Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

                                     

         JOSEP MENGELE



IV

Os amigos de Mengele avisam-no do perigo. O novo governo democrático argentino poderia responder afirmativamente ao pedido germânico de extradição.

Josef Mengele aterrorizou-se. Despediu-se dos seus sócios na empresa farmacêutica, pediu à família discrição e paciência e voltou a Assunção.

Instalou-se, a seguir, na quinta do nazi Alban Krug, em Nueva Bavaria. Ficava perto da fronteira argentina.

       Retomou a atividade de caixeiro-viajante. Percorria as grandes explorações rurais do Paraguai com o seu catálogo de máquinas agrícolas.

Entretanto, os seus amigos procuravam conseguir-lhe um passaporte paraguaio. A tarefa não era fácil: a lei exigia a permanência prévia de cinco anos no país. Por outro lado, Marta mostrava dificuldade em adaptar-se à vida rural.

O cerco apertou-se. O governo alemão enviou pedidos de extradição não apenas à Argentina, mas também ao Paraguai, dados os rumores que circulavam quanto à deslocação de Mengele para aquele país. Os processos arrastaram-se. Nenhum dos estados envolvidos no processo mostrava qualquer urgência em responder às autoridades alemãs.

Rudel, o ás da Lufwtaffe convertido em fornecedor de armas ao regime de Stroessner, interveio a favor do seu amigo junto do Ministério do Interior. Helmut Gregor era um médico brilhante e estava a ser perseguido devido às suas convicções políticas. Tratava-se de um homem útil para o Paraguai.

A sua mediação teve êxito e, em novembro de 1959, o Supremo Tribunal paraguaio concedeu a Gregor a cidadania e a autorização de residência.

Os seus amigos Jung organizaram uma pequena festa para celebrar o evento. No entanto, Josef chegou deprimido a casa deles. Acabara de receber a notícia da morte de seu pai.

Falou longamente do pai e do relacionamento muitas vezes difícil entre ambos. Quase a chorar, recitou uma frase em latim que Mengele sénior gostava de repetir: procul recedant somnia, et noctium phantasmata (que fiquem longe de nós os sonhos e os fantasmas da noite).

Entretanto, em Buenos Aires, Adolf Eichmann, que fazia uso do nome de Ricardo Klement, ia dando demasiado nas vistas. Apesar de ter um emprego modesto como fiel de armazém na empresa Mercedes, fora rastreado pela Mossad, a agência israelita dos Serviços Secretos. Mengele era também objeto de investigação. A Mossad foi informada de que Josef Mengele usava o nome de Helmut Gregor e dirigia uma fábrica de móveis e uma empresa farmacêutica na capital argentina.

       No dia 11 de maio de 1960, os comandos da Mossad entraram em Buenos Aires, sequestraram Eichmann e submeteram-no a interrogatório. Pretendiam saber onde estava Mengele e que aspeto teria então. Em nome da honra, Eichmann recusou trair o camarada, que nem sequer apreciava. Não falou.

Alguns dias depois, o primeiro-ministro judaico Ben Gurion anunciou a captura de Adolf Eichmann.

Os criminosos de guerra refugiados na América do Sul assustaram-se. A Segunda Grande Guerra terminara havia dezena e meia de anos, mas os judeus não desistiam de os procurar.  

As atenções dos jornalistas de boa parte do mundo voltaram-se para Buenos Aires. A Argentina era acusada de abrigar criminosos de guerra. O governo da Alemanha Ocidental ofereceu 20 mil marcos pela captura de Josef Mengele.

Face à pressão hostil, os círculos nazis da capital argentina desintegraram-se e os seus membros dispersaram.   

Em setembro de 1960, Mengele entendeu que, para sobreviver, deveria abandonar tudo o que possuía. Ia nos 49 anos e via-se obrigado a recomeçar, pela segunda vez, uma existência nova. No mês seguinte, Krug e Rudel, os seus amigos mais chegados, levaram-no num jipe até à fronteira do Brasil.

Quem protegeu então Mengele e o ajudou a encontrar abrigo no Brasil foi Wolfgang Gerhard, amigo de Hans Rudel e antigo dirigente da Juventude Hitleriana na Áustria. Emigrara em 1948 por não suportar a ocupação da sua Pátria pelos aliados, mas desprezava os brasileiros, que considerava pertencerem a uma raça inferior. Era um homem alto e um nazi fanático. Cada ano decorava a sua árvore de Natal com a cruz suástica.

Gerhard ajudou Mengele a vender as suas terras no Paraguai por cerca de 20.000 dólares. Era uma quantia relativamente importante para o Brasil.

 Mais ou menos por essa altura, Martha e Josef concordaram em separar-se. Nem ela, nem o filho (então com 16 anos) se adaptavam a partilhar as vidas com um fugitivo. Regressaram à Europa.

Mengele obteve um trabalho provisório em São Paulo, enquanto Gerhard lhe procurava uma situação mais estável.

  Foi alojado numa quinta situada a 300 quilómetros de São Paulo, nos arredores de Nova Europa, zona onde habitava uma comunidade alemã. A propriedade tinha cerca de 15 hectares e produzia café, arroz, fruta e leite. Os proprietários eram um casal húngaro, Geza e Gitta Stammer. Tinham abandonado a pátria por causa da invasão soviética. Eram pessoas simples e politicamente seguras.

Mengele foi apresentado como um especialista suíço em pecuária. O seu novo nome era Peter Hochbichler. Acabaria por viver com Geza e Gitta durante cerca de 13 anos.

Corriam mundo rumores sobre o paradeiro de Mengele e ocorreram alguns erros de identificação. A Mossad, contudo, tinha os pés bem assentes no chão. Dois amigos chegados de Mengel, Krug e Rudel, foram localizados, sem consequências úteis. A correspondência de Martha era intercetada, mas o antigo médico nazi era demasiado prudente para transmitir por escrito informações que lhe pudessem causar perigo.

Zvi Aharoni, um judeu alemão que integrou o grupo dos sequestradores de Eichmann, acaba por o localizar no Brasil. Regressou a França para preparar um sequestro. Foi, entretanto, chamado de urgência para outra missão. O rapto de um rapazito de oito anos desencadeara uma tempestade política em Israel e Ben Gurion arriscava-se a perder as próximas eleições. A Mossad chamou Zvi, o “Tigre”, à operação que planeara. Quando, oito meses depois, o menino foi recuperado, Mengele mudara de residência.

Na Nova Europa, Josef sofria com o calor. A terra era pouco produtiva e o trabalho cansativo.

Procurava adaptar-se ao cultivo do café e cuidava dos animais domésticos. No entanto, não se sentia bem. Lavava-se vezes demais e abusava da água-de-colónia.

Meses depois, Gitta Stammer descobriu por acaso a verdadeira identidade do seu hóspede. Identificou-o numa fotografia patente num jornal de São Paulo. Para comemorar o 17º aniversário da libertação de Auschwitz, o periódico mostrava a fotografia do jovem médico das SS conhecido por Anjo da Morte.

Mengele não podia negar a identificação. Apesar dos anos decorridos, a semelhança era clara. Defendeu-se, declarando que não cometera os crimes de que “a imprensa ao serviço dos judeus” o acusava.

Os hospedeiros não se preocuparam em demasia com o conhecimento da sua identidade real. Queriam paz, sossego e dinheiro. No entanto, receavam a vingança dos judeus. Pensaram em livrar-se do hóspede.

Wolfgang Gerhard apareceu oportunamente na quinta com dois milhares de dólares americanos. Serviriam para sossegar os Stammer por um tempo.

Mengele continuava inquieto. Sobravam-lhe razões para tal. Após a captura de Eichmann, passava a ser ele o criminoso nazi mais mediático e mais procurado.

Algum tempo depois, Geza visitou Gerhard em São Paulo. Pretendia sacar mais dinheiro.

Aós alguma demora, Geza Stammer recebeu a resposta. Os Mengele ofereceram-se para financiar metade de uma nova propriedade. A outra metade seria obtida mediante a venda da quinta atual.

Semanas mais tarde, os Stammer e Hochbichler mudaram-se para uma quinta isolada na Serra Negra. Era a fazenda Santa Luzia e ocupava 45 hectares.

Mal se instalara, Mengele soube do enforcamento de Eichmann. Acontecera a 1 de junho de 1962. As suas cinzas tinham sido lançadas ao Mar Mediterrâneo, para que ninguém pudesse orar junto à sua campa.

