Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

 





  BANHA DE COBRA E TERIAGA




O cirurgião Joaquim Barradas apresentou recentemente o seu terceiro livro. Chamou-lhe Banha de Cobra e Teriaga.

Em centena e meia de páginas passou em revista toda a História da Medicina ocidental.

A escrita é elegante e as opiniões expressas são cuidadosamente fundamentadas. O livro é de leitura fácil e agradável.

A Teriaga remonta ao tempo de Mitrídates e às guerras do Ponto. Incluía mais de meia centena de componentes e terá sido utilizada inicialmente como antídoto para os venenos comuns.  Julgava-se que o efeito final seria superior ao somatório das virtudes de todos os produtos simples que a integravam.

Depressa passou a ser usado como medicamento capaz de combater quase toda a espécie de doenças. Houve quem julgasse que estava ali a panaceia universal. Seria boa para o tratamento das doenças contagiosas, peste, febres malignas, bexigas, mordeduras de animais venenosos, cólica ventosa, paralisias, epilepsia, apoplexia, letargo e ainda para doenças mentais.

Incluía, entre os seus componentes principais, o ópio e a carne de cobra.

É sabido que as serpentes possuem uma quantidade diminuta de gordura. O termo “Banha da Cobra” deriva dos excipientes gordos que os preparadores lhe incorporavam.

Galeno, médico grego instalado em Roma, foi, para o bem e para o mal, uma das personagens que mais influenciaram as Medicinas árabe e europeia. Descreveu em pormenor o método de preparação da carne de cobra, de forma a poder ser incluída na Teriaga.

A Teriaga foi largamente utilizada em toda a Europa até ao final do século XVIII, tendo o seu uso persistido em alguns países no início do século XIX. Foi o médico britânico William Heberden quem, em 1745, publicou um pequeno opúsculo em que questionava a validade do efeito terapêutico da Teriaga. A publicação teve eco na Inglaterra, primeiro país em que a Teriaga deixou de ser usada. Tinha reinado entre os medicamentos administrados a humanos durante dois milénios.

O autor termina o livro com reflexões sobre a validade do conhecimento científico. No seu entender, a verdade é quase sempre provisória e os avanços registados por cada geração de investigadores tendem muitas vezes a pôr em causa as ideias dominantes em épocas anteriores.


sexta-feira, 28 de abril de 2023

 


MARCOS NO CAMINHO 

 

No conjunto, os meus blogues “decaedela” e “historinhasdamedicina” ultrapassaram há dias o quarto de milhão de leitores. A efeméride teria de ser assinalada.

O número de visitas do “historinhasdamedicina” é ligeiramente superior ao registado pelo “decaedela”, embora este seja mais antigo e tenha mais artigos publicados (501 contra 186 de temas médicos históricos).

As nacionalidades dos visitantes diferem consideravelmente de blogue para blogue. No “decaedela” predominam os leitores de Portugal, com 38% das visitas, seguidos de perto pelos Estados Unidos da América. A Holanda vem em terceiro lugar.

No “historinhasdamedicina”, o Brasil figura em primeiro lugar, ligeiramente à frente de Portugal. Seguem-se os E.U.A. e a Rússia. 

Estou em crer que a diáspora dos portugueses apenas em parte explica a origem geográfica dos leitores. Julgo que um número considerável recorre à tradução automática.

Curiosamente, para além do Brasil, o único país lusófono referido como ponto de origem dos meus leitores é Cabo Verde.


quinta-feira, 27 de abril de 2023

 

NOTAS SOBRE A MALÁRIA

A malária tem muitos nomes. Além de lhe chamarem febre terçã e quartã, é também conhecida por paludismo, impaludismo, sezões e maleitas. Tem sido ainda designada por febre dos pântanos, febre dos charcos, febre telúrica, febre perniciosa, maleita, intoxicação palustre, febre palustre ou palúdica e febre da quinquina, entre outras designações menos comuns.

A doença aflige macacos e aves desde a Criação, ou perto disso. Os conhecimentos atuais localizam-na no nosso planeta milhões de anos antes da existência do homem.  Embora a sua prevalência tenha estado geralmente associada a regiões de clima tropical, subtropical e temperado, propagou-se mesmo para norte do Círculo Polar Ártico.  Países tão distanciados como a Rússia, a Índia e os Estados Unidos da América, foram atacados pelo mal.  

O paludismo constituiu um flagelo na Grécia Antiga. O estabelecimento da agricultura na Grécia, cerca de 7.000 anos antes de Cristo, facilitou a difusão da doença, posteriormente exportada para a bacia mediterrânica.  Terá ceifado as vidas de Homero e de Hipócrates. Foi o médico de Cós (c. 460 - c. 370 a.C.) quem primeiro descreveu claramente a enfermidade e a relacionou com os miasmas gerados nos pântanos.



Séculos mais tarde, a malária debilitou os exércitos romanos e terá contribuído para o declínio do seu império.

A malária é associada há muito à permanência em regiões pantanosas. A sua associação com charcos e terrenos alagados levou diversos chefes militares a desviar o percurso das suas tropas em campanha.

Foi atribuída aos “miasmas”, vapores malignos ou partículas invisíveis transmitidas pelo ar danoso resultante da putrefação da matéria vegetal presente no solo das zonas pantanosas.

A associação entre as febres e os mosquitos, abundantes nos locais pantanosos, foi sugerida de tempos a tempos, sem nunca ter chegado a ter grande aceitação entre a comunidade médica. No século XVII, o médico italiano Giovanni Maria Lancisi apontou o dedo aos mosquitos como possíveis responsáveis das febres palustres.  

A prevalência do paludismo nas regiões tropicais foi um dos grandes obstáculos com que a colonização europeia se defrontou. No caso angolano, a cidade de Benguela, que detinha um prestígio antigo por ter o nome ligado ao reino independente do mesmo nome, foi transferida pelos portugueses, em 1617, das vizinhanças de Porto Amboim para a Baía das Vacas onde se situa atualmente. A deslocação para sul foi superior a 270 quilómetros. A razão da mudança assentou na insalubridade do local onde seriam muitas as mortes dos colonos portugueses. Pouco se ganhou com a mudança. A nova Benguela foi construída noutra região pantanosa e continuou a ser conhecida como “cemitério de brancos”. No ano de 1850 o número de habitantes europeus da povoação mal chegava a meia centena.

Para além do seu impacto socioeconómico e do imenso problema de saúde pública que representava, a malária despertava a curiosidade dos médicos, os quais tiveram, durante milhares de anos, dificuldade em entendê-la. Ao processo enigmático de transmissão, aliava-se a sua possível ligação com a febre biliosa e a febre perniciosa.

O microscópio fora inventado no final do século XVI e desenvolvido nas décadas seguintes. No entanto, a transmissão da malaria através de mosquitos infetados com plasmódios teria de esperar pelo início do século XX para ser conhecida.

Foram os escravos africanos que levaram o paludismo para a América. Constituindo novidade para os sistemas imunitários dos habitantes locais, propagou-se rapidamente, atingindo em alguns locais proporções alarmantes.  


sexta-feira, 24 de março de 2023

                                                 
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segunda-feira, 20 de março de 2023

 



HARVEY CUSHING


Como diversas outras especialidades, a Neurocirurgia nasceu da Cirurgia Geral. Aos poucos, alguns cirurgiões foram-se interessando pela Neurologia e pela Neurofisiologia.

Os vestígios arqueológicos da cirurgia craniana são antigos. Outros ossos terão sido operados. Desconheço-os, e estariam fora do âmbito deste artigo. Eventuais cirurgias a partes moles do nosso organismo terão sido apagadas muito cedo pela decomposição dos órgãos. 

