tornado famoso, foi contratado como médico do Imperador Carlos V e da sua família e abandonou a investigação. Tinha 32 anos.

     Foi cirurgião militar nas guerras do imperador. Trabalhou como médico durante a batalha naval de Lepanto e tratou Miguel Cervantes, ferido no combate contra os turcos. O seu treino de minúcia nos trabalhos anatómicos adaptava-se mal à necessidade de rapidez das intervenções executadas antes da descoberta da anestesia. Ainda assim, Vesálio introduziu na literatura médica a drenagem cirúrgica dos empiemas, ganhando fama também como cirurgião.

     O maior contributo de André Vesálio para o desenvolvimento da Medicina reside provavelmente na generalização da ideia de que os cirurgiões deviam ter um conhecimento aprofundado da anatomia humana, o que só poderia ser conseguido se praticarem dissecções em cadáveres.

 

    Morto Carlos V, Vesálio foi, de certo modo despromovido por seu filho e sucessor, Filipe II de Espanha (e primeiro de Portugal). Foi encarregado de tratar os holandeses da corte. Não se sabe muito acerca deste período de vida de André Vesálio e sobre as circunstâncias que precederam a sua viagem de à Terra Santa. Na falta de informações, sobram as conjeturas. Poderá ter sido acusado de heresia pela Inquisição espanhola, ao tempo muito ativa. Há quem diga que praticou (inadvertidamente ou não) uma vivissecção num humano (tinha já sido acusado anteriormente de crime semelhante). Outros sugerem que a peregrinação a Jerusalém constituiu uma maneira diplomática de o fazer sair da corte espanhola.

   Tão pouco sabermos se pretendia regressar. Certo é que partiu em 1564. Passou por Itália, onde terá sido convidado para regressar ao ensino na Universidade de Pádua. Embarcou em março desse ano para a Palestina, com escala em Chipre. Em data imprecisa, empreendeu a viagem de regresso. 

    O navio em que seguia enfrentou uma tempestade violenta. Vesálio chegou em outubro, doente e debilitado, à ilha de Zakinthos ( também chamada Zante) no mar Jónico, onde acabaria por morrer. Não é conhecido o local onde foi enterrado. André Vesálio tinha 50 anos. Ao menos, morreu num lugar bonito.


 

     O grande mérito de André Vesálio foi ter libertado o ensino da anatomia dos escritos de Galeno que haviam dominado a Medicina durante bem mais de um milénio. O seu trabalho verdadeiramente científico interrompeu-se 18 anos antes da sua morte. Em Pádua, Vesálio teve seguidores de mérito: Realdo Colombo (com quem Miguel Ângelo projetou elaborar um atlas de anatomia), Gabriel Fallopio, Fabricio d`Acquapendente e Bartolomeo Eustáquio. Deixo aqui uma gravura que representa Fallopio. Aos progressos da Anatomia seguiram-se, lenta e progressivamente, os da Fisiologia. Aos poucos, foi-se entendendo o funcionamento da Fabrica humana.


       Como vimos, a obra anatómica de André Vesálio teve um impacto decisivo na História da Medicina.  No entanto, o trabalho revolucionário de Leonardo da Vinci, produzido   três   décadas   antes  do  nascimento   de  Vesálio  pouco  ou  nada acrescentou à Ciência Médica. Vejamos por quê.

     Da Vinci morreu em 1519. Deixou os desenhos ao seu discípulo e herdeiro Francesco Melzi. Após a morte de Melzi, ocorrida por volta de 1570, a maior parte da coleção foi adquirida pelo escultor Pompeo Leoni, que levou alguns volumes de desenhos para Madrid. 

     Morto Leoni, em 1609, um desses volumes foi comprado por Thomas Howard, conde de Arundel, e foi ter à Biblioteca Real do Castelo de Windsor, que conserva a maior coleção de desenhos de Leonardo da Vinci existente no mundo. O que chegou até nós apenas foi divulgado no começo do sec. XX.

    Infelizmente, grande parte do seu trabalho científico perdeu-se. Outra parte seria publicada apenas século e meio após a sua morte e ainda assim integrada no Trattato della Pittura. Por ironia do destino, o primeiro grande anatomista pouco ou em nada influenciou o saber médico.

     O que é é. A História não se muda. A grandeza do espírito de Leonardo da Vinci é reconhecida há mais de cinco séculos, mesmo amputada de parte considerável da sua obra.  No entanto, o valor dos trabalhos anatómicos é tão elevado que bastaria para lhe garantir um, lugar imorredouro na História da Humanidade, mesmo que Leonardo nada mais tivesse produzido em toda a vida. 





terça-feira, 19 de janeiro de 2021

 

           LIÇÕES DA HISTÓRIA

 

    Ando a melhorar o texto de uma palestra que proferi há cerca de ano e meio na Biblioteca da Ordem dos Médicos, em Lisboa, por ocasião do centenário da Gripe Pneumónica. A intenção é publicá-la, integrada num conjunto de trabalhos sobre História da Medicina que a Doutora Maria do Sameiro Barroso está a organizar.