     Meses depois Mengele adoeceu com febre alta. Poderia ser malária. Gitta cuidou dele. Aos poucos, os carinhos ao doente foram mudando de tom. Acabou por se lhe meter na cama.

      Mengele nunca saia da quinta. O seu único visitante era Gerhard, que lhe trazia jornais e alguns medicamentos. Ocasionalmente oferecia-lhe também discos de música clássica.

Em meados de 1963, Mengele recebeu notícias da família. Os seus parentes em Günzburgo tinham deixado de ser incomodados e Martha vivia em paz.

Por outro lado, os caçadores de nazis pareciam ter-lhes dado folga. Israel preocupava-se mais com os mísseis egípcios do que com os carniceiros do Holocausto.

No início do ano seguinte, Mengele recebeu uma notícia que amargurou. Uma carta da Martha informou-o de que os seus diplomas universitários lhe tinham sido retirados. Por ter violado o Juramento de Hipócrates, tendo cometido assassinatos em Auschwitz, as Universidades de Frankfurt e Munique anularam-lhe os títulos de doutor em Medicina e em Antropologia.

Josef Mengele considerava-se um académico e tinha pretensões a seguir uma carreira universitária. Achou aquela decisão profundamente injusta. Ele, que procurara preservar o melhor da sua querida Pátria, olhava agora a Alemanha como injusta e degradada.

Em nenhum momento questionou a justeza das suas posições. Fora um soldado do Reich e continuava a raciocinar de acordo com os conceitos que lhe tinham sido inculcados: a raça e o sangue eram as motivações essenciais que regiam o direito, a guerra, o relacionamento dos sexos e também o entendimento, ou o desentendimento, entre as nações. No modo de ver de boa parte dos alemães da sua geração, os fracos e os parasitas eram indignos de viver.

Hitler enfeitiçara os alemães. Soubera incorporar nos seus discursos o sentido messiânico de purificar a raça, aperfeiçoando a espécie humana, e de dar à Alemanha o espaço vital de que ela necessitava para cumprir a sua missão quase divina.

Em termos pessoais, Josef Mengele considerava ter cumprido a sua parte. Fora determinado. Uma ou outra vez, eliminara a doença eliminando também os doentes, como acontecera com alguns surtos de tifo registados nas casernas dos prisioneiros judeus. Depois, Auschwitz constituíra, de certo modo, uma empresa lucrativa. Os trabalhadores forçados produziam borracha sintética para a IG Farben e armas para a Krupp. A fábrica de feltro Alex Zink adquiria à Kommandatur cabeleiras de mulher e reciclava-os em sapatilhas para as tripulações dos submarinos. A farmacêutica Bayer testava medicamentos contra o tifo nos judeus internados nos campos de concentração.

Mengele não sentia remorsos, nem se arrependia de nada. Considerava que tinha sido a História a tramá-lo.

Por vezes, recordava os camaradas. Eram vinte, os seus colegas da SS colocados em Auschwitz. Trabalhavam junto a eles mais de três centenas de professores universitários e biólogos.

Lembrava-se bem de alguns. Horst Schumann esterilizava homens e mulheres com raios X. Josef não entendia bem a razão por que castrava previamente os machos e sujeitava as fêmeas a ovariectomias. Claus Clauberg implantava fetos de animais nos úteros de mulheres e esterilizava-as, injetando-lhes no sistema genital produtos à base de formol. Friedrich Entress inoculava bacilos de tifo nos judeus aprisionados e matava-os com injeções intracardíacas de formol. August Hirt injetava hormonas nos homossexuais, antes de os abater.  

Uns melhor, outros pior, todos tinham dado o seu contributo para o Reich. Que seria feito deles?

Alguns tinham-se suicidado. Um número restrito fora condenado nos juramentos de Nuremberga. A grande maioria escondera-se durante algum tempo e acabara por regressar para junto das famílias e por se reintegrar na sociedade civil. Tal nunca seria possível para ele, Josef Mengele. Era demasiado conhecido.  

Acabou por passar cinco anos na Serra Negra, sem nunca de lá sair.

Numa noite de 1967 percebeu que tinha sido definitivamente vencido. Nada era como dantes. Já quase ninguém pensava como ele. Não entendia o mundo moderno. Observava na televisão jovens alemães de cabelo comprido a contestar a autoridade. Na América do Norte, viam-se brancos a defender os direitos dos negros. Os artistas alemães contemporâneos desagradavam-lhe e a música psicadélica, no seu entender, afrontava o lirismo de Wagner.

Os amigos desapontavam-no. Rudel não o visitava desde que se mudara para o Brasil. Klaus Barbie, “o carniceiro de Lyon” instalara-se na Bolívia com o nome de Klaus Altman e prosperara. Treinava os oficiais do país nas técnicas de tortura. Declarou-se disposto a acolher Mengele. O antigo médico nazi não aceitou a proposta.

A sua conversa pouco se alterara. Os temas tornaram-se repetitivos: a apologia da raça nórdica, os judeus répteis, a excelência biológica, o povo alemão orgulhoso e heroico …

Os Stammer estavam fartos de o aturar, mas mantinham ligações económicas importantes com ele. Pressionaram-no a vender em conjunto a quinta e compraram, também a meias, uma bela propriedade nos arredores de Caieiras, a cerca de 30 quilómetros de São Paulo.

Mengele tinha quase sessenta anos e viu-se obrigado a segui-los. Mudaram-se no começo de 1969. 

Entretanto, o seu único amigo fiel dos últimos anos, Wolfgang Gerhard, viu a família atingida pelo infortúnio: os exames médicos feitos na Áustria mostraram que a mulher tinha um cancro no estômago e que o filho Adolf contraíra um cancro nos ossos. Sem dinheiro para custear as despesas Gerhard pediu, pela primeira vez, auxílio a Mengele.

O nazi era imune à compaixão. Mostrou-se reticente em interceder junto da sua família, mas acabou por ceder. Não era homem de afetos, mas receava que, em desespero, Gerhard acabasse por revelar aos judeus caçadores de nazis o seu paradeiro.

Adoeceu em julho de 1972. Tinha fortes cólicas abdominais. A sua obstipação habitual agravou-se e acabou por emitir vómitos fecaloides.

Foi obrigado a deixar-se observar por um médico. As radiografias mostraram uma esfera do tamanho de uma bolha de bilhar que lhe obstruía o trânsito intestinal. Foi operado. Retiraram-lhe do intestino uma enorme bola de pelos. A ansiedade e a tendência compulsiva tinham-no levado a mordiscar e engolir, ao longo dos anos, os pelos do bigode. Não haviam sido expelidos. Com o tempo, tinham-se aglutinado até formarem um objeto sólido.

Algum tempo mais tarde, o doente relatou por escrito a sua experiência. Tivera de resistir à tentação de discutir com os colegas o próprio caso clínico. Os seus conhecimentos iriam denunciar a profissão de médico.

Mengele sobreviveu, mas sentia-se abalado. Contatou que envelhecera.

         Com o passar dos anos, Josef Mengele tornou-se ainda mais maçador. Intrometia-se, por carta, na vida dos familiares (alguns dos quais mal conhecia) e exigia constantemente dinheiro e atenção. Na correspondência com o sobrinho, continuava a louvar o Führer e o eugenismo e criticava a República Federal Alemã.

O antigo médico nazi constituía um fardo para a própria família, mas o clã de Günsburg não podia abandoná-lo: se fosse capturado, a revelação dos seus laços com o Anjo da Morte poderia abalar os alicerces da empresa multinacional que faturava anualmente centenas de milhões de dólares e contava com mais de dois mil empregados.

Wolfgang Gerhard achou que Mengele levava uma vida demasiado solitária. Pareceu-lhe conveniente que encontrasse novos amigos e outros companheiros de conversa. Apresentou-lhe um casal de nazis austríacos, Wolfram e Liselotte Bossert. Wolgram fora cabo do exército austríaco e deplorava a humilhação que a Alemanha sofrera no final da guerra. Era conhecido por Musikus, no seu círculo mais chegado. Interessava-se por filosofia e literatura alemã, embora estivesse longe de deter a cultura de Josef Mengele.

A iniciativa de Gerhard resultou e Mengele passou a frequentar regularmente a casa dos Bossert. Jantava com eles quase todas as quartas-feiras. Falavam essencialmente dos “valores eternos” da vida alemã antes da guerra. Partilhavam diversos pontos de vista, incluindo o antissemitismo.

Entretanto, na propriedade de Caieiras, os acontecimentos precipitaram-se. Por motivos fúteis, Mengele deu uma bofetada em Gitta. Geza agarrou Mengele pelo pescoço e correu com ele de casa.