 


Tive ocasião de observar no Museu Geológico de Lisboa alguns crânios humanos recolhidos em território nacional e trepanados durante o Período Neolítico. No museu da Lourinhã está preservado um osso parietal trepanado em que a formação de “calo” ósseo demonstra que o paciente sobreviveu ao ato cirúrgico. Ocorreram no nosso País outros achados semelhantes, nomeadamente na gruta da Galinha, perto de Alcanena.

Encontraram-se crânios trepanados por povos primitivos de todos os continentes, ainda que, na Ásia, os achados sejam raros. O período neolítico (c.10.000 a c. 3.000 a.C.) é também designado por Idade da Pedra Polida. Segue-se ao nomadismo do Paleolítico. O homem torna-se sedentário. Aprende a cultivar a terra e domestica alguns animais. Ao mesmo tempo que aperfeiçoa as suas técnicas, desenvolve também preocupações religiosas e culturais. Levanta estruturas megalíticas, das quais a mais conhecida entre nós é o Cromeleque dos Almendres, situado perto de Évora. Torna-se mais aparente o culto dos mortos. Nascem cemitérios monumentais, como os dólmenes ou antas.

É por essa altura que têm início as trepanações cranianas. No entanto, o papiro de Edwin Smith (datado do século 17 a.C.) descreve já a superfície do cérebro, as suas pulsações, o líquido cefalorraquidiano, as meninges e as suturas cranianas.

Mais do que uma época cronológica, o Neolítico é uma fase de cultura e não ocorre simultaneamente em toda a parte. Na Europa, entrou pela Península Ibérica, quando povos do Médio Oriente se foram ali estabelecendo. Tanto quanto se sabe, nenhum crânio pré-histórico trepanado na França, Suíça, Bélgica e Países Baixos é anterior aos dos exemplares ibéricos. Todos os achados peninsulares de crânios trepanados podem ser datados entre 2.000 e 1.400 A.C. Os operadores usavam instrumentos de material duro, como o sílex, para efetuar aberturas nos ossos da calota craniana. As craniectomias, circulares ou ovais, eram levadas a cabo por uma técnica de raspagem. A maioria das trepanações tinha diâmetros de 30 a 45 milímetros. Menos frequentemente, nas civilizações peruanas pré-Incas, pequenos orifícios de trépano eram ligados para levantar um retalho ósseo.

O trépano já existia no tempo de Hipócrates. O cirurgião rodava-o repetidamente num sentido ou noutro fazendo deslizar as palmas das mãos. Registaram-se igualmente vestígios de trepanações em cadáveres. Pretendia-se, nestes casos, obter amuletos ósseos que afastassem os espíritos maus.

As aberturas resultantes da trepanação tendem a curar com formação de tecido ósseo novo. A maioria dos doentes escapava à morte. Estudos feitos no Peru puderam concluir que 62,5% dos doentes ou vítimas viviam o suficiente para desenvolver “calo” ósseo.

As motivações para estes procedimentos eram variadas.  No passado, seria difícil traçar uma linha que separasse claramente a Medicina da Magia. Algumas das razões para a cirurgia são matéria de especulação, embora seja possível estabelecer paralelos com as motivações detetadas em povos que a praticaram até épocas relativamente recentes. Várias afeções cranianas eram atribuídas à entrada de demónios. Um orifício na cabeça proporcionava-lhes uma porta de saída. A epilepsia, “o mal sagrado”, terá sido responsável por muitas tentativas de tratamento. Em Portugal, a primeira intervenção neurocirúrgica documentada data de 1710. Destinou-se a tratar uma fratura do crânio com afundamento.

A partir de 1861, com o trabalho do médico francês Pierre Broca, nasceu o conceito do posicionamento específico de determinadas funções cerebrais. Broca operou um abcesso cerebral que localizou com base em conhecimentos clínicos.

Como aconteceu nas outras especialidades cirúrgicas, a melhoria dos resultados operatórios acompanhou o progresso da anestesia, da antissepsia e da assepsia.

Antes da emergência das modernas técnicas diagnósticas, ocorreu uma época em que os neurologistas diagnosticavam as afeções do Sistema Nervoso Central, limitando-se os cirurgiões aos atos operatórios.

William Macewen (1848-1924), de Glasgow, foi o primeiro cirurgião a remover com sucesso um tumor cerebral. Estava-se em 1878. O diagnóstico do local da lesão baseou-se apenas nas características da fase inicial das crises epiléticas. Tratava-se de um meningioma frontal.  Foi totalmente removido e a doente sobreviveu.  O cirurgião inglês Victor Horsley (1857-1916), em 1886, foi o primeiro a remover com sucesso um tumor medular. Executou com êxito diversas outras intervenções neurocirúrgicas.

No final do século XIX e no começo do XX, desenvolveram-se diversas técnicas diagnósticas que permitiram localizações topográficas mais exatas. Foi o caso da encefalografia gasosa e da ventriculografia. Sicard e Forestier, em 1921, introduziram no arsenal radiológico a mielografia com lipiodol. Egas Moniz divulgou os primeiros resultados da angiografia cerebral em 1927. Depois, durante algum tempo, tudo pareceu progredir mais devagar. 

Quando, há cinco décadas, ingressei no Internato de Neurocirurgia no Hospital de S. José, ainda não havia neurorradiologistas em Lisboa. Eram os neurocirurgiões que executavam esses exames. Pessoalmente, terei feito cerca de um milhar. Tratou-se, na maioria dos casos, de angiografias por punção direta das carótidas. A Tomo Densitometria chegaria logo a seguir. A Ressonância Magnética Nuclear iria demorar alguns anos mais.

As especificidades da cirurgia cerebral ajudam a compreender a modéstia dos resultados operatórios dos pioneiros. Horsley registou taxas de mortalidade que rondavam os 22 por cento, enquanto outros cirurgiões relatavam mortalidades de 35 e mesmo de 50 e 65 por cento.

Os maus resultados fizeram esmorecer o entusiasmo dos cirurgiões pelas intervenções sobre o cérebro. No começo do século XX, a Neurocirurgia adquirira uma péssima reputação. A situação seria revertida pelo trabalho de dois neurocirurgiões extraordinários: Harvey Cushing e Walter Dandy.

                              

                   Harvey Cushing em 1938

O médico que mais contribuiu para desenvolver a Neurocirurgia até que ela fosse reconhecida como uma especialidade autónoma e indispensável foi o americano Harvey Cushing (1869-1939).

Cushing desenvolveu as técnicas de controlo da hemorragia, mediante o recurso à compressão do escalpe, à aplicação de cera nas zonas de corte ósseo e à introdução do uso de clips hemostáticos e de termocoagulação. Por volts de 1915, nas suas mãos, a mortalidade operatória dos tumores cerebrais descera para 8,4 por cento. Introduziu também os registos da tensão arterial durante a cirurgia.

Harvey Cushing trabalhou no hospital Johns Hopkins de Baltimore, antes de se transferir para o hospital Peter Bent Brigham em Boston. Deve-se-lhe a sistematização das técnicas cirúrgicas e o treino de diversos jovens neurocirurgiões. 

Um dos seus discípulos no Johns Hopkins foi Walter Dandy (1886-1946). Viria a ter um papel de grande relevo no desenvolvimento da Neurocirurgia.

Dandy será sempre lembrado, a par de Cushing. Quando era ainda interno da especialidade, estabeleceu (juntamente com Kenneth Blackfan) o conceito moderno de hidrocefalia, abrindo caminho para o seu tratamento cirúrgico. O seu arrojo permitiu-lhe praticar em seguida a ablação dos plexos coroideus, a ventriculostomia do III ventrículo e a cateterização do Aqueduto de Sylvius. Outros cirurgiões criaram uma grande variedade de processos suscetíveis de drenar o líquido cefalorraquidiano acumulado em excesso nos ventrículos cerebrais ou no espaço subaracnoideu para onde a imaginação os conduzia. Como seria de esperar, destes procedimentos sobreviveram os mais seguros e eficazes. 