   Como tinha de ser, ocupei-me a rever a bibliografia.

   Ontem, voltei a ler o artigo “Revisitar a pneumónica de 1918-1919”, publicado em 2018 por Laurinda Abreu e José Vicente Simões. Dada a relevância do conteúdo, cito aqui uma pequena parte, com a devida vénia aos autores.

Durante a Pneumónica, Portugal terá registado uma das maiores taxas de mortalidade na Europa (entre 9,8 e 22 por 1000 habitantes, consoante as diferentes estimativas), sendo este um dos indicadores que, obviamente, deve suscitar mais reflexão. A figura central do combate à epidemia de 1918 em Portugal foi, como bem se sabe, o diretor-geral de Saúde, Ricardo Jorge. Sendo conhecido o seu pensamento, não seria expectável que defendesse o encerramento das fronteiras e a instalação de lazaretos para organização de quarentenas. Tal como já tinha acontecido aquando do surto de peste que atingiu o Porto em 1899, Ricardo Jorge optou pelo isolamento dos doentes e por recomendações higiénicas e dietéticas. A questão fulcral é perceber porque terá sido tão grande o desaire demográfico português quando comparado com outros países que aplicaram disposições similares.

             

                                       
   Ricardo Jorge


Quando se compara a reação governamental à crise de 1918 com a atuação perante as epidemias de cólera de 1884 e 1885, que fizeram pesadas baixas em Espanha e noutros países europeus e deixaram praticamente incólume Portugal, verifica-se uma mudança substancial de estratégia política. No primeiro caso, o governo de Fontes Pereira de Melo, ciente da debilidade do país e das suas próprias limitações em termos de saúde pública, agiu por antecipação e impôs um rígido controlo das fronteiras, marítimas e terrestres, e da mobilidade de pessoas e mercadorias, substituindo o saber médico pelo poder das armas dos militares. Em 1918, diferentemente, Portugal colocou-se ao lado dos países tidos como mais desenvolvidos e, como eles, procurou agir em função dos mais recentes conhecimentos médicos e preceitos higienistas – uma opção de política de saúde pública que, a avaliar pelos resultados, não foi porventura a mais adequada às circunstâncias do país.


                                   Fontes Pereira de Melo

É assombroso constatar o modo como, por vezes, a História se repete e o seu conhecimento nos dá lições preciosas. Atravessamos dias negros, com algumas das piores taxas de morbilidade e mortalidade da Europa e mesmo do mundo. A resposta do governo português à pandemia de COVID 19 terá de ser bem menos tíbia. Já morreu gente demais.

 

Etiquetas: Confinamento, Contenção da pandemia, COVID 19, Fontes Pereira de Melo., Gripe Pneumónica, Ricardo Jorge






segunda-feira, 6 de julho de 2020



OS MÉDICOS DA PESTE


No começo da Idade Moderna, na Europa, já se reconhecia empiricamente a importância de proteger o nariz, a boca e os olhos contra as infeções. Assim, para se defenderem dos miasmas supostamente existentes no ar fétido, alguns médicos usavam máscaras inspiradas em bicos de aves. No seu interior eram colocadas substâncias aromáticas. O lugar dos olhos era preenchido com lentes de vidro.


É curiosa a associação das substâncias com bom cheiro à ação desinfetante. A ideia poderá ter nascido do contraste com o cheiro pútrido da matéria orgânica em decomposição. Usavam-se, entre outras substâncias, a hortelã, a cânfora e a mirra. A palha servia de filtro para o ar contaminado.
O traje era completo, com botas, luvas, blusa e chapéu, geralmente em couro de cabra. Cobriam-se com um sobretudo de pano grosso.










A sua utilização reduziu-se no século XVIII. As máscaras cirúrgicas dos nossos dias tiveram origem quando se começou a desenvolver a bacteriologia.
Existiram médicos da peste um pouco em toda a Europa. Foram conhecidos, pelo menos na Itália, na Holanda, na Espanha e na França.
Eram contratados pelas cidades atingidas pelas epidemias e deveriam tratar ricos e pobres. Os seus serviços eram considerados valiosos e valeram-lhes alguns privilégios, como o de praticar autópsias, proibidas em muitos países. Como seria de esperar, alguns contraíam a doença no exercício da profissão e acabavam por falecer.
Os médicos da peste usavam bastões para poderem examinar os doentes sem os tocar. Uma das suas obrigações consistia em proceder ao registo dos vitimados pela praga. Em muitos casos, foram testemunhas das últimas vontades e, frequentemente, testamenteiros.
Os métodos terapêuticos eram os da época: praticavam sangrias e colocavam sanguessugas nas adenopatias. Muitas vezes as suas funções obrigavam-nos à quarentena.
Embora o cargo tenha sido desempenhado por nomes sonantes da História da Medicina, de modo geral, esses clínicos eram considerados médicos de segunda categoria. Na França e na Holanda, não dispunham mesmo de qualquer formação médica.
Quase todas as regras conhecem exceções.
Guy de Chauliac, médico do papa Clemente VI, foi dos primeiros clínicos a investigar a doença. Acabou por morrer dela.