Mengele teve de instalar durante uns dias no domicílio de Bossert, o o seu novo amigo, enquanto Sedlmeier voltava a atravessar o Atlântico para tentar acalmar os Stammer com nova oferta de dinheiro.

Desta vez, a iniciativa não resultou. No final de 1974, os Stammer venderam a propriedade de Caieiras e instalaram-se numa moradia luxuosa em São Paulo. Mengele e o seu cão “Cigano” tinham dois meses para abandonar a casa. Gitta enganou-o: com uma pequena fração da parte que lhe correspondia na venda da propriedade, comprou-lhe uma casinha de estuque em Eldorado, um arrabalde deserdado de São Paulo. Sabia que Mengele não podia recorrer à justiça. Ao menos, ficava próximo da morada dos Bossert.

A casa era demasiado modesta e necessitava de obras. Mengele chamava-se agora Pedro. Ainda começou as reparações, mas faltou-lhe o ânimo.

Detestava o bairro onde passara a habitar: “um covil de pretos e mulatos debochados, de bandidos e de drogados”.

A 16 de maio de 1976, Josef Mengele sofreu um acidente vascular cerebral. Recuperou, mas ficou diminuído. O seu feitio estava cada vez pior. Os seus novos amigos deixaram de ser capazes de o aturar. Puseram um anúncio num jornal: “precisa-se mulher-a-dias, boa cozinheira, paciente e dedicada para um parente idoso”.

Respondeu uma mulher angulosa com cerca de trinta anos. Era Elsa Gulpian de Oliveira. Foi ela quem cuidou de Mengele nos últimos anos de vida.

Entretanto, o seu único filho, Rolf Mengele, adotara um posicionamento político de centro-esquerda. Licenciado em Direito, tornara-se, de certo modo, a ovelha negra da poderosa família Mengele cuja fábrica dominava a pequena cidade de Günsburg desde a primeira guerra mundial.

Ao longo da vida, Rolf convivera com o pai durante apenas algumas semanas.

Procurando uma síntese para as contradições que lhe queimavam a alma, visitou o progenitor no Brasil, em outubro de 1977.


O encontro desapontou-o. Josef Mengele era um homem frio, seco e egoísta. Não sentia qualquer remorso pelas mortes que carregava às costas.

Rolf regressou à Alemanha mais sozinho e triste do que viera.

A saúde de Josef Mengel continuou a piorar. De visita a uns amigos, sentiu-se mal ao nadar na praia da Enseada, junto a Bertioga, perto de São Paulo, e morreu afogado. Estava-se em fevereiro de 1979 e Josef Mengele contara 68 anos.

Foi enterrado em Embu com o nome de Wolfgang Gerhard. Usara durante anos o cartão de identidade do seu antigo amigo.

     Até ao final da vida, Josef Mengele mostrou-se orgulhoso pela sua atuação em Auschwitz.

Sonhara com a notoriedade e alcançou-a. O seu nome dificilmente será riscado das páginas mais negras da História da Medicina.

Os registos das experiências tenebrosas que levara a cabo em Auschwitz valiam muito menos do que ele pensara. Os sacrifícios dos prisioneiros judeus foram inúteis. Dali não saiu qualquer informação que acrescentasse o saber médico.

 

 

 

                   APOIO BIBLIOGRÁFICO

Aziz, Philippe. Os médicos da Morte. Desassossego, Porto Salvo, 2019.

Guez, Olivier. O desaparecimento de Josef Mengele. Planeta Manuscrito, Lisboa, 2028.

Posner, Gerald e Ware, John. Mengele – o médico responsável pelas terríveis experiências de Auschwitz. A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

 

               JOSEF MENGELE



                          III

Instigado pelo pai, que dirigia na terra natal uma florescente empresa de máquinas agrícolas, Josef Mengele aceitou casar-se com a cunhada Martha. Fê-lo, em parte, para herdar uma fatia substancial da empresa familiar e, noutra parte, para se vingar da memória de Karl, o filho segundo e favorito de sua mãe, falecido cedo.

Em 1956, com o nome de Gregor, Mengele conseguiu obter um passaporte válido por três meses e voou para a Suíça num DC-7 da Pam Am. Foi encontrar-se com Martha nos Alpes Suíços.

A viúva do irmão esperava-o num hotel de luxo. Tinha consigo duas crianças: o seu próprio filho, Karl-Heinz, e Rolf, o filho de Mengele. O visitante foi apresentado aos meninos como sendo o tio Fritz, da América. Rolf estava convencido, desde muito pequeno, de que o pai tinha morrido em combate na Rússia. 

                       Josef Mendele com o filho Rolf, ainda muito novo

Martha e Josef Mengele agradaram-se um do outro. Ela parecia ser uma boa mãe e era uma nazi convicta. Não sendo propriamente bonita, era uma mulher sensual de 35 anos. Por outro lado, Mengele apreciou a pontualidade e os bons modos dos dois rapazes. A ligação era possível e poderia ser agradável. Josef e Martha passaram logo juntos a primeira noite no hotel. 

Dez dias depois, Martha e as crianças regressam de comboio a Günsburg, enquanto Josef viajava de automóvel com o seu amigo Seldmeier. Não voltava à terra natal desde novembro de 1944.


                                             Praça de Günsburg

O pai e o irmão procuraram convencê-lo a permanecer. Achavam que a situação, na Alemanha, se alterara consideravelmente. Por outro lado, a família Mengele tornara-se a mais poderosa do burgo.

Josef, contudo, sabia que não podia ficar. O seu nome continuava a constar de uma lista de criminosos de guerra e ele seria reconhecido facilmente em qualquer rua da cidade. A sua vida teria de continuar a decorrer na Argentina, onde Martha e Karl-Heinz se lhe iriam juntar.

Dias depois, apanhou um avião de regresso à capital argentina.

Mengele tinha 45 anos. Pretendia estabilidade e paz. Adquiriu uma casa magnífica em Buenos Aires.

Para voltar a casar e para ter acesso normal ao crédito bancário, necessário para a expansão da sua empresa, era necessário recuperar o seu nome verdadeiro. Helmut Gregor deveria desaparecer.  

Não foi fácil dar a volta à pesada burocracia argentina e conseguir que a verdade fosse reconhecida. Mengele confessou que vivera no país com uma identidade falsa no decurso dos últimos anos. Indicou à Embaixada da Alemanha Ocidental na Argentina o seu nome verdadeiro e as datas que poderiam ter significado para os registos: o do seu nascimento e o do divórcio de Irene Shoenlein. Declarou que nascera em Günsburg e forneceu a sua morada em Buenos Aires. Finalmente, a 11 de setembro de 1956, Josef Mengele passou a ser ele próprio, de acordo com a Embaixada alemã. Cerca de dois meses depois, as autoridades argentinas emitiram-lhe um novo Bilhete de Identidade.

O tempo gastou-se e chegou a altura de Martha e Josef casarem. Escolheram Nueva Helvetia, no Uruguai, para local do evento (civil) e deslocaram-se de avião até Montevideu. À cerimónia, compareceu um número restrito de amigos. Seguiram-se três semanas de lua-de-mel.

No regresso a Buenos Aires, Mengele encontrou na caixa de correio uma convocatória da polícia argentina. Deveria ter-se apresentado na esquadra de Olivos três dias antes.

Mal começara a falar com o seu advogado quando lhe irromperam na casa dois sargentos da polícia. Josef Mengele foi algemado e conduzido à prisão. Era acusado de exercício ilegal de Medicina.

Os médicos alemães residentes na capital Argentina estavam debaixo de fogo. Para agravar a situação, uma rapariga de 15 anos, filha de um grande industrial, morrera dias antes em consequência de um aborto. Ao ser preso, o médico culpado denunciara os colegas à polícia. O nome falso de Mengele, Helmut Gregor, constava na lista.

Gregor-Mengele desculpou-se como pôde. Afirmou que nada tinha a ver com os acontecimentos da Alemanha. Quanto aos abortos, tratava-se de factos antigos e tudo com as suas pacientes tinha corrido bem. Estava arrependido, apesar de muitas vezes se ter tratado apenas de fazer favores a amigos cujas filhas haviam dado maus passos.

Na presença do advogado, propôs um acordo ao oficial da polícia. A resposta imediata foi a detenção.

    Mengele sentia-se mal. A cela da prisão era malcheirosa, a cama tinha piolhos e a comida era difícil de tragar.