Walter Dandy introduziu na Imagiologia a ventriculografia e a encefalografia gasosa, a primeira por injeção direta nos ventrículos e a segunda por introdução de ar através duma agulha de punção lombar. Foi um neurocirurgião extraordinário. Desenvolveu acessos cirúrgicos que permitiram expor e extirpar um tumor da pineal e foi o primeiro a remover na totalidade um neurinoma do acústico. Terá sido também o primeiro cirurgião a "clipar" o colo de um aneurisma intracraniano. Passara a ser poucos os recônditos do cérebro onde os neurocirurgiões fossem incapazes de atuar.

Cushing e Dandy não foram os únicos médicos a dar contributos importantes para o progresso da Neurocirurgia. Charles Elsberg, Frazier, Jefferson, Dott e Cairns (os dois últimos foram discípulos de Cushing). Olivecrona (em Estocolmo), Martel e Clovis Vincent (em França) contribuíram também para o desenvolvimento da especialidade. Haveria muitos mais nomes a indicar. Ficarei por aqui. Mesmo que me alongasse, a lista ficaria sempre incompleta.

Ao tempo, muitos neurologistas não acreditavam na Neurocirurgia e eram raros os que referenciavam doentes para operar. As administrações hospitalares não demonstravam grande consideração por aqueles pioneiros iluminados. Consideravam que exigiam material dispendioso e que obtinham poucos resultados. Ainda por cima, manchavam as reputações dos hospitais com as taxas elevadas de insucesso cirúrgico.

Paul Bucy, eminente neurocirurgião americano, comenta com graça e agudeza as personalidades dessas duas figuras tutelares da Neurocirurgia mundial e descreve as relações atribuladas que foram desenvolvendo.

Na sua opinião, teriam feitios semelhantes. Confiavam nas próprias capacidades e eram orgulhosos, determinados, temperamentais e extremamente competitivos. Resumindo, eram difíceis de aturar.

Os jovens internos fartavam-se depressa daquelas personalidades autocráticas, da exigência extrema e dos fáceis e muitas vezes injustificados acessos de fúria.

No que diz respeito a Cushing, diz-se que apenas um colaborador o suportou até ao fim da formação. Teria um feitio invulgarmente cordato. Não consta que tenha sido grande profissional. A maioria dos discípulos afastou-se antes de cumprir o primeiro ano de treino.

Dandy não seria muito diferente. No entanto, de vez em quando lembrava-se, de certo modo, de pedir desculpa aos seus colaboradores pelos maus modos e pelos excessos de linguagem, oferecendo-lhes jantares ou bilhetes para eventos desportivos.

Walter Dandy e Harvey Cushing nunca se deram bem. Ter-se-ão detestado logo deste o início do relacionamento. Lembre-se que Dandy foi, durante cerca de um ano, discípulo de Cushing no Johns Hopkins Hospital.

Diz-se que, quando Cushing deixou Baltimore para se instalar em Boston, arrumou junto aos seus pertences as indicações dos resultados obtidos por Dandy com as suas experiências. Walter Dandy deu por isso, insurgiu-se e obrigou o chefe a devolver-lhe o material. A vingança de Cushing foi declarar que aqueles apontamentos não tinham qualquer valor.

Anos mais tarde, quando Dandy publicou o seu relato sobre a primeira remoção total de um neurinoma do acústico, “esqueceu-se” de referir a monografia que Cushing dedicara antes ao assunto. A reposta de Harvey Cushing não foi meiga.

Curiosamente, os dois génios da Neurocirurgia influenciaram-se negativamente nos métodos de operar e até na escolha do material utilizado. Dandy, durante algum tempo, não aceitou usar o cauterizador elétrico (termocoagulador) desenvolvido por Bovie e Cushing, nem os clips de prata que McKenzie e Cushing tinha inventado. Cushing retribuiu-lhe recusando recorrer à ventriculografia como meio de diagnóstico. Ambos terão perdido eficiência cirúrgica com a animosidade recíproca.

Mais tarde, Walter Dandy recusou aderir à Society of Neurological Surgeons apadrinhada por Cushing e à Sociedade Harvey Cushing, por ter o nome do seu rival.

Foquemo-nos agora na vida e no percurso científico de Harvey Cushing, que constituem o objetivo essencial deste trabalho. Comecemos pela sua família e pelo seu nascimento. Cushing nasceu em Cleveland, no Ohio. Era filho, neto e bisneto de médicos. Filho mais novo de uma família numerosa, fez a formação pré-graduada na Universidade de Yale. Portou-se muito bem em Matemática e Ciências e menos bem em línguas mortas. Jogou basebol, ténis e críquete. Em matéria desportiva, ficou conhecido por ter mau perder. Por volta do terceiro ano da sua estadia em Yale, interessou-se pela Medicina.

De Yale, Harvey Cushing mudou-se para a Harvard Medical School, que frequentou durante quatro anos. Ingressou depois, como interno, no Massachusetts General Hospital. Mo ano seguinte, transferiu-se para o Johns Wilkins Hospital, para trabalhar com William Halsted, um grande cirurgião. Nessa altura, contava 27 anos e já mostrava um espírito brilhante e original. Foi Cushing quem introduziu naquele hospital a utilização diagnóstica dos aparelhos de Raios X, antes de ter decorrido um ano sobre a descoberta de Roentgen. 

Durante o internato, Cushing interessou-se pela nevralgia do trigémeo. Procedeu a craniotomias em 30 cadáveres, antes de se aventurar a operar uma doente com dores excruciantes. Extirpou o gânglio de Gasser, devolvendo a doente a uma vida normal. Essa intervenção reforçou o seu interesse pela Neurocirurgia. 

Cushing teve muitos admiradores e poucos amigos. Um grande amigo de toda a sua vida foi William Osler. Era vinte anos mais velho do que ele e aconselhou-o a fazer uma estadia na Europa. 

A dada altura, Harvey Cushing interessou-se pelo tratamento cirúrgico dos tumores cerebrais e, em 1900, viajou para Inglaterra, decidido a aprender Neurocirurgia com Victor Horsley.

Conta Paul Bucy que Cushing, no dia seguinte à sua chegada, acompanhou Horsley numa visita domiciliária. A doente sofria de nevralgia do trigémeo e o cirurgião inglês operou-a logo ali. Fez um grande buraco no crânio da senhora e levantou-lhe o lobo temporal. Havia sangue por toda a parte. Horsley removeu o gânglio e encerrou a ferida.

O americano ficou dececionado e pôs de lado a ideia de estagiar com Victor Horsley. Passou algum tempo em França, antes de se mudar para a Suíça (Berna), onde trabalhou com Theodor Kocher, um dos cirurgiões europeus mais conhecidos na época. No entanto, Kocher interessava-se pouco pelo sistema nervoso e não tinha grande coisa a oferecer a Cushing. Encaminhou-o para o fisiologista Kronecker. 

No laboratório de Kronecker, Cushing dedicou-se à experimentação em animais.

Em cães sujeitos a anestesia geral, injetava no espaço subaracnoindeu soro fisiológico.  Quando a pressão intracraniana se aproximava da tensão arterial, esta subia e o pulso lentificava. Era o reflexo que ficou conhecido como “de Cushing”. Seguiam-se alterações respiratórias graves e a morte dos animais. 

Da Suíça mudou-se para a Itália, continuando a aprender com quem mais sabia.

Passou ainda algum tempo em Liverpool, tendo sido o primeiro discípulo americano do fisiologista Charles Sherrington. Cushing e Sherrington corresponderam-se durante quase quatro décadas. Contribuíram para estabelecer a distinção entre a faixa motora pré-rolândica e o córtex sensorial. Mais tarde, em 1909, Cushing estimulou eletricamente a circunvolução pós central de dois doentes conscientes que referiram sensações em regiões em que as áreas pré-centrais contíguas induziam movimentos. 