   Guy de Chauliac praticando a autópsia de o corpo dum falecido com peste negra.


O famoso Nostradamus deu conselhos interessantes para combater a peste: os cadáveres deveriam ser removidos rapidamente e convinha respirar ar puro e beber água limpa. Nostradamus opôs-se à sangria dos pestiferados. 
Paracelso e Ambroise Paré desempenharam também as funções de médicos da peste. 




segunda-feira, 4 de maio de 2020


MARCOS NO CAMINHO




    O número de visitantes do conjunto dos meus dois blogues (este e o historinhasda medicina) ultrapassou hoje os 200.000.
     O historinhasdamedicina tem crescido mais do que o decaedela. É consultado por gente de muitos países, com realce para o Brasil e Estados Unidos da América. Os visitantes portugueses estão em minoria.
     Durante algum tempo, pensei que esses leitores distantes eram elementos da Diáspora portuguesa. 
     Aos poucos, fui-me convencendo de que se trata, em muitos casos,  de estudantes de História da Medicina que recorrem à tradução automática. 

     Saúdo os leitores!

terça-feira, 21 de abril de 2020



 LIBERDADE

V

 O MEU 25 DE ABRIL

      Volto aqui a apresentar um artigo que publiquei neste blogue em junho de 2011.


                        O MEU 25 DE ABRIL


A 25 de Abril de 1974, levantei-me cedo. A  minha mulher tinha uma visita de estudo marcada para Coimbra e tencionava levar com ela a nossa filha mais velha. A Cláudia, que era mais nova, foi comigo para S. José. 
Cheguei ao hospital por volta das oito e meia. Estranhei ver tantos carros de colegas estacionados junto ao Serviço 10. Quando entrei na sala dos médicos, já lá estava muita gente.
- Não sabes o que se está a passar? - perguntou-me o Ventura.
Eu não tinha ligado o rádio. Disse que não.
- Está a decorrer uma rebelião militar contra o governo. Os revoltosos intitulam-se Movimento das Forças Armadas. Dizem que estão a conseguir tomar conta dos pontos estratégicos de Lisboa.
Seguimos durante alguns minutos as notícias da rádio. A situação parecia indefinida. Eu e o Carlos Durão Maurício tínhamos operações marcadas para essa manhã. Resolvemos deixar uma das marquesas do bloco vaga para uma urgência eventual e fomos trabalhar na outra. A Cláudia ficou entregue às enfermeiras.
Quando acabámos de operar, eram horas do almoço. Ouvimos as notícias. O Movimento das Forças Armadas progredia no terreno. Não tinha dado entrada no Banco de S. José qualquer ferido de guerra.
Como não sabia como estava o caminho, aceitei o convite do Maurício para almoçar em casa dele.
Havia perto um quartel da Guarda Republicana e a situação continuava tensa. Enquanto o Maurício estacionava o automóvel, toquei à campainha. A Marilda perguntou, pelo intercomunicador:
- Quem é?
Perdi uma ocasião magnífica de parecer sensato. Respondi, com voz grossa:
- É a PIDE!
Quando subi ao terceiro andar, arrependi-me da piada. A esposa do meu colega e amigo tinha perdido o controlo dos nervos e estava lavada em lágrimas. Não teria grande coisa a recear da Polícia Política, mas aquele não era um dia como os outros e as pessoas andavam nervosas.


Tentei telefonar para casa, sem êxito. Não sabia da minha mulher e da minha filha mais velha, nem elas de nós. Após um almoço improvisado mas agradável, meti-me no carro e conduzi até perto da ponte sobre o Tejo, para me inteirar das condições de trânsito. O percurso estava livre. Fui buscar a Cláudia e regressei a casa. A viagem foi normal. Parecia nada estar a acontecer no País. 
A São e a Marisa nem tinham chegado a sair de Setúbal. Chegara a notícia do levantamento militar e a visita de estudo fora cancelada.
Acho que, para compensar a gaffe do fim da manhã, me portei bem durante o resto do dia. A perspectiva da queda do velho Estado Novo entusiasmava quase toda a gente. No entanto, em vez de ficar especado em frente à televisão, que era o que me apetecia, cumpri o meu dever e fui trabalhar.Tinha umas tantas visitas domiciliárias a doentes da Caixa de Previdência à minha espera. A festa foi adiada algumas horas.