       Ao terceiro dia de custódia, foi chamado ao mesmo oficial. Negociaram e chegaram a acordo. A custo de 500 dólares americanos, o processo de Mengele foi guardado no arquivo pessoal do polícia corrupto.

Tudo parecia voltar ao normal.

Não aconteceu assim. Ernst Schnabel publicara meses antes, na Alemanha, um livro intitulado “No rasto de Anne Frank”. A obra teve grande divulgação.

Várias publicações regionais alemãs, entre as quais o diário Ulmer Nachrichten, publicaram excertos do livro. Ulm fica situada a menos de 40 quilómetros de Günzburg, a terra em que Mengele nascera e onde o pai detinha a fábrica de maquinaria agrícola.

Em agosto de 1958, o Ulmer Nachritchen recebeu uma carta anónima e enviou-a à polícia. Mengele pai teria contado à antiga governanta que o filho, em tempos médico de Auschwitz, fugira para a América do Sul.

Mengele assustou-se. Com o afastamento de Perón, a Argentina deixara de constituir um refúgio seguro.

Dirigiu-se apressadamente ao Paraguai. Viajou no seu próprio automóvel e instalou-se em Assunção.

Os amigos germânicos aconselharam-no a comprar terras e a ficar. O Paraguai de Stroessner era semelhante à Argentina de Perón.

                                            Alfredo  Stroessner

Arranjaram-lhe um emprego de distribuidor de um adubo que estava a ter larga divulgação na Europa.

A família veio visitá-lo com regularidade ao longo dos últimos meses desse ano. No entanto, o prazo de validade do seu visto no Paraguai estava a esgotar-se. No início de 1959, Mengele regressou a Buenos Aires.

Iria demorar-se lá pouco tempo. Eduard Wirths, antigo prisioneiro em Auschwitz e Dachau, dedicava-se à caça de nazis. Em 1954, descobrira casualmente o anúncio do divórcio de Josef Mengele e dera conta da participação de um advogado argentino no processo. Convenceu-se de que o antigo médico nazi vivia na Argentina e comunicou as suas suspeitas à justiça alemã. Após várias diligências falhadas conseguiu que, em 1959, o Ministério Público da Alemanha Federal elaborasse um longo processo sobre os crimes do médico carniceiro de Auschwitz. Estava anexado ao mandado de captura datado de 5 de junho.

Josef Mengel é acusado de ter tomado parte, ativa e decisivamente, em triagens nas enfermarias de prisioneiros inaptos para o trabalho no campo devido a fome, privações, exaustão, doença, abusos ou outros motivos, e cuja rápida recuperação não era esperada, ou sobre os que sofriam de doenças contagiosas ou particularmente desagradáveis à vista, como certas afeções cutâneas.

Os selecionados eram abatidos por meio de injeções letais, fuzilados, ou mortos através de dolorosa sufocação por ácido cianídrico nas câmaras de gás, de modo a arranjar lugar para os prisioneiros “aptos”, selecionados por ele ou por outros médicos SS, da forma acima mencionada. Ministradas pela sua própria mão ou por agentes sanitários das SS sob sua supervisão, as injeções letais introduziam fenol, petróleo, evipal, clorofórmio ou ar na circulação sanguínea, em especial no coração. Também foi acusado de supervisionar triagens no campo ou na enfermaria, quando os referidos agentes ou ele próprio atiravam cristais de Zylon B (uma forma de ácido cianídrico) para as condutas de ventilação dos quartos onde se amontoavam os condenados à morte.

O arguido Josef Mengel é acusado de ter realizado experiências científicas em prisioneiros vivos para publicação académica, movido pela sua ambição e pela progressão da sua carreira profissional. À luz do método usado nas experiências, ele tinha, em absoluto, a intenção de que as vítimas morressem e dava pouco valor às suas vidas. Muitas vezes, morreram apenas para fazer avançar os seus conhecimentos científicos e a sua formação académica. 


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

                  

                 JOSEF MENGELE

 



                           II

Durante a II Grande Guerra, Buenos Aires constituiu o principal ponto de apoio da Alemanha nazi na América do Sul. Os serviços de espionagem alemães tinham estabelecido ali um Quartel-general.

Perón e os coronéis que, através de um golpe de estado, tomaram o poder no ano de 1943, tinham pretendido aliar-se ao Führer. Foi na capital argentina que se organizou, em 1943, o derrube do governo boliviano pró-americano.

Perón fora aluno de oficiais do exército alemão. Admirava os estrategas prussianos. Mais tarde, deslumbrou-se com Mussolini. Durante perto de dois anos, foi adido militar da embaixada argentina em Roma.

                                   "Evita" e Juan Perón

Já durante a guerra, após a invasão-relâmpago da Polónia, visitou Berlim e a frente Leste. Lera o Mein Kampf na juventude. Via a Alemanha erguer-se do novo. Os alemães trabalhavam em boa ordem, ao serviço de um Estado bem organizado.

De regresso à Argentina, elaborou uma visão muito pessoal do conflito que assolava o mundo. A Itália fascista e a Alemanha nazi constituíam uma alternativa válida ao capitalismo e ao comunismo.

       Após a derrota das potências que admirava, Juan Perón pôs-se a fazer profecias. Contava que os soviéticos e os americanos se aniquilassem mutuamente com armas atómicas. Era a oportunidade para um país da América do Sul se afirmar no mundo.

        Por volta de 1940, os argentinos orgulhavam-se de ter mais de metade dos telefones, televisores e linhas férreas da América do Sul. Aproveitando os vastos recursos naturais, eram o povo com melhor nível de vida a sul dos Estados Unidos. Detinham também as taxas mais elevadas de alfabetização.

Existia na Alemanha uma pequena multidão de cérebros desempregados. Com a ajuda deles, a Argentina poderia modernizar-se. Haviam de construir-se barragens, centrais nucleares e mísseis. O seu país natal poderia converter-se numa superpotência.

Para alimentar essa utopia, Perón criou em Buenos Aires o Gabinete de Informação, dirigido por Rudi Freude, filho do rico banqueiro nazi Ludwig Freude, que contribuíra decisivamente para que ganhasse as eleições presidenciais de 1946. Foi organizada uma vasta rede de evacuação de criminosos de guerra europeus. Alguns sectores da Igreja apoiaram-na; era preciso enfrentar o comunismo ateu.

Foi assim que Perón abriu as portas a milhares de nazis, fascistas e colaboracionistas; entraram na Argentina militares, engenheiros, cientistas, técnicos, médicos e muitos criminosos de guerra. As ruas de Buenos Aires encheram-se de reacionários vencidos. Poderiam ser úteis para desenvolver o país.

Encontrava-se ali o rebotalho da Europa. Para além de nazis alemães e de fascistas italianos, havia oustachis croatas, ultranacionalistas sérvios e membros da Cruz Flechada húngara. Juntavam-se-lhes vichyistas franceses, rexistas belgas, falangistas espanhóis e católicos integristas.

 Não era apenas o interesse em mão-de-obra diferenciada que movia o governo peronista. A operação Aktion Feuerland (operação Terra-do-Fogo) consistira no transporte por seis submarinos alemães de um tesouro em divisas, ouro, platina, pedras preciosas e diamantes que foi recolhido por quatro intermediários alemães (incluindo o banqueiro Ludwig Freude) e depositado no Banco Germânico e no Banco Tornquist em nome de Eva Duarte, mais tarde celebrada como Eva Perón. Todos esses intermediários conheceriam mortes violentas, no decurso dos anos seguintes.

Foi para a Argentina que Josef Mengele se dirigiu. Viajou com um passaporte falso que tinha o nome de Helmut Gregor, a bordo do North King, onde seguiam numerosos emigrantes e refugiados. Havia ali italianos, alemães e judeus. O destino juntava sonhos díspares no mesmo convés.

Kurt, o seu passador em Génova, garantira-lhe que um alemão estaria à sua espera no cais, para o conduzir a casa de Malbranc, um antigo agente dos serviços de contraespionagem nazis que lhe daria proteção. Ao desembarcar, Mengele verificou que ninguém o aguardava. Juntou-se a dois calabreses e partilhou com eles um quarto numa pensão barata.

De manhã, tentou contactar Malbranc por telefone, mas não obteve resposta. Chamou um táxi e dirigiu-se a casa do compatriota. Não estava lá ninguém.

Kurt fornecera-lhe outro contacto: era Friedrich Schlottman, alemão proprietário de uma empresa têxtil. Procurou-o. Ausentara-se e deveria tardar alguns dias.