A prolongada estadia na Europa fazia supor um apoio económico familiar sólido e sustentado. Em 1901, Cushing abandonou o velho continente e regressou a Baltimore.

Halsted apreciava Cushing e ainda tentou dissuadi-lo do seu projeto de encetar uma carreira neurocirúrgica.  Durante algum tempo, Harvey Cushing praticou cirurgia geral, operando tumores cerebrais ou meningocelos sempre que podia. Utilizou a anestesia local quando tal era possível.

Publicou diversos artigos sobre temas de Cirurgia Geral, mas a sua dedicação à Neurocirurgia acabou por se tornar exclusiva.

No início de 1909, o Dr. Arthur Cabot encaminhou o general Leonard Wood para o hospital Johns Hopkins, a fim de ser tratado por Cushing. Wood contava então 48 anos e fora operado em Boston, quatro anos antes, a um tumor do crânio que não parecia ultrapassar a dura-máter, mas que lhe causava repetidas crises convulsivas jacksonianas.

A frequência das crises aumentara, passando a acompanhar-se de paralisia pós-ictal nos membros esquerdos.

Até esse ano, tinha sido publicado apenas um caso de sucesso na cirurgia desse tipo de tumores e a palavra “meningioma” não existia. Seria criada por Cushing em 1922.

Por essa altura, era incipiente a imagiologia do cérebro e o diagnóstico e a localização dos tumores intracranianos assentavam apenas em dados clínicos. Harvey Cushing optou inicialmente por medidas conservadoras, mas a situação do doente deteriorou-se e, decorrido um ano, viu-se compelido a operar.

Não se tratava de um doente qualquer. Leonard Wood era Major-General e Chefe do Estado Maior do Exército dos Estados Unidos. Sendo médico de carreira (fora médico pessoal dos presidentes Grover Cleveland e William McKinley) notabilizara-se como chefe militar, deixando criar lendas acerca dos seus conflitos com os índios apaches, antes conduzir uma brigada americana à vitória de San Juan Heights, durante a guerra hispano-americana.  Era amigo pessoal do presidente Theodore Roosevelt e foi governador de Cuba e, mais tarde, da Província de Moro, nas Filipinas. Chegaria a ser candidato à presidência dos E.U.A., em 1920, pretendendo suceder a Woodrow Wilson. 

Por essa altura, Cushing recorria apenas à anestesia local. Lembremos que o cérebro não possui recetores de dor. Ficava a angústia de sentir o próprio crânio ser aberto.

A operação decorreu em duas fases, com quatro dias de intervalo. Na primeira intervenção, Cushing procedeu à craniotomia. A cirurgia foi suspensa devido a uma hemorragia profusa.

Na segunda, o cirurgião incisou a dura-máter e expôs a superfície do cérebro e o tumor. Foi capaz de aproveitar o plano de clivagem entre as duas estruturas. Poupou as veias de drenagem e conseguiu o que julgou ser a remoção completa da lesão.

O pós-operatório foi excelente.

A excecional destreza do cirurgião foi testemunhada e o sucesso proporcionou-lhe o reconhecimento público e o aumento na própria confiança na possibilidade de operar com sucesso tumores cerebrais.

Espero que os leitores usem agora de benevolência e perdoem um anacronismo.

        O tumor acabaria por recidivar. Cushing reoperou o velho general 17 anos mais tarde. Wood esteve consciente durante a operação. A dada altura, o cirurgião teve dúvidas sobra a possibilidade de remover totalmente o tumor e expressou-as. O general instou-o a prosseguir.

O doente faleceu no pós-operatório imediato. O cirurgião ficou profundamente abalado com o insucesso e chegou a pensar em abandonar a profissão.  

Retomemos o calendário. Ainda em 1910, o Doutor Arthur Tracy Cabot, propôs a sua nomeação para professor de Cirurgia da Universidade de Harvard. Aconteceu a Harvey Cushing receber no intervalo de pouco tempo outro convite honroso: tornar-se cirurgião-chefe no hospital Peter Bent Brigham.

O hospital Brigham ainda estava em construção. Seria inaugurado em abril de 1912.

Nesse ano, Cushing publicou um livro sobre a Hipófise, sublinhando a importância que a avaliação dos campos visuais tinha para neurologistas e neurocirurgiões.

A mortalidade operatória registada por ele nesse tipo de cirurgia durante um período de dez anos foi de 2,4 por cento. Era uma revolução para os parâmetros da época e seria apenas suplantada, décadas mais tarde, com a introdução de corticosteroides no período pós-operatório.

Numa atualização desse trabalho, publicada em 1932, descreveu o efeito da secreção exagerada de adrenocorticotrofina pelos tumores basófilos da hipófise. O mal ficou conhecido na literatura médica mundial como “Doença de Cushing”. O excesso de produção de cortisol pelo córtex suprarrenal tem manifestações clínicas semelhantes e é denominado “Síndrome de Cushing”

Tive oportunidade de operar uns tantos doentes que sofriam da doença de Cushing. Mesmo no tempo da Ressonância Magnética Nuclear, as imagens induziam em erro, havendo tumores diminutos (alguns pouco maiores que grãos de arroz) por vezes mais difíceis de encontrar do que de extirpar.

Durante esse período, Cushing tinha já discípulos que se iriam tornar ilustres, como Naffzinger e Dandy. Iria dispor de pouco tempo para se dedicar às tarefas de cirurgião, articulista e professor. Avizinhava-se a Primeira Grande Guerra.

Quando os Estados Unidos da América entraram no conflito, a Universidade de Harvard criou uma unidade para integrar a American Ambulance Care e Cushing foi para França. Passaria lá os quatro anos seguintes. Iria ganhar uma experiência considerável no tratamento de feridas craniocerebrais por armas de fogo e na organização dos serviços médicos militares. 

       Durante a guerra, tratou do tenente Edward Revere Osler, filho de Sir William Osler, canadiano considerado por muitos um dos pais da Medicina moderna. O jovem tinha sido ferido com gravidade na batalha de Ypres e não sobreviveu. 

        Muitos anos mais tarde (em 1926), Cushing recebeu o Prémio Pulitzer pela biografia de Osler. Não foi o seu único trabalho nessa área. Entusiasmado com a figura de André Vesálio, publicou também a sua biografia.

Em 1917, publicou uma monografia sobre os tumores do nervo acústico.

No outono do ano seguinte, durante a ofensiva Meuse-Argonne, Cushing teve de interromper uma demonstração cirúrgica por ter sentido bruscamente duplicidade de visão. Desenvolveu a seguir febre e parestesias nos membros. Durante algum tempo, não foi capaz de caminhar. Ter-se-á tratado do síndromo de Gillan-Barré. Cushing chegou a recear que a sua carreira cirúrgica tivesse acabado. Recuperou, ainda que progressivamente. Terá ficado com algumas sequelas. Cansava-se com facilidade e tinha alguma instabilidade na marcha, o que não o impediu de se lançar ao trabalho.

Em fevereiro de 1919, Harvey Cushing regressou a Boston. Trabalharia durante 13 anos no hospital Brigham e na Universidade de Harvard. Operou um número impressionante de doentes com tumores cerebrais, com resultados cada vez melhores.

Cushing não era apenas médico. Alimentava um fascínio pela literatura que já vinha do seu pai. Foi bibliófilo, homem de cultura e escritor. Não produziu ficção, mas publicou trabalhos muito interessantes sobre História da Medicina. As suas biografias de William Osler e William Harvey foram já referidas. Escreveu um número considerável de trabalhos científicos. Alguns deles irão ser lembrados durante séculos.

A sua vida familiar foi prejudicada pela dedicação quase exclusiva ao trabalho. Terá sido um pai distante. Mesmo em casa, reservava a maior parte das horas do dia ao estudo e à investigação. 

