Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

sábado, 11 de junho de 2016


   O PAPIRO DE EDWIN SMITH


O nome deste documento provém do negociante de antiguidades que o adquiriu em Luxor.
O papiro data de cerca de 1.500 anos a.c. e está exposto na Academia de Medicina de Nova York. É um rolo de quase cinco metros de comprimento por 33 cm de altura e parece incompleto. Trata de feridas de guerra. Ocupa-se mais das lesões da cabeça e pescoço, embora descreva vários ferimentos dos membros superiores, um tumor da mama e uma lesão da coluna vertebral.
Há quem alvitre que o papiro é da autoria de um cirurgião militar, o que é contraditado por outros. Kamel Hussein, citado por Fisher e Swan, afirma que, durante a quarta dinastia os egípcios eram um povo pacífico e dedicado às grandes construções. O médico responsável pelo papiro teria adquirido uma grande experiência no tratamento de lesões provocadas por quedas de alturas consideráveis. Contra ele, opino eu: seria de esperar que das quedas resultassem principalmente lesões dos membros inferiores. Ora, o autor do papiro demonstra essencialmente experiência em ferimentos causados por instrumentos actuantes de cima para baixo, com maior incidência na cabeça, no pescoço e nos ombros, como seriam mocas, ou maças de armas. Hussein não tem razão.


No texto, são referidas a anatomia, os resultados da observação, o diagnóstico, o prognóstico e o tratamento. São descritas, pela primeira vez na História de Medicina, as suturas cranianas, as meninges, a superfície exterior do cérebro com as suas pulsações e o líquido cefalo-raquidiano. Há referências ao coração, ao fígado, ao baço, aos rins, aos ureteres e à bexiga. É dada atenção à palpação do pulso. Os autores sugerem que os vasos sanguíneos tinham origem no coração.
Os tratamentos propostos assentam em bases racionais. Recorre-se, num único caso, a remédios mágicos.
O papiro de Edwin Smith é um documento de uma importância extraordinária. Pela primeira vez na história, é dada prioridade à observação dos doentes e à anatomia, pondo de lado as concepções magico-religiosas que impregnam o papiro de Ebers, a que se atribuiu uma datação ligeiramente mais recente. Há quem defenda a ideia de que a medicina egípcia influenciou a grega, podendo estar na origem das conceções de Hipócrates.
Que objetivos perseguiriam os autores do papiro de Smith e os seus copistas? Há quem pense que era um manual destinado a facilitar a atividade cirúrgica prática. Outros sugerem que se tratava de um instumento didático, pensado para apoiar o estudo dos alunos de cirurgia.


Nesta espécie de compêndio, surgem pela primeira vez termos comuns na linguagem médica, como “cérebro”, “fratura” e “convulsão”. Sugere-se o retorno sanguíneo ao coração e fala-se do sistema nervoso e da importância da espinal medula nos movimentos dos membros. 
Os casos clínicos são descritos de forma sistemática. Referem, essencialmente, situações cirúrgicas. Incluem o título, o resultado do exame, o diagnóstico, o tratamento e explicações sobre os termos obscuros utilizados.
O título é mais do que isso. Engloba a palavra “instruções” e descreve a lesão e a região ou o órgão atingido.
Ao tratar do exame, o médico que escreve dirige-se a uma segunda pessoa: “se examinar um homem afligido por… deve colocar as suas mãos sobre…” As descrições da observação dos doentes permitem concluir que os médicos egípcios da época recorriam à anamnese, à observação visual, à palpação, à avaliação dos movimentos da parte do corpo afetada e ao olfato.
O diagnóstico repete o título e acrescenta-lhe a atitude que o médico deve tomar, face à situação exposta. Ou a trata, ou a procurara conter, ou não a deve tentar tratar. Por exemplo: “O caso de alguém que tem uma ferida aberta na cabeça, penetrando o osso e deformando o seu crânio, e que apresenta rigidez do pescoço, será uma doença que não devo tratar".
É notável a primeira referência na História da Medicina à rigidez da nuca como parte do síndromo meníngeo.
O tratamento não é sempre aconselhado. Não é proposto em 16 dos 48 casos discutidos.
As propostas terapêuticas são de três tipos. Em três casos, foi aconselhada a contenção mecânica ou a a sutura e a cauterização (novidade absoluta na literatura médica). Em 20 casos, ao tratamento cirúrgico foi adicionada a prescrição medicamentosa. Em 19 outras situações, foram aconselhados unicamente medicamentos.
A duração do tratamento foi também objeto de análise, sendo dados conselhos pertinentes.
O glossário é outra novidade. Identificam-se termos de uso exclusivamente clínico, sem correspondência na linguagem comum.
A título de exemplo, registo aqui dois casos da coletânea.