segunda-feira, 20 de abril de 2020





DEUSA COBRA





Adquiri há algum tempo e contra a opinião da minha mulher uma escultura em pedra − julgo que se trata de calcário − a um antiquário alentejano. Tem dois palmos de altura por três de largo e é bastante pesada. Foi com esforço que eu e o vendedor a introduzimos no porta-bagagem do automóvel.
Nunca tive uma peça tão bela e não voltarei a ter outra assim. É uma deusa serpente. Tem uma cabeça de mulher e outra de cobra. Raras pessoas terão tido o privilégio de admirar coisa parecida.
 Ao longo dos meses, conforme o tempo disponível, vasculhei a Internet à procura de informação. A bibliografia sobre deusas serpentes na Península Ibérica é abundante, mas não encontrei qualquer imagem de escultura igual ou semelhante.
Os gregos antigos chamavam à Península Ibérica Ofiusa, terra de serpentes. Em Portugal e em Espanha, abundam as lendas sobre cobras, dragões e mouras. Estas mouras (de que são bem conhecidas lendas em Mértola e em Palmela) têm muitas vezes formas híbridas, metade mulher e metade serpente e estão habitualmente relacionadas com a água (fontes e cavernas). Melusina é outra figura conhecida nas lendas europeias. Trata-se de um espírito feminino também híbrido que habita na vizinhança de rios e fontes sagradas.
Julga-se que aos habitantes originais da Península Ibérica se foram juntando, entre o oitavo e o sexto século antes de Cristo, povos indo-europeus de origem celta, conhecedores da metalurgia do ferro. Os celtas trouxeram para cá o seu panteão de deuses, incluindo nele o culto da serpente. No entanto, a serpente era já um mito pan-mediterrâneo. Tratou-se, assim, de uma reinoculação. O culto celta da serpente misturou-se provavelmente com outros rituais há muito estabelecidos na Península.
A serpente é olhada de modos diferentes nas lendas antigas. Representa, em alguns casos a evolução cíclica da Natureza. Trata-se de um animal que aparece e desaparece e que muda de pele. Oculta-se na terra durante o tempo frio, para regressar na primavera. Torna-se um símbolo da morte, antes de se associar à ideia de ressurreição. Será por isso a insígnia da Medicina.
É muitas vezes considerada um símbolo de fecundidade. Tanto é vista como uma figura benéfica (traduzindo eventualmente o culto residual da Deusa Mãe) como é apresentada como representação do diabo, na tradição judaico-cristã. Nas mitologias europeias chega a ocupar o lugar de um deus polivalente. Umas vezes reina sobre o mundo subterrâneo, o lugar dos mortos. Outras, superintende à música e à magia. Noutros locais, ajuda a cuidar do gado e a preservar a saúde.
                                                                         




RELÍQUIAS RADIOLÓGICAS


Material usado nos Capuchos para Neurorradiologia


A quarentena deu tempo para arrumar a garagem. Encontrei estas relíquias. Foram registadas no Serviço de Neurocirurgia do Hospital dos Capuchos, em Lisboa, na década de 60.


                   Aneurismas gigantes


                                        M.A.V.?
Quando entrei para o Internato de Neurocirurgia em julho de 1973, para fazer carreira na Especialidade era necessário, para além das habituais qualidades cirúrgicas, ter jeito para puncionar carótidas.                                                                                         
             Trombose da artéria carótida interna
A instauração da Neurorradiologia, com o trabalho pioneiro do meu amigo Costa Reis, iria tardar alguns anos.



                Selas turcas alargadas por adenomas
Tal como os outros neurocirurgiões da época, executei um número considerável de exames radiológicos.
Estimo o total em cerca de um milhar. Deixei de os registar em 1977, quando já passavam dos 600. Predominavam as angiografias carotídeas, seguidos das mielografias. Executei algumas 50 encefalografias gasosas e um número mais reduzido de ventriculografias e de angiografias da vertebral por punção direta.

Fase arterial




                                      Fase venosa                                                            
 As angiografias vertebrais surgiam por vezes inadvertidamente, quando se procurava puncionar a carótida comum. No entanto, detínhamos muito treino  e lembro-me de ter conseguido obter algumas intencionalmente.
Nós não fazíamos as ventriculografias com ar, mas com contraste positivo




 Era preciso processar as imagens. Julgo que nenhum destes estabelecimentos existe atualmente.



As imagens apresentadas são do tempo dos doutores Moradas Ferreira,  Cunha e Sá, César Freire de Andrade, Alvaro Athaíde e Vasconcelos Marques. Tive o privilégio de trabalhar, durante alguns anos, com os dois últimos.
Algumas películas têm manuscrito nos invólucros o nome dos doentes e os serviços onde estavam internados, mas não sou capaz de identificar as caligrafias.