Conheceu a glória em vida. Era repetidamente convidado para proferir conferências científicas. Em 1922/1923, foi presidente do Colégio Americano de Cirurgiões.

Harvey Cushing comia pouco e consumia pouco álcool, mas fumava muito. Desenvolveu gangrenas isquémicas nos dedos dos pés. Já tinha de lidar com elas, em 1931, quando abandonou o leito hospitalar para operar o seu segundo milésimo tumor do cérebro.

Aposentou-se em 1932. Contava 63 anos de idade. Publicou, na altura, o artigo Intracranial tumors: notes upon a series of two thousands verified cases with surgical mortality percentages. 

No ano seguinte, aceitou o cargo de professor de Neurologia e regressou à Universidade de Yale, onde tinha feito os estudos secundários. 

Como vimos, o período em que Harvey Cushing se dedicou exclusivamente à Neurocirurgia foi limitado. Foram, contudo, anos frutuosos. Iniciou a formação de um número considerável de futuros neurocirurgiões. Muitos deles provinham de países estrangeiros e impulsionaram o desenvolvimento da nova especialidade nas suas terras de origem. Para além dos americanos Percival Bailey e Charles Locke, Cushing iniciou na especialidade o belga Paul Martin, o canadiano Kenneth McKenzie, o romeno Dimitri Bagdezor, o escocês Norman Dott, os ingleses George Armitage e Hugh Cairns e muitos outros.

Publicou uma descrição racional dos tumores cerebrais malignos. A classification of the tumors of the glioma group on a histogenic basis with a correlative study of prognosis foi impresso em 1926, com a colaboração de Percival Bayley.

No ano de 1938, publicou, juntamente com Louise Eisenhardt a notável monografia sobre meningiomas. Intitulava-se Meningiomas: Their classification, regional behaviour, life history and surgical end results. A obra continua a ser reconhecida e respeitada em todo o mundo.

Harvey Cushing faleceu em outubro de 1939, no seguimento de um enfarte do miocárdio. Curiosamente, a sua autópsia revelou a presença de uma lesão neurocirúrgica: um quisto colide do III ventrículo, que permaneceu assintomático.

 

Quando, há meio século, entrei para o internato da especialidade de Neurocirurgia no Hospital de S. José, em Lisboa, os meus colegas gostavam de comparar Cushing com Dandy. Walter Dandy era o expoente do cirurgião brilhante e quase heroico. Abordava sem delongas o objetivo, resolvia a questão rapidamente e encerrava.

Cushing trabalhava de forma diferente. De certo modo, transferira para a especialidade nova os ensinamentos de Halsted. Era atento aos pormenores, meticuloso e lento. Ao longo da minha carreira profissional, procurei seguir o seu exemplo.

A cirurgia demorada de Harvey Cushing chegou a prestar-se a alguma ironia. Um cirurgião perguntou-lhe um dia se algum tumor tinha já recidivado enquanto decorria a operação

Mesmo no último quartel do século XX a rapidez de execução continuava a ser tida numa conta exagerada por muitos cirurgiões. Compreende-se que tivesse de ser assim décadas e séculos atrás, quando a anestesia ainda não existia, a hemorragia era difícil de controlar e havia que proceder depressa e bem. Esse tempo fora ultrapassado, mas subsistiam adeptos dessa filosofia cirúrgica gloriosa.

Os da minha geração tornaram-se pioneiros da microcirurgia no nosso país. As intervenções tornaram-se mais lentas e as vias de acesso mais pequenas. Operava-se geralmente por fendas estreitas, procurando limitar o afastamento do tecido cerebral. Os resultados obtidos foram fechando as portas às antigas opções.

A Neurocirurgia nasceu na Europa e ali deu os primeiros passos. Foi, contudo, nos Estados Unidos da América que atingiu a maturidade. Antes de Cushing, era praticada por neurologistas que empunhavam o bisturi, ou por cirurgiões que gostavam de Neurologia. A organização de serviços especificamente neurocirúrgicos conduziu à queda drástica da morbilidade e da mortalidade operatórias. Segundo Wilder Penfield, Cushing foi o médico que tornou a cirurgia do cérebro segura e prestigiada.

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA 

Bucy, Paul: Two Giant: Harvey Cushing and Walter Dandy. Em Neurosurgery, Wilkins and Rengachary, Mcgraw-Hill Book Company, 1985.

Rojo. Isquierdo: Concepto y desarrollo de la Neuroicurugia. Em Fundamientos de Neurocirugia, Distribuidora Interamericana, 1978.

Vieira, Ruy: Historial da trepanação craniana, suplemento do jornal Notícias Médicas, nº 2835.

Trabulo, António: Trepanações em crânios neolíticos Blogue historinhasdamedicina, 30/12/ 2009.

Wilkins, Robert: History of Neurosurgery. Em Neurosurgery, Wilkins anda Rengachary, McGraw-Hill Book Company, 1985.


Imagem 1: Museu de Geologia de Lisboa

Imagem 2: Wikipedia.

domingo, 20 de novembro de 2022

             
               A REFORMA POMBALINA 
        
        DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 


                  Colégio de Jesus e Colégio das Artes em 1732 
                                (gravura de Carlo Grandi)


Quando se esvaziou do componente mágico, a Arde de Curar passou a compor-se de três disciplinas: a medicina, a cirurgia e a farmácia.

Os médicos detiveram durante séculos um estatuto social superior ao de cirurgiões e boticários. A medicina era tida como “arte doutrinal”. Os médicos possuíam melhor preparação teórica, o que lhes permitia formular diagnósticos e propor terapêuticas. A cirurgia e a farmácia eram consideradas “artes mecânicas”, portanto menores. Cirurgiões e boticários executavam na prática os tratamentos determinados pelos médicos, sendo considerado menos relevante na sua formação o componente teórico. Esta situação perdurou até ao final do século XVII. A partir daí os procedimentos começaram lentamente a modificar-se.

Eram exigidos aos cirurgiões certos conhecimentos anatómicos, mas pretendia-se essencialmente que manejassem os instrumentos para cumprirem com eficácia as orientações médicas.

Era conveniente que os boticários conhecessem as plantas medicinais. Deveriam, porém, ser peritos em praticar as técnicas que transformavam as drogas isoladas em medicamentos.

Situados hierarquicamente abaixo desses grupos, exerciam funções ao serviço da saúde os sangradores e os barbeiros.

A reforma dita pombalina da Universidade de Coimbra teve início em 1772 e apenas reverteu parcialmente essa discriminação. Reformulou o ensino da medicina, procurando aproximar a formação dos médicos portugueses da dos seus congéneres dos países mais desenvolvidos da Europa.

Os pilares mais importantes da reforma institucional foram a criação, na Faculdade de Medicina, de três novos estabelecimentos: o Hospital Escolar, o Teatro Anatómico e o Dispensatório Farmacêutico.

O Hospital Escolar pretendia aproximar dos enfermos estudantes e professores. Passaram a ser ministradas ali as aulas práticas de Clínica Médica. Os hospitais que serviam até então a população da cidade situavam-se longe da Universidade, em locais “baixos, húmidos e pouco saudáveis”.

Ao tempo, funcionavam em Coimbra o Hospital Real, o Hospital da Convalescença e o Hospital dos Lázaros. Foi necessário preparar um hospital novo, gerido pela Faculdade.

O Teatro Anatómico destinava-se naturalmente ao ensino da anatomia, tendo em conta que a prática da dissecação em cadáveres humanos era indispensável à aprendizagem da cirurgia. Os Estatutos de 1772 previam a fusão entre medicina e cirurgia. A Faculdade de Medicina passava a acreditar os profissionais nas duas áreas. A cirurgia tornava-se parte integrante da medicina e era exercida pelos mesmos licenciados.