Caso 31. Título: instruções respeitantes à luxação de uma vértebra cervical.
Exame: observa-se um homem que tem uma deslocação de uma vértebra do pescoço e se encontra insconsciente dos seus dois braços, das suas duas pernas e deixa escapar urina pelo membro sem dar por isso; a sua carne recebeu vento, os seus dois olhos estão muito vermelhos; trata-se duma deslocação duma vértebra do pescoço… ...No entanto, se é a vértebra média do pescoço que está deslocada, há uma emissão de sémen pelo pénis.
Diagnóstico: deverá dizer-se a respeito dele que se trata de alguém que tem uma deslocação de uma vértebra do pescoço, que está inconsciente das suas duas pernas e dos seus dois braços e que a sua urina escorre. É uma lesão que se não deve tratar.

Caso 45. Um homem apresentava um tumor volumoso no peito. A mão colocada nesse peito encontra o tumor frio, sem líquidos nem secreções. Diagnóstico: alguém que tem tumores volumosos, uma doença que devo conter. Tratamento: não há tratamento.

Em jeito de conclusão, pode dizer-se que os cirurgiões cujo saber esteve na origem do papiro de Edwin Smith precederam as ideias de Hipócrates no que concerne ao cuidado na observação, à formulação de uma verdadeira história clínica, ao prognóstico e à procura de métodos racionais de tratamento, com rejeição das práticas mágicas correntes na época. Os casos escolhidos são emblemáticos e refletem uma extensa experiência cirúrgica e um pensamento clínico sistematizado.  
Para as condições da época, o papiro de Edwin Smith foi um documento médico revolucionário.

Bibliografia
Espinosa, J. A. Una rareza bibliográfica universal: el papiro médico de Edwin Smith. ACIMED 03 2002, Sección Histórica.
Fisher, R, Shaw, Patrícia. El papiro quirúrgico de Edwin Smith. Anales Médicos vol.50, Núm.1 Ene-Mar. 2005. (recolhido na Internet)

Vargas, A, López, M, Lillo, C, Vargas, Mª J. El papiro de Edwin Smith y su transcendência médica e odontológica. Rev. Med. Chile vol.140 nº 10 Santiago, oct. 2012

sexta-feira, 10 de junho de 2016


IMHOTEP

Imhotep, “aquele que vem em paz”, viveu no Egito, no século XXVII a.C. e desempenhou altos cargos administrativos e religiosos ao serviço do faraó Djoser. Foi contemporâneo dos médicos Hesy-Ra e Merit-Ptah, mas ofuscou-os em fama e conhecimento.


Divinizado após a morte, foi cultuado em Mênfis. O local da sua sepultura permanece desconhecido. Há escritos gregos que o associam a Asclepius.
Imhotep não se dedicou apenas à governação e à medicina. Terá sido o arquiteto de Saqqara, a primeira grande pirâmide do Egito, última morada do rei Djoser. Anteriormente, os faraós eram enterrados em mastabas, muito menos elevadas. Essencialmente, uma pirâmide é uma sobreposição de mastabas de dimensões decrescentes.


Imhotep foi também o patrono dos escribas.
Conhecem-se os seus múltiplos cargos e honrarias, mas pouco se sabe sobre a sua vida e a sua personalidade. São numerosas as estátuas que o representam e variadas as interpretações dadas à sua figura. Foi retratado como um homem comum, como sacerdote de cabeça rapada, como sábio acompanhado por um rolo de papiro e também como um deus, em estatuetas em que se apresenta de pé, com barba, empunhando os atributos da divindade. 


A figura de Imhotep, como médico, pertence mais ao domínio da lenda do que ao da história. Tornou-se indissociável do papiro de Edwin Smith, ainda que o único exemplar conhecido do documento tenha sido escrito aproximadamente mil anos após a sua morte. Supõe-se que se trata de uma cópia de textos mais antigos, redigida, pelo menos, por três escribas diferentes. Por outro lado, o facto de se tratar de um trabalho objetivo e não imbuído de magia, tende a dissociá-lo da figura de Imohtep, um sumo-sacerdote do Deus Rá, naturalmente afeto a cultos mágicos. 
Falarei com algum pormenor do papiro de Smith, no próximo artigo deste blogue.