Embora trouxesse dinheiro que lhe permitiria pagar um hotel confortável, continuou na companhia dos calabreses. Entendia-os mal, mas percebeu que eram veteranos fascistas da conquista da Abissínia.

Mengele contava da lista americana dos criminosos de guerra. A esposa, Irene, recusara ir ter com ele à Argentina e ficara na Alemanha com Rolf, o filho de ambos. O pai mal conhecia o pequeno Rolf. Foi informado de que Irene ia tendo as suas aventuras.

Os dólares que trouxera não iriam durar sempre. Precisava de um emprego. Estudou cuidadosamente o mapa de Buenos Aires e forçou-se a aprender cada dia cem palavras de espanhol.

Acabou por se aproximar da revista mensal ultrarreacionária Der Weg e foi conhecendo outros nazis. Aproximou-se de Josef Schwammberger, que dirigira campos de trabalhos forçados e exterminara vários ghettos na Polónia, e de Willem Sassen, um jornalista que se alistara como voluntário num grupo de SS holandeses. Batera-se na frente russa e penetrara no território soviético até ao Cáucaso, onde tinha sido ferido com gravidade. Fora preso na Holanda por colaboracionismo, mas conseguira fugir e tornara-se consultor de relações públicas do ditador Stroessner, do Paraguai.   


                                                                     Hans Rudel

Mengele conheceu mais tarde o coronel Hans Ulrich Rudel, o ás dos ases da Luftwaffe, o piloto mais condecorado da Alemanha. Cumprira 2530 missões, destruíra 532 tanques inimigos e afundara um cruzador e um couraçado. Apesar de ter ficado sem uma perna, continuava a praticar alpinismo. A sua rede de influência iria ajudar repetidas vezes os propósitos de Josef Mengele.

Mengele, que se apresentava como Helmut Gregor, apenas se atrevia a revelar uma parte do seu currículo de vida. Era Hauptsturmfuhrer (capitão). Filiara-se no partido nazi em 1937, e na associação dos médicos nazis e nas SS um ano mais tarde. Iniciara o serviço militar no Tirol, numa unidade de caçadores alpinos. Alistara-se como voluntário nas Waffen-SS, e trabalhara no Gabinete Central de Repovoamento e de Raça na Polónia ocupada. Após o desencadear da Operação Barbarrossa seguira com a Divisão Viking. Estivera colocado na Ucrânia e participara na ofensiva do Cáucaso, na batalha de Rostov do Don e no cerco de Bataisk. Fora agraciado com a Cruz de Ferro de primeira classe.

O tempo foi passando e Mengele adaptou-se a Buenos Aires, que era a cidade mais avançada da América Latina. Tinha dezoito jornais diários, incluindo três em língua alemã. Funcionavam ali quase meia centena de teatros, além do Teatro Colón, dedicado à ópera e à música clássica.

No entanto, a Argentina enfermava de graves problemas. Existiam diferenças profundas entre os pobres, que eram a maioria, e a elite constituída pelos grandes criadores de gado que governavam efetivamente o país. Na capital, quase ao lado dos bairros ricos, pululavam as villas miséria, bairros de lata que abrigavam em condições precárias meio milhão de despojados da fortuna.

Mengele precisava de garantir o seu sustento. Aceitou um emprego como carpinteiro no bairro Vicente Lopez. Não se sabe como obteve as qualificações para o lugar.

Entretanto, conseguiu contactar Gerard Malbranc, que o acolheu na sua luxuosa moradia, situada num subúrbio elegante da capital argentina.

A família que, no pós-guerra, continuava a prosperar em Günsburg, apoiava-o com generosos envios de dinheiro. Mengele associou-se a outros antigos nazis. Compraram, em conjunto, um laboratório farmacêutico. Os negócios começaram a correr bem.

Em 1952, Willem Sassen apresentou Josef Mengele a Adolf Eichmann. Viviam ambos na Argentina com identidades falsas, mas o jornalista designou-os pelos nomes autênticos.


                                         Eichmann no seu julgamento

Os dois criminosos nazis não gostaram um do outro.

Eichmann considerava-se superior e era-o, seguramente, em termos históricos. Fora o grande coordenador do Holocausto e privara com Himmler, Göring e Heydrich. Conhecera demasiados oficiais superiores para ser capaz de dar importância a um mero capitão médico.

Mengele achou-o decadente, gordo e mal-arranjado. Ainda por cima, tinha a mão húmida e não era capaz de dar um aperto firme. Por outro lado, Eichmann vivia pobremente, enquanto Mengele continuava a ser apoiado pela sua próspera família.

De vez em quando, o antigo médico de Auschwitz abria uma parte do coração aos amigos alemães. Gostava de contar como socorrera dois membros da tripulação de um tanque em chamas. Lamentava a sorte, o exílio, a pátria ocupada e as saudades do uniforme.

Josef Mengele teria as suas fraquezas, mas era dado mais ao ódio de que ao amor.

Nunca o dissera a pessoa alguma, mas detestava a mãe, quase desde que deixara de mamar. Com os anos e com o exílio, o seu coração não tinha amolecido. Havia poucas pessoas no mundo a quem dedicasse um carinho verdadeiro. Quando soube da morte do seu irmão Karl, quase se alegrou.

O divórcio de Irene fora uma golpada funda no seu orgulho. Restava-lhe seguir em diante e aproveitar da vida o que ela tivesse para lhe dar.

Em 1953, Perón escapou por pouco a um atentado. A Argentina entrou numa prolongada crise financeira. A inflação agravou-se, reduzindo os salários reais dos trabalhadores. Após a morte de Evita, cujo corpo fizera embalsamar, el líder perdera o norte. Comia demasiado e organizava orgias com raparigas muito novas. Deixou-se engordar. Passara a ser chamado el Pocho, o gordo.

Em junho de 1955, rebentou uma rebelião militar contra o seu governo. Perón ainda aguentou esse primeiro assalto, mas a igreja retirara-lhe o apoio. Não admirava: Juan Perón legalizara o divórcio e a prostituição e permitira a instalação de diversas seitas religiosas no país. Havia padres presos e igrejas saqueadas.

A 16 de setembro, a Marinha de Guerra, liderada pelo almirante Isaac Rojas, bloqueou Buenos Aires. Perón demitiu-se e refugiou-se no Paraguai. Depois de algumas semanas de confusão, o poder ficou nas mãos do general Aramburu que procurou riscar da memória dos argentinos os inúmeros testemunhos do consulado de Perón.

Com o eclipse do seu protetor, os nazis perderam o conforto de que gozavam na Argentina. Muitos começaram a pensar instalar-se no Paraguai.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

 


       JOSEF MENGELE





I

Não houve deuses entre os médicos. Apolo e Imhotep não se registaram nas nossas associações profissionais. Há conhecimento de alguns santos. Quanto aos demónios, consta que se espalharam pelo mundo. Alguns terão vestido a bata branca.

Vou debruçar-me sobre a figura de Josef Mengele, o Anjo da Morte. O seu percurso profissional constitui provavelmente a nódoa mais negra nos pergaminhos da milenar História da Medicina.  

Mengele nasceu a 16 de março de 1911 em Günzburg, uma pequena cidade da Baviera, situada perto do rio Danúbio. Era o filho mais velho de Karl e Walburga Mengele. Tinha dois irmãos, Karl Jr. e Alois. Morreria afogado no Brasil, na praia de Enseada, próximo de São Paulo, em 1978.

O pai, engenheiro, era proprietário de uma fábrica de equipamentos agrícolas que prosperou entre as duas grandes guerras e acabou por se tornar na principal empregadora da região.

Quando Josef fez dez anos, o pai ofereceu-lhe um microscópio.

       O puto não o largava. Sonhava vir a ser famoso, como o médico Robert Koch que identificara o bacilo da tuberculose, ou o químico August Kekulé que descobrira a tetravalência do carbono e a fórmula do benzeno.

        O rapazito cresceu sem paz no coração. Detestava a mãe, Walburga, mas herdara dela a pobreza das emoções e a frieza nos contactos. Abominava em especial o seu irmão Karl, favorito da mãe.

Josef era um jovem tenaz e ambicioso. Decidiu cedo abrir no mundo o seu próprio trilho. Bom aluno, sem alcançar a distinção, quando chegou a altura de escolher profissão optou pela Antropologia e pela Genética. Em outubro de 1930, deixou a casa paterna e foi estudar para Munique, a capital bávara. Matriculou-se nas Faculdades de Filosofia e de Medicina.