Um sinal do espírito claramente pós-galénico dos redatores dos Estatutos foi a indicação de que as autópsias deveriam servir também para determinar as causas da morte “para se proceder com melhor sucesso em outras moléstias semelhantes”.

O Dispensatório Farmacêutico tornava-se o local privilegiado para o ensino de farmácia aos alunos de medicina, enquanto formava também boticários. Fornecia medicamentos tanto aos doentes internados no hospital como aos que eram tratados em regime ambulatório. Estas novas instituições não se isolavam dentro dos muros da Universidade. Estavam abertas à comunidade coimbrã, prestando um serviço público valioso.

Tratava-se de reformular os paradigmas do ensino e da prática médica. Os tempos tinham mudado. A tradição galénica, que impregnara a formação dos médicos europeus durante milénio e meio, era agora vivamente contestada. Mais que nos velhos textos gregos e latinos, era na experiência que assentavam agora as esperanças de melhoria do saber médico.

As palavras de abertura dos Estatutos eram devastadoras para a prática tradicional da medicina: “ Tendo a Medicina por objeto duas cousas de tão grande importância como são a conservação e o restabelecimento da saúde dos homens, tem infelizmente sucedido não se fazerem nela os progressos que convinham, chegando muitos a desconfiar de que pudesse já haver Ciência na Medicina; e outros a desprezar a que atualmente existe; e ainda a temê-la, como perigosa e nociva, por ser muitas vezes ministrada cegamente pelas mãos da ignorância”.

A partir de certa altura, a utilidade da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra passou a ser vivamente contestada. Um grande número dos alunos que a frequentavam pretendia seguir medicina. O curso de filosofia era, aliás, obrigatório para os futuros médicos. Por que não a integrar então na Faculdade de Medicina? A polémica arrastou-se durante anos.

Os Estatutos previam que os lentes criassem ciência e elaborassem tratados para uso dos alunos. No entanto, tal como agora, Portugal era bem mais um país receptor do que produtor do saber científico.

Os estudantes matriculavam-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, depois de terem cumprido os estudos preparatórios na Faculdade de Filosofia. Curiosamente, era nessa Faculdade que os alunos frequentavam o Gabinete de História Natural, o Laboratório Químico e o Gabinete de Física.




                          Fachada do Laboratório de Química. 
                     Gravura de G. Elsdom e R.F. Almeida, 1877
                Mantém-se atualmente, após obras de recuperação.

É curioso constatar que a reestruturação da Universidade de Coimbra, que foi acompanhada pela contratação de professores estrangeiros de mérito e pela aquisição de material científico atualizado, coincidiu com uma redução drástica do número de alunos da Instituição que, de cerca de 4.500 caiu para meio milhar. Não foram os critérios de admissão que se tornaram mais exigentes. O que aconteceu foi a brusca diminuição da oferta de ensino pré-universitário, resultante da expulsão dos jesuítas.


domingo, 6 de fevereiro de 2022

                                     

         JOSEP MENGELE



IV

Os amigos de Mengele avisam-no do perigo. O novo governo democrático argentino poderia responder afirmativamente ao pedido germânico de extradição.

Josef Mengele aterrorizou-se. Despediu-se dos seus sócios na empresa farmacêutica, pediu à família discrição e paciência e voltou a Assunção.

Instalou-se, a seguir, na quinta do nazi Alban Krug, em Nueva Bavaria. Ficava perto da fronteira argentina.

       Retomou a atividade de caixeiro-viajante. Percorria as grandes explorações rurais do Paraguai com o seu catálogo de máquinas agrícolas.

Entretanto, os seus amigos procuravam conseguir-lhe um passaporte paraguaio. A tarefa não era fácil: a lei exigia a permanência prévia de cinco anos no país. Por outro lado, Marta mostrava dificuldade em adaptar-se à vida rural.

O cerco apertou-se. O governo alemão enviou pedidos de extradição não apenas à Argentina, mas também ao Paraguai, dados os rumores que circulavam quanto à deslocação de Mengele para aquele país. Os processos arrastaram-se. Nenhum dos estados envolvidos no processo mostrava qualquer urgência em responder às autoridades alemãs.

Rudel, o ás da Lufwtaffe convertido em fornecedor de armas ao regime de Stroessner, interveio a favor do seu amigo junto do Ministério do Interior. Helmut Gregor era um médico brilhante e estava a ser perseguido devido às suas convicções políticas. Tratava-se de um homem útil para o Paraguai.

A sua mediação teve êxito e, em novembro de 1959, o Supremo Tribunal paraguaio concedeu a Gregor a cidadania e a autorização de residência.

Os seus amigos Jung organizaram uma pequena festa para celebrar o evento. No entanto, Josef chegou deprimido a casa deles. Acabara de receber a notícia da morte de seu pai.

Falou longamente do pai e do relacionamento muitas vezes difícil entre ambos. Quase a chorar, recitou uma frase em latim que Mengele sénior gostava de repetir: procul recedant somnia, et noctium phantasmata (que fiquem longe de nós os sonhos e os fantasmas da noite).

Entretanto, em Buenos Aires, Adolf Eichmann, que fazia uso do nome de Ricardo Klement, ia dando demasiado nas vistas. Apesar de ter um emprego modesto como fiel de armazém na empresa Mercedes, fora rastreado pela Mossad, a agência israelita dos Serviços Secretos. Mengele era também objeto de investigação. A Mossad foi informada de que Josef Mengele usava o nome de Helmut Gregor e dirigia uma fábrica de móveis e uma empresa farmacêutica na capital argentina.

       No dia 11 de maio de 1960, os comandos da Mossad entraram em Buenos Aires, sequestraram Eichmann e submeteram-no a interrogatório. Pretendiam saber onde estava Mengele e que aspeto teria então. Em nome da honra, Eichmann recusou trair o camarada, que nem sequer apreciava. Não falou.

Alguns dias depois, o primeiro-ministro judaico Ben Gurion anunciou a captura de Adolf Eichmann.

Os criminosos de guerra refugiados na América do Sul assustaram-se. A Segunda Grande Guerra terminara havia dezena e meia de anos, mas os judeus não desistiam de os procurar.  

As atenções dos jornalistas de boa parte do mundo voltaram-se para Buenos Aires. A Argentina era acusada de abrigar criminosos de guerra. O governo da Alemanha Ocidental ofereceu 20 mil marcos pela captura de Josef Mengele.

Face à pressão hostil, os círculos nazis da capital argentina desintegraram-se e os seus membros dispersaram.   

Em setembro de 1960, Mengele entendeu que, para sobreviver, deveria abandonar tudo o que possuía. Ia nos 49 anos e via-se obrigado a recomeçar, pela segunda vez, uma existência nova. No mês seguinte, Krug e Rudel, os seus amigos mais chegados, levaram-no num jipe até à fronteira do Brasil.

Quem protegeu então Mengele e o ajudou a encontrar abrigo no Brasil foi Wolfgang Gerhard, amigo de Hans Rudel e antigo dirigente da Juventude Hitleriana na Áustria. Emigrara em 1948 por não suportar a ocupação da sua Pátria pelos aliados, mas desprezava os brasileiros, que considerava pertencerem a uma raça inferior. Era um homem alto e um nazi fanático. Cada ano decorava a sua árvore de Natal com a cruz suástica.

Gerhard ajudou Mengele a vender as suas terras no Paraguai por cerca de 20.000 dólares. Era uma quantia relativamente importante para o Brasil.

 Mais ou menos por essa altura, Martha e Josef concordaram em separar-se. Nem ela, nem o filho (então com 16 anos) se adaptavam a partilhar as vidas com um fugitivo. Regressaram à Europa.

Mengele obteve um trabalho provisório em São Paulo, enquanto Gerhard lhe procurava uma situação mais estável.