Na altura, Munique era um viveiro de nazis. Hitler era venerado. Culpava repetidamente os judeus corruptos de Berlim pela rendição da Alemanha que pusera termo, de forma vergonhosa, à Primeira Guerra Mundial. Pregava o ultranacionalismo e pretendia exterminar a “praga judaica” e valorizar a superior raça alemã.

Em março de 1931, Mengele aderiu à ala juvenil dos Stahhelm, uma organização de antigos combatentes. Entraria para o partido nazi apenas seis anos mais tarde.

O rapaz descobriu depressa que o estudo das raízes culturais do homem lhe interessava mais do que o tratamento dos doentes.

A eutanásia era vivamente discutida pelos seus colegas e por alguns professores. A noção de que existiam vidas que não mereciam ser vividas ia-se fazendo popular na Universidade.

Tudo o que de importante se passou na sua vida foi delineado nessa altura. Dez anos depois, Mengele fazia experiências com os prisioneiros do campo de concentração como se de cobaias se tratasse.

Uma das pessoas que o influenciou mais cedo foi o Dr. Ernst Rüdin. O psiquiatra proclamava abertamente nas suas palestras que os médicos tinham o dever de destruir as vidas desprovidas de valor. Rudin foi um dos mentores da Lei de Proteção da Saúde Hereditária que seria aprovada pelo governo nazi poucos meses depois da subida de Hitler ao poder. A Lei impunha a esterilização dos doentes que sofriam de uma série de doenças, quase todas de fundo genético. A lista incluía a esquizofrenia, a psicose maníaco-depressiva, a cegueira e a surdez hereditárias, algumas deformidades físicas e, até, a epilepsia e o alcoolismo.

A besta soltou-se e percorreu a Alemanha. Os programas de eutanásia desenvolveram-se. Começaram pela “morte caridosa” dos doentes mentais incuráveis. Evoluíram rapidamente para os assassínios em massa de ciganos, eslavos e judeus, povos que os nazis consideravam biologicamente inferiores. Quando foi anunciado o propósito do extermínio de todos os judeus da Europa, a chamada Solução Final, poucos alemães ficaram surpreendidos com a notícia.

Ao longo da década de 1930, Josef Mengele estudou em Munique, Viena e Frankfurt. Trabalhava muito e deu nas vistas de alguns intelectuais da época, como Eugene Fischer, eugenista que acompanhara o genocídio de hereros e namas da Namíbia (na altura o Sudoeste Africano, protetorado alemão), e do professor Mollinson, especialista em hereditariedade e higiene racial, que acabaria por orientar a sua tese de licenciatura. Mollison recomendou-o ao barão Otmar von Verschuer, especialista no estudo dos gémeos e grande admirador de Adolf Hitler.

Mengele tornou-se o aluno preferido do professor. Aos 26 anos, foi nomeado assistente de pesquisas no Instituto do Terceiro Reich para a Biologia e a Pureza Racial.

O jovem alimentava a ambição de se tornar professor universitário. Pretendia formar-se em Medicina e doutorar-se em Antropologia. No verão de 1936, fez, em Munique, os exames finais de Medicina. Aprovado, empregou-se no Hospital Universitário de Leipzig.

Conheceu então Irene Schoenbein, que se tornaria a sua primeira mulher.

Irene era alta, loira e bonita. Josef Mengele era elegante e media 1,74 de altura, o que não era muito para um alemão do sexo masculino. Tinha a pele relativamente morena, os olhos cor de avelã e o cabelo castanho-escuro. Fisicamente, não correspondia ao arquétipo do ariano puro.

Em maio de 1938, Mengele foi admitido nas SS (Schutzstaffel, força de elite do exército nazi alemão), depois de ver vasculhado o passado de quatro gerações, para garantir que a família Mengele estava livre de sangue judaico. É quase impossível não recordar aqui as leis da pureza da raça implementadas em Portugal quatro séculos atrás. O espírito esclarecido do grande Marquês de Pombal pôs-lhes fim em 1773 e permitiu a pacificação da sociedade portuguesa e o estabelecimento de igualdade de oportunidades para todos os cidadãos nacionais.

A entrada nas SS obrigava a uma formação básica de três meses na Wehrmacht, o exército regular alemão. Sendo vaidoso, Mengele recusou tatuar o grupo sanguíneo na pele, como era costume dos recrutas.

     Terminado o período de formação, e após um estágio com a infantaria de montanha onde pode exibir as habilidades de esquiador, regressou ao Instituto de Frankfurt, para continuar as suas investigações sob a direção do professor Von Verschuer.

     Em julho de 1939, Josef casou com Irene Schoenbein,

   Cinco semanas após o casamento, rebentou a guerra. Mengele parecia ansiar por ela. Em 1940, ingressou no exército. Um problema renal obrigou-o a esperar alguns meses até ser colocado numa unidade regular.

        Em Agosto, entrou para as Waffen SS e foi colocado na Polónia ocupada.

    Experimentaria pela primeira vez a dureza do combate em junho de1941, quando foi transferido para a Ucrânia. Demonstrou valentia e sangue frio. Cedo recebeu a Cruz de Ferro de Segunda Classe.

   Em janeiro de 1942, Mengele ingressou no corpo médico da divisão Viking das Waffen SS. O seu destacamento penetrou profundamente no território soviético. Em julho, a divisão avançou para a frente de combate e ajudou a conquistar Rostov e Bataisk. A batalha foi sangrenta e demorou cinco dias. Mengele retirou dois soldados feridos de um tanque em chamas, sob fogo inimigo, e prestou-lhes os primeiros socorros. Foi então agraciado com a Cruz de Ferro de Primeira Classe.       

   No final desse ano, seria promovido a Haupsturmführer (capitão) e colocado em Berlin.

Alguns meses mais tarde, von Verschuer foi nomeado diretor do Instituto Kaiser Wilhelm de Berlim para a Antropologia, o ensino da Hereditariedade Humana e a Genética.

Verschuer detinha uma influência considerável junto do poder. Conseguiu transferir Mengele da Rússia para Berlim.

Considerou que existiam condições únicas para a investigação prática e enviou o seu discípulo Mengele para Auschwitz. Chamou-lhe “o maior laboratório da História”.

Em Auschwitz funcionara uma instalação militar do exército polaco. Himmler escolheu-a para local de um enorme campo de concentração e de extermínio, por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar, figurava a proximidade de grandes vias de comunicação. Em segundo, a sua situação afastada, com uma população dispersa, permitia camuflar até edifícios de dimensão apreciável.  

Mengele chegou ao campo em maio de 1943. Encontrou uma vasta cerca de arame farpado e eletrificado situada num vale, a uma hora de viagem de Cracóvia, no sul da Polónia.




Quando o médico chegou, o campo encerrava perto de 140 mil prisioneiros e dispunha de vários crematórios e câmaras de gás. Rudolf Höss, o comandante do campo, gabava-se de terem sido ali gaseados num único dia nove mil judeus. É desconhecido o número total de prisioneiros assassinados nas suas instalações. Terá sido entre 1,1 e 1,3 milhões.

Ao campo central, Auschwitz I – Stammlager, estavam associadas duas unidades: Auschwitz II – Birkenau e Auschwitz III – Monowitz.

O jovem médico judeu húngaro Miklos Nyiszli foi abordado por Mengele na própria gare da estação, ao descer de um comboio de deportados, em maio de 1944. A sua especialização em Anatomia Patológica tornava-o útil para o médico nazi, que o escolheu para seu assistente pessoal. Nyiszly descreveu assim Auschwitz, à chegada:

Vi uma imensa chaminé em tijolo vermelho, de base quadrada e afunilando para o topo. Fiquei particularmente impressionado pelas enormes línguas de fogo erguendo-se entre as hastes dos para-raios. Tentei imaginar que infernal cozinhado exigiria tão tremendo fogo. Depois, um vento ligeiro soprou o fumo na minha direção. O nariz e depois a garganta encheram-se do nauseante odor de carne queimada e cabelos a arder.

Nyisly escreveu, logo a seguir:

No interior do campo vislumbro homens com o fato listrado dos forçados. Uns transportam pranchas, outros cavam com pás e picaretas. Ao longo das vedações, a espaço de 30 ou 40 metros, erguem-se torres de vigia. Em cada uma delas, encontra-se um soldado SS por detrás de uma metralhadora montada num tripé.

Auschwitz funcionava essencialmente como local de extermínio, mas era também um campo de trabalho escravo que fornecia mão-de-obra às companhias alemãs empenhadas no esforço de guerra. Os prisioneiros mais robustos eram forçados a trabalhar até à exaustão.

Mais de 30 grandes companhias alemãs beneficiaram do trabalho escravo. Entre elas contam-se algumas bem conhecidas: a Krupp, a AEG Telefunken, a Siemens e a Bayer.

Poucos dias depois de chegar, Mengele teve oportunidade de exibir a sua frieza e a sua determinação. Ocorreu um surto de tifo numa das casernas. O médico resolveu o problema fazendo gasear mais de mil ciganos e ciganas suspeitos de serem portadores da doença.

Repetiria a proeza perto do final do ano. Dessa vez, o tifo instalara-se no campo de mulheres, em Birkenau, na altura sob o controlo de Mengele. O procedimento foi descrito pela Dra. Ella Lingens, uma médica austríaca que serviu ali durante algum tempo:

Mengele enviou para a câmara de gás uma camarata inteira de 600 judias e mandou desinfetar as instalações de alto a baixo. Depois, fez colocar banheiras enormes entre essa camarata e a seguinte. As mulheres dessa camarata foram desinfetadas e transferidas para a camarata limpa, onde receberam uma camisa de noite nova. A camarata seguinte foi tratada do mesmo modo e assim por diante, até terem sido todas desinfetadas. Acabou-se o tifo em Birkenau.

O desprezo do médico nazi pela vida humana deu repetidamente nas vistas. No final de 1944, os alimentos escassearam, deixando de ser possível alimentar, mesmo com uma dieta de poucas calorias, as 40.000 mulheres do Campo C de Birkenau.

Mengele resolveu o problema à sua maneira. Cada noite, uma coluna de camiões transportava mulheres para as câmaras de gás. Foram executadas diariamente quatro mil. Os gritos de pavor das condenadas não impressionavam o clínico. Ao fim de dez noites tinham sido assassinadas todas as ocupantes dos pavilhões.

Aos 32 anos, Josef Mengele era um homem preocupado com a aparência pessoal. Apresentava-se bem penteado e com a barba impecavelmente feita. Envergava o dólman verde-escuro cuidadosamente passado a ferro e trazia as botas luzentes de graxa. Usava o quépi com a caveira das SS ligeiramente inclinado para um lado.




Na gare onde eram recebidos e triados os judeus vindos de toda a Europa sob controlo nazi, os encarregados da escolha aceitavam mal a incumbência e apresentavam-se geralmente embriagados. Mengele destoava do conjunto. Mantinha-se sóbrio, a sorrir e a assobiar alguns compassos da Tosca. No seu modo de ver, a piedade era uma fraqueza. Um homem superior não devia permitir que os sentimentos lhe afetassem a ação.

Cultivava, no entanto, a pose. Apoiava a mão esquerda no cinturão e, de pernas um pouco afastadas, passava os prisioneiros em revista. Com um movimento do pingalim empunhado pela sua mão enluvada, decretava a sorte das vítimas. Os recém-chegados não sabiam que estavam a ser sujeitos a um julgamento sem possibilidade de recurso. As sentenças eram salomónicas: morte à esquerda, vida à direita. Indicava a esquerda aos que iriam ser enviados de imediato para as câmaras de gás. À direita ficava a vida ou, pelo menos, a morte lenta, após uns tantos meses em trabalhos forçados.

Ele e os outros médicos do campo mandavam para as câmaras de gás os velhos, os deficientes, os muito jovens e as mulheres com crianças. Os fisicamente aptos trabalhavam até não poderem mais. 

         Outro médico que fazia a triagem entre a vida e a morte sem necessidade de se embrutecer com álcool era o Dr. Fritz Klein. Odiava todos os judeus desde que um, anos antes, lhe seduzira a noiva.

Mengele terá enviado para cremação cerca de 400 mil seres humanos. Incluíam bebés, crianças, rapariguinhas e idosos. Era o principal fornecedor das câmaras de gás e dos crematórios do campo de concentração.

Encaminhava uns tantos para o laboratório. Era, no seu entender, o maior do mundo e alimentava-se de “material humano adequado”: anões, gigantes, malformados, gémeos. Os gémeos eram um dos objetos preferenciais das suas pesquizas e foram submetidos a tormentos inimagináveis. Crianças presas a lajes de mármore eram lancetadas, sujeitas a punções lombares, injetadas nos olhos e nos órgãos internos com produtos químicos mal conhecidos. Não havia preocupações com a anestesia.

       Mengele pretendia aprender a criar gémeos com características arianas geneticamente manipuladas. Desejava conseguir que uma mulher alemã, ao engravidar, pudesse fornecer duas novas crianças da raça superior, em vez de uma. Era necessário tornar os alemães mais fecundos, de modo a poderem, um dia, povoar de camponeses-soldados os territórios do Leste arrancados aos eslavos. A “raça nórdica” deveria multiplicar-se. O médico desejava produzir super-homens. Os anões interessavam-no pela negativa, com a finalidade de proteger o povo germânico daquela aberração.


  Família de irmãos romenos (sete), ao chegarem a Israel em 1949,  depois de terem sobrevivido a Auschwitz


Josef Mengele, guardião da pureza da estirpe, sonhava com uma brilhante carreira académica e, finda a guerra, com o reconhecimento do Reich vitorioso.

O barão Otmar von Verschuer apoiava as suas pesquisas e ajudava a financiá-las. Mengele punha-o ao corrente dos resultados das experiências e enviava-lhe regularmente amostras dos tecidos colhidos: sangue, órgãos diversos, medula óssea e olhos. O zelo do médico estropiador foi compensado com a atribuição de uma cruz de guerra com espadas.

       Há diversos testemunhos de uma imensa crueldade, ou apenas do total desrespeito do médico nazi pela vida humana.

       O doutor Miklos Nyiszli revelou que Mengele chegou a fazer matar 14 gémeos numa só noite. A doutora Olga Lengyel revelou um episódio particularmente sórdido. Josef Mengele supervisionou cuidadosamente o nascimento de uma criança. Uma hora depois, desinteressou-se do caso e enviou a mãe e o bebé para a câmara de gás.

       Mendel confidenciou um dia à Dra. Lingens, médica judia que, no seu entender, só havia no mundo dois povos com aptidões, os alemães e os judeus. A questão era saber quem viria a ser superior. Por isso, os hebreus deveriam ser destruídos.

       De maio de 1943 a janeiro de 1945, Josef Mengele foi o Anjo da Morte em Auchwitz. Procurava ajudar a cumprir os desígnios de Heinrich Himmler, o seu chefe supremo.

       Ao longo do ano de 1944, os SS queimaram homens, mulheres e crianças, por vezes ainda vivas. Os crematórios tinham pouco descanso. Mais de trezentos e vinte mil judeus húngaros foram exterminados em menos de oito semanas.

Húngaro e judeu era o médico-legista Miklós Nyisli. Durante a primavera e o verão de 1944, foi obrigado a recolher as cabeleiras e a arrancar os dentes de ouro dos cadáveres gaseados, antes de serem metidos nos fornos crematórios. Fora alistado nos Sonderkommandos, os mortos-vivos. Foi a mão operante de Mengele. Abria os crânios e os tórax dos escolhidos por Josef Mengele para as suas experiências. O chefe não gostava de sujar muitas vezes as mãos. 

Nyisli sobreviveu ao pesadelo e redigiu as suas memórias. O seu livro intitulou-se “Médico em Auschwitz” e foi publicado primeiro na Hungria. A edição francesa saiu em 1961.

Conta que Mengele considerava um dever patriótico o envio de judeus para as câmaras de gás.

No barracão de experiências do campo cigano eram praticadas nos infelizes ali admitidos todos os exames médicos imagináveis. Faziam-se punções lombares desnecessárias e procedia-se a trocas de sangue entre gémeos. Dava jeito, para o estudo comparativo dos órgãos, que os gémeos morressem ao mesmo tempo. Mengele encarregava-se disso numa das barracas do sector B de Auschwitz. Injetava-lhes clorofórmio no coração. Os órgãos recolhidos eram enviados para o Instituto Kaiser Wilhem de Berlin, dirigido pelo professor Von Verscher.

O nome de Mengele fazia tremer os prisioneiros. O médico mostrava-se geralmente de bom humor e parecia contente com o que fazia.

Quando ocorreu um surto de escarlatina num barracão ocupado por judias húngaras, Mengele mandou enviá-las para o crematório. Eliminava assim, ao mesmo tempo, a doença e os doentes. Recorrera anteriormente a esse procedimento em casos de tifo. Escreveu Nyisli:

Com uma calma gelada, Mengele mandava-me abrir os cadáveres dos inocentes enviados para a morte. As bactérias eram cultivadas em estufas elétricas e alimentadas com carne humana fresca.