  Foi alojado numa quinta situada a 300 quilómetros de São Paulo, nos arredores de Nova Europa, zona onde habitava uma comunidade alemã. A propriedade tinha cerca de 15 hectares e produzia café, arroz, fruta e leite. Os proprietários eram um casal húngaro, Geza e Gitta Stammer. Tinham abandonado a pátria por causa da invasão soviética. Eram pessoas simples e politicamente seguras.

Mengele foi apresentado como um especialista suíço em pecuária. O seu novo nome era Peter Hochbichler. Acabaria por viver com Geza e Gitta durante cerca de 13 anos.

Corriam mundo rumores sobre o paradeiro de Mengele e ocorreram alguns erros de identificação. A Mossad, contudo, tinha os pés bem assentes no chão. Dois amigos chegados de Mengel, Krug e Rudel, foram localizados, sem consequências úteis. A correspondência de Martha era intercetada, mas o antigo médico nazi era demasiado prudente para transmitir por escrito informações que lhe pudessem causar perigo.

Zvi Aharoni, um judeu alemão que integrou o grupo dos sequestradores de Eichmann, acaba por o localizar no Brasil. Regressou a França para preparar um sequestro. Foi, entretanto, chamado de urgência para outra missão. O rapto de um rapazito de oito anos desencadeara uma tempestade política em Israel e Ben Gurion arriscava-se a perder as próximas eleições. A Mossad chamou Zvi, o “Tigre”, à operação que planeara. Quando, oito meses depois, o menino foi recuperado, Mengele mudara de residência.

Na Nova Europa, Josef sofria com o calor. A terra era pouco produtiva e o trabalho cansativo.

Procurava adaptar-se ao cultivo do café e cuidava dos animais domésticos. No entanto, não se sentia bem. Lavava-se vezes demais e abusava da água-de-colónia.

Meses depois, Gitta Stammer descobriu por acaso a verdadeira identidade do seu hóspede. Identificou-o numa fotografia patente num jornal de São Paulo. Para comemorar o 17º aniversário da libertação de Auschwitz, o periódico mostrava a fotografia do jovem médico das SS conhecido por Anjo da Morte.

Mengele não podia negar a identificação. Apesar dos anos decorridos, a semelhança era clara. Defendeu-se, declarando que não cometera os crimes de que “a imprensa ao serviço dos judeus” o acusava.

Os hospedeiros não se preocuparam em demasia com o conhecimento da sua identidade real. Queriam paz, sossego e dinheiro. No entanto, receavam a vingança dos judeus. Pensaram em livrar-se do hóspede.

Wolfgang Gerhard apareceu oportunamente na quinta com dois milhares de dólares americanos. Serviriam para sossegar os Stammer por um tempo.

Mengele continuava inquieto. Sobravam-lhe razões para tal. Após a captura de Eichmann, passava a ser ele o criminoso nazi mais mediático e mais procurado.

Algum tempo depois, Geza visitou Gerhard em São Paulo. Pretendia sacar mais dinheiro.

Aós alguma demora, Geza Stammer recebeu a resposta. Os Mengele ofereceram-se para financiar metade de uma nova propriedade. A outra metade seria obtida mediante a venda da quinta atual.

Semanas mais tarde, os Stammer e Hochbichler mudaram-se para uma quinta isolada na Serra Negra. Era a fazenda Santa Luzia e ocupava 45 hectares.

Mal se instalara, Mengele soube do enforcamento de Eichmann. Acontecera a 1 de junho de 1962. As suas cinzas tinham sido lançadas ao Mar Mediterrâneo, para que ninguém pudesse orar junto à sua campa.

     Meses depois Mengele adoeceu com febre alta. Poderia ser malária. Gitta cuidou dele. Aos poucos, os carinhos ao doente foram mudando de tom. Acabou por se lhe meter na cama.

      Mengele nunca saia da quinta. O seu único visitante era Gerhard, que lhe trazia jornais e alguns medicamentos. Ocasionalmente oferecia-lhe também discos de música clássica.

Em meados de 1963, Mengele recebeu notícias da família. Os seus parentes em Günzburgo tinham deixado de ser incomodados e Martha vivia em paz.

Por outro lado, os caçadores de nazis pareciam ter-lhes dado folga. Israel preocupava-se mais com os mísseis egípcios do que com os carniceiros do Holocausto.

No início do ano seguinte, Mengele recebeu uma notícia que amargurou. Uma carta da Martha informou-o de que os seus diplomas universitários lhe tinham sido retirados. Por ter violado o Juramento de Hipócrates, tendo cometido assassinatos em Auschwitz, as Universidades de Frankfurt e Munique anularam-lhe os títulos de doutor em Medicina e em Antropologia.

Josef Mengele considerava-se um académico e tinha pretensões a seguir uma carreira universitária. Achou aquela decisão profundamente injusta. Ele, que procurara preservar o melhor da sua querida Pátria, olhava agora a Alemanha como injusta e degradada.

Em nenhum momento questionou a justeza das suas posições. Fora um soldado do Reich e continuava a raciocinar de acordo com os conceitos que lhe tinham sido inculcados: a raça e o sangue eram as motivações essenciais que regiam o direito, a guerra, o relacionamento dos sexos e também o entendimento, ou o desentendimento, entre as nações. No modo de ver de boa parte dos alemães da sua geração, os fracos e os parasitas eram indignos de viver.

Hitler enfeitiçara os alemães. Soubera incorporar nos seus discursos o sentido messiânico de purificar a raça, aperfeiçoando a espécie humana, e de dar à Alemanha o espaço vital de que ela necessitava para cumprir a sua missão quase divina.

Em termos pessoais, Josef Mengele considerava ter cumprido a sua parte. Fora determinado. Uma ou outra vez, eliminara a doença eliminando também os doentes, como acontecera com alguns surtos de tifo registados nas casernas dos prisioneiros judeus. Depois, Auschwitz constituíra, de certo modo, uma empresa lucrativa. Os trabalhadores forçados produziam borracha sintética para a IG Farben e armas para a Krupp. A fábrica de feltro Alex Zink adquiria à Kommandatur cabeleiras de mulher e reciclava-os em sapatilhas para as tripulações dos submarinos. A farmacêutica Bayer testava medicamentos contra o tifo nos judeus internados nos campos de concentração.

Mengele não sentia remorsos, nem se arrependia de nada. Considerava que tinha sido a História a tramá-lo.

Por vezes, recordava os camaradas. Eram vinte, os seus colegas da SS colocados em Auschwitz. Trabalhavam junto a eles mais de três centenas de professores universitários e biólogos.

Lembrava-se bem de alguns. Horst Schumann esterilizava homens e mulheres com raios X. Josef não entendia bem a razão por que castrava previamente os machos e sujeitava as fêmeas a ovariectomias. Claus Clauberg implantava fetos de animais nos úteros de mulheres e esterilizava-as, injetando-lhes no sistema genital produtos à base de formol. Friedrich Entress inoculava bacilos de tifo nos judeus aprisionados e matava-os com injeções intracardíacas de formol. August Hirt injetava hormonas nos homossexuais, antes de os abater.  

Uns melhor, outros pior, todos tinham dado o seu contributo para o Reich. Que seria feito deles?

Alguns tinham-se suicidado. Um número restrito fora condenado nos juramentos de Nuremberga. A grande maioria escondera-se durante algum tempo e acabara por regressar para junto das famílias e por se reintegrar na sociedade civil. Tal nunca seria possível para ele, Josef Mengele. Era demasiado conhecido.  

Acabou por passar cinco anos na Serra Negra, sem nunca de lá sair.

Numa noite de 1967 percebeu que tinha sido definitivamente vencido. Nada era como dantes. Já quase ninguém pensava como ele. Não entendia o mundo moderno. Observava na televisão jovens alemães de cabelo comprido a contestar a autoridade. Na América do Norte, viam-se brancos a defender os direitos dos negros. Os artistas alemães contemporâneos desagradavam-lhe e a música psicadélica, no seu entender, afrontava o lirismo de Wagner.