Relatou, mais adiante:

Um dia, desceram de um comboio um pai corcunda e um filho coxo, dois judeus do gueto de Lotz. Mal os viu na rampa, Mengele mandou-os sair da fila de despachou-os para o crematório. Depois de medidos por Nyiszli, os judeus tomaram a última refeição, antes de os SS os obrigarem a despir-se, para então os matarem a tiro.

Nem todos os cadáveres eram incinerados. Mengele enviava alguns esqueletos para o Museu de Antropologia. Selecionou aqueles dois. Conheciam-se duas alternativas para libertar os ossos da carne. Os corpos podiam ser mergulhados em cloreto de cálcio, que consumia as partes moles em cerca de duas semanas. A outra escolha era cozê-los em água a ferver até que a carne se desligasse. Depois, os esqueletos eram colocados em tanques com gasolina. O resto das gorduras era dissolvido e os ossos ficavam limpos e brancos.

Mengele preferia a cozedura, que era mais rápida.

       Preparam-se as fogueiras, barricas de ferro são postas sobre o lume e nestes caldeirões cozinham os corpos do corcunda e do coxo, o pai e o filho, esses modestos judeus de Lodz. Ao cabo de cinco horas, as partes separavam-se facilmente dos ossos.

        Nyiszly mandou apagar o lume. As barricas ficaram ali a arrefecer.

Naquele dia, o crematório não funcionou. Era necessário reparar as chaminés. Um grupo de pedreiros internados foi chamado para esse trabalho.

Às tantas, um dos assistentes do médico judeu entrou a correr no aposento.

̶  Doutor! Os polacos estão a comer a carne das barricas!

Nyiszly levantou-se a correr. Quatro prisioneiros com o uniforme às riscas alimentavam-se da carne do corcunda e do seu filho coxo. Esfomeados, julgavam que se tratava de alimentos destinados aos Sonderkommandos. Os polacos ficaram estarrecidos ao saber o que tinham comido.  

No outono de 1944, quando a guerra já estava perdida para a Alemanha, Josef Mengele deixou-se ficar algum tempo no campo de concentração, enquanto os russos avançavam no terreno. Estaria à espera de um milagre. Continuou a entrar pontualmente na sala de exames do crematório. Permanecia horas ao lado do colega judeu, ora de bata branca e de mãos ensanguentadas a trabalhar de pé, na mesa de dissecção, ora atento aos microscópios e às provetas. Era ali que se descontraía. A atmosfera estava carregada do cheiro da carne e dos cabelos que ardiam. Ouviam-se os gritos de morte e o crepitar dos tiros.

Mesmo em dezembro desse ano, ainda fez experiências. No dia 5, levou 16 anãs do hospital para o laboratório e sujeitou-as aos seus perversos processos de experimentação. Sabe-se que cinco sobreviveram. Supõe-se que as restantes tenham morrido.

Josef Mengele abandonou Auschwitz a 17 de janeiro de 1945. Antes, reuniu os seus dados pessoais. Incluíam uma crónica cuidada dos resultados do seu trabalho no campo de concentração. Achava que esses registos seriam a chave para o sucesso e para a fama. Conservou-os consigo enquanto andava escondido, consciente de que a sua divulgação lhe poderia custar a vida.

Quando abalou, os disparos de artilharia do Exército Vermelho já soavam perto.

Mengele fugiu para oeste. Passou pelo campo de concentração de Gross Rosen, na Silésia, e acabou por se juntar a uma unidade da Wehrmacht em retirada.

Esteve algumas semanas na Checoslováquia. Seguiu depois para Saaz, na região dos Sudetas e deu com um hospital de campanha alemão motorizado. Teve a grata surpresa de encontrar o seu colega e amigo Dr. Hans Kahker. Aconteceu no dia 2 de maio de 1945, a data em que a rádio anunciou o suicídio de Adolf Hitler.  

Mengele integrou-se na unidade hospitalar como médico internista. Relacionou-se então intimamente com uma jovem enfermeira alemã. Quando julgou estar prestes a ser capturado, confiou-lhe a guarda dos seus manuscritos.

Foi recuperá-los antes de partir para a América Latina. Considerava-se um cientista com estudos avançados sobre o eugenismo. Acreditou toda a vida na supremacia da raça alemã.

Mengele e os seus companheiros tentaram escapar aos exércitos aliados, mas acabaram por ser capturados pelos norte-americanos perto da cidade de Weiden. Embora o seu nome figurasse desde abril desse ano na lista dos criminosos de guerra, as comunicações oficiais americanas eram deficientes. Com o seu nome verdadeiro, Josef Mengele acabou por ser libertado e conduzido até à cidade bávara de Ingolstadt. Encontrava-se relativamente perto de casa. Dirigiu-se então, de bicicleta, a Donauwörth, à procura de um antigo condiscípulo, o veterinário Albert Miller. Pediu ao amigo que contatasse a família, em Günzburg.

Entretanto, Miller foi preso pelos americanos. Mengele teve muita sorte nesse dia. Estava escondido num compartimento das traseiras da casa, na altura da detenção, e não foi procurado. Assustou-se, mas não em demasia. Ainda teve ânimo para fazer a perigosa viagem até à zona soviética, a fim de recuperar os documentos que deixara à guarda da sua amante enfermeira. Teve o cuidado de não a incriminar, nunca lhe revelando o nome na biografia que mais tarde redigiu.

Irene Mengele não teve notícia do marido durante quase todo o ano. Presumia que ele estivesse aprisionado ou morto.

Mengele dirigiu-se a Munique, onde morava um amigo seu de confiança. Tratava-se de um romeno de etnia alemã, farmacêutico, que tinha servido com ele em 1942, na divisão Viking, quando lutara na frente oriental.

Foi bem recebido e teve tempo de recuperar forças.

De amigo em amigo, Josef Mengele acolheu-se à proteção do médico Vieland e de sua mulher Annalise. São os nomes de código que figurar nos seus registos.

O médico nazi precisava de ganhar a vida. Eram muitas as famílias que tinham perdido homens durante a guerra e as quintas tinham falta de mão-de-obra. A 30 de outubro de 1945, Mengele, com o nome falso de Fritz Hollman, empregou-se como trabalhador agrícola na propriedade de Georg e Maria Fisher, em Rosenheim. Ganhava 10 marcos por semana.

Mostrou-se um bom empregado e demorou-se lá três anos e meio. Terá trabalhado mais durante esse período do que no resto da sua vida. O senhor das triagens de Auschwitz limitou-se, durante esse tempo, a selecionar batatas.

Nessa época, o seu casamento ainda funcionava e Irene deslocava-se a Rosenheim sempre que podia. No entanto, a ligação ia abrindo fissuras. Irene achava que o homem com quem casara e o fugitivo que agora visitava pareciam pessoas diferentes. Escreveu numa carta a uma amiga:

Conheci Josef Mengele como uma pessoa honrada, decente, conscienciosa, encantadora, elegante e divertida. De outro modo, não me teria casado com ele. Venho de uma família boa e rica e tive muitas oportunidades de me casar. Penso que a sua ambição acabou por ser a sua desgraça.

Em 1946, os americanos, no que ficou conhecido com o “Julgamento dos Médicos”, levaram a tribunal em Nuremberga 23 notáveis médicos e cientistas alemães. Foram incriminados por “conspiração, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e filiação em organizações criminosas”. As acusações incluíam experiências em prisioneiros, esterilização em massa e eutanásia sobre grupos raciais indesejáveis. No final, foram proferidas sete sentenças de morte e cinco penas de prisão perpétua.

Mengele entendeu que nunca estaria seguro na Alemanha Federal.

Finda a guerra, muitos dos nazis mais conhecidos foram-se escapando para a América Latina.

A fuga de Josef Mendele através dos Alpes foi organizada e financiada pela sua família, através de contactos com antigos elementos SS da região de Günsburg.

Mengele começou por viajar de comboio até Innsbruck. Seguiu depois para Steinach, junto à fronteira italiana. A seguir, foi conduzido a pé por um guia, através do desfiladeiro de Brenner.

Já em Itália, dirigiu-se à estação ferroviária e apanhou o comboio para Vitipeno. Permaneceu então durante um mês na Estalagem da Cruz Dourada, onde recebeu dinheiro da família e um novo passaporte. Foi ali que Kurt, o seu passador, o contactou. Após várias peripécias, Mengele acabou por embarcar para Buenos Aires. Estava-se em setembro de1949.