Os amigos desapontavam-no. Rudel não o visitava desde que se mudara para o Brasil. Klaus Barbie, “o carniceiro de Lyon” instalara-se na Bolívia com o nome de Klaus Altman e prosperara. Treinava os oficiais do país nas técnicas de tortura. Declarou-se disposto a acolher Mengele. O antigo médico nazi não aceitou a proposta.

A sua conversa pouco se alterara. Os temas tornaram-se repetitivos: a apologia da raça nórdica, os judeus répteis, a excelência biológica, o povo alemão orgulhoso e heroico …

Os Stammer estavam fartos de o aturar, mas mantinham ligações económicas importantes com ele. Pressionaram-no a vender em conjunto a quinta e compraram, também a meias, uma bela propriedade nos arredores de Caieiras, a cerca de 30 quilómetros de São Paulo.

Mengele tinha quase sessenta anos e viu-se obrigado a segui-los. Mudaram-se no começo de 1969. 

Entretanto, o seu único amigo fiel dos últimos anos, Wolfgang Gerhard, viu a família atingida pelo infortúnio: os exames médicos feitos na Áustria mostraram que a mulher tinha um cancro no estômago e que o filho Adolf contraíra um cancro nos ossos. Sem dinheiro para custear as despesas Gerhard pediu, pela primeira vez, auxílio a Mengele.

O nazi era imune à compaixão. Mostrou-se reticente em interceder junto da sua família, mas acabou por ceder. Não era homem de afetos, mas receava que, em desespero, Gerhard acabasse por revelar aos judeus caçadores de nazis o seu paradeiro.

Adoeceu em julho de 1972. Tinha fortes cólicas abdominais. A sua obstipação habitual agravou-se e acabou por emitir vómitos fecaloides.

Foi obrigado a deixar-se observar por um médico. As radiografias mostraram uma esfera do tamanho de uma bolha de bilhar que lhe obstruía o trânsito intestinal. Foi operado. Retiraram-lhe do intestino uma enorme bola de pelos. A ansiedade e a tendência compulsiva tinham-no levado a mordiscar e engolir, ao longo dos anos, os pelos do bigode. Não haviam sido expelidos. Com o tempo, tinham-se aglutinado até formarem um objeto sólido.

Algum tempo mais tarde, o doente relatou por escrito a sua experiência. Tivera de resistir à tentação de discutir com os colegas o próprio caso clínico. Os seus conhecimentos iriam denunciar a profissão de médico.

Mengele sobreviveu, mas sentia-se abalado. Contatou que envelhecera.

         Com o passar dos anos, Josef Mengele tornou-se ainda mais maçador. Intrometia-se, por carta, na vida dos familiares (alguns dos quais mal conhecia) e exigia constantemente dinheiro e atenção. Na correspondência com o sobrinho, continuava a louvar o Führer e o eugenismo e criticava a República Federal Alemã.

O antigo médico nazi constituía um fardo para a própria família, mas o clã de Günsburg não podia abandoná-lo: se fosse capturado, a revelação dos seus laços com o Anjo da Morte poderia abalar os alicerces da empresa multinacional que faturava anualmente centenas de milhões de dólares e contava com mais de dois mil empregados.

Wolfgang Gerhard achou que Mengele levava uma vida demasiado solitária. Pareceu-lhe conveniente que encontrasse novos amigos e outros companheiros de conversa. Apresentou-lhe um casal de nazis austríacos, Wolfram e Liselotte Bossert. Wolgram fora cabo do exército austríaco e deplorava a humilhação que a Alemanha sofrera no final da guerra. Era conhecido por Musikus, no seu círculo mais chegado. Interessava-se por filosofia e literatura alemã, embora estivesse longe de deter a cultura de Josef Mengele.

A iniciativa de Gerhard resultou e Mengele passou a frequentar regularmente a casa dos Bossert. Jantava com eles quase todas as quartas-feiras. Falavam essencialmente dos “valores eternos” da vida alemã antes da guerra. Partilhavam diversos pontos de vista, incluindo o antissemitismo.

Entretanto, na propriedade de Caieiras, os acontecimentos precipitaram-se. Por motivos fúteis, Mengele deu uma bofetada em Gitta. Geza agarrou Mengele pelo pescoço e correu com ele de casa.

Mengele teve de instalar durante uns dias no domicílio de Bossert, o o seu novo amigo, enquanto Sedlmeier voltava a atravessar o Atlântico para tentar acalmar os Stammer com nova oferta de dinheiro.

Desta vez, a iniciativa não resultou. No final de 1974, os Stammer venderam a propriedade de Caieiras e instalaram-se numa moradia luxuosa em São Paulo. Mengele e o seu cão “Cigano” tinham dois meses para abandonar a casa. Gitta enganou-o: com uma pequena fração da parte que lhe correspondia na venda da propriedade, comprou-lhe uma casinha de estuque em Eldorado, um arrabalde deserdado de São Paulo. Sabia que Mengele não podia recorrer à justiça. Ao menos, ficava próximo da morada dos Bossert.

A casa era demasiado modesta e necessitava de obras. Mengele chamava-se agora Pedro. Ainda começou as reparações, mas faltou-lhe o ânimo.

Detestava o bairro onde passara a habitar: “um covil de pretos e mulatos debochados, de bandidos e de drogados”.

A 16 de maio de 1976, Josef Mengele sofreu um acidente vascular cerebral. Recuperou, mas ficou diminuído. O seu feitio estava cada vez pior. Os seus novos amigos deixaram de ser capazes de o aturar. Puseram um anúncio num jornal: “precisa-se mulher-a-dias, boa cozinheira, paciente e dedicada para um parente idoso”.

Respondeu uma mulher angulosa com cerca de trinta anos. Era Elsa Gulpian de Oliveira. Foi ela quem cuidou de Mengele nos últimos anos de vida.

Entretanto, o seu único filho, Rolf Mengele, adotara um posicionamento político de centro-esquerda. Licenciado em Direito, tornara-se, de certo modo, a ovelha negra da poderosa família Mengele cuja fábrica dominava a pequena cidade de Günsburg desde a primeira guerra mundial.

Ao longo da vida, Rolf convivera com o pai durante apenas algumas semanas.

Procurando uma síntese para as contradições que lhe queimavam a alma, visitou o progenitor no Brasil, em outubro de 1977.


O encontro desapontou-o. Josef Mengele era um homem frio, seco e egoísta. Não sentia qualquer remorso pelas mortes que carregava às costas.

Rolf regressou à Alemanha mais sozinho e triste do que viera.

A saúde de Josef Mengel continuou a piorar. De visita a uns amigos, sentiu-se mal ao nadar na praia da Enseada, junto a Bertioga, perto de São Paulo, e morreu afogado. Estava-se em fevereiro de 1979 e Josef Mengele contara 68 anos.

Foi enterrado em Embu com o nome de Wolfgang Gerhard. Usara durante anos o cartão de identidade do seu antigo amigo.

     Até ao final da vida, Josef Mengele mostrou-se orgulhoso pela sua atuação em Auschwitz.

Sonhara com a notoriedade e alcançou-a. O seu nome dificilmente será riscado das páginas mais negras da História da Medicina.

Os registos das experiências tenebrosas que levara a cabo em Auschwitz valiam muito menos do que ele pensara. Os sacrifícios dos prisioneiros judeus foram inúteis. Dali não saiu qualquer informação que acrescentasse o saber médico.

 

 

 

                   APOIO BIBLIOGRÁFICO

Aziz, Philippe. Os médicos da Morte. Desassossego, Porto Salvo, 2019.

Guez, Olivier. O desaparecimento de Josef Mengele. Planeta Manuscrito, Lisboa, 2028.

Posner, Gerald e Ware, John. Mengele – o médico responsável pelas terríveis experiências de Auschwitz. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006.