Fontes: Deuses e demónios da Medicina, de Fernando Namora, Wikipedia. 


terça-feira, 7 de junho de 2016


MNEMÓNICAS

Vão longe os tempos em que estudava Anatomia na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. O livro de texto era o gordo Textut, embora a maior parte dos estudantes aprendesse quase tudo pelo “Precis”, que não tinha ilustrações e era bem mais elegante.


Recorríamos com frequência a mnemónicas. Julgo que quase todos criávamos as nossas próprias, mas havia as que se tornavam populares e circulavam através de gerações. 
A artéria maxilar interna foi agraciada com duas das mais famosas auxiliares de memória conhecidas. Uma permitia fixar os ramos colaterais ascendentes da artéria maxilar interna: Tu, Minha menina, Pequena menina, Tens profunda mágoa, Tens profundo amor. (Timpânica, Meníngea média, Pequena meníngea, Temporal profunda média, Temporal profunda anterior.)


Outra, também muito usada, ajudava a lembrar os seus ramos colaterais descendentes: Doente infeliz Mandou Buscar Peras Para si (Dentária inferior, Masseterina, Bucal, Pterigoideia, Palatina superior).
Apenas as mais interessantes se generalizavam, mas criavam-se muitas pessoais. Era assim que eu recordava os nomes dos pares cranianos: Olha Oh pá Mamas Para Três Minha Filha Ai Glória Não Me Esperes Hoje (Olfativo, ótico, motor ocular comum, Patético, Trigémeo, Motor ocular externo, Facial, Auditivo, Glossofaríngeo, Pneumogástrico, Espinhal e Hipoglosso).   
Havia outras, para variados órgãos e gostos. Salazar Deu o Cu e Ficou Virgem permitia lembrar as túnicas que envolviam o testículo. Se bem me lembro, eram Scrotum, Dartos, Celulosa, Fibrosa e Vaginal. Fico com a sensação de que me falta uma…
Desconheço o modo de ensinar e aprender Anatomia nos dias de hoje. Espero que o processo esteja mais racionalizado e que não seja exigido aos jovens um esforço de memorização tão intenso e prolongado que se pode revelar, mais tarde, parcialmente inadequado ou pouco útil. No meu tempo, os três primeiros anos eram usados para adquirir conhecimentos básicos e uma linguagem própria que permitisse o acesso às bem mais interessantes cadeiras clínicas. Talvez fosse por isso que eu e muitos como eu só passássemos a gostar verdadeiramente do Curso a partir do quarto ano.


domingo, 5 de junho de 2016


MARCOS NO CAMINHO




Esta semana, o decaedela voltou a ser visitado por leitores de todos os continentes. Não é a primeira, nem a segunda vez que tal acontece com os meus blogues, o que não torna o facto menos gratificante. Entraram neste espaço, durante os últimos dias, pessoas da América do Norte e do Sul, de Portugal, do centro da Europa e ainda da China e da Austrália.
É interessante verificar que a maioria dos leitores do historinhasdamedicina é brasileira, embora sejam frequentes as visitas de leitores dos países sul-americanos de língua espanhola, que não parecem ter dificuldade em ultrapassar a barreira do idioma. Julgo que se trata, habitualmente, de estudantes de História da Medicina.
Andam à volta de 1500 os visitantes mensais dos dois blogues, embora ocorram oscilações na frequência. O decaedela, que começou mais cedo e se dirige a um público menos restrito, continua a liderar as audiências (sei que estou a fazer um uso abusivo da palavra…) No entanto, no decurso dos últimos anos, o historinhasdamedicina é o mais procurado. A manter-se a tendência atual, dentro de um ano, os totais de visitas serão semelhantes.
Publiquei já mais de 450 títulos. Como seria de esperar, produzo mais artigos de blogue nos intervalos entre os livros que vou escrevendo. Somam já catorze os editados e tenho mais alguns prontos.
O número de comentários foi sempre relativamente reduzido. Seria útil e interessante dispor de mais informação de retorno.

Abraço os ciberleitores!

António Trabulo

terça-feira, 17 de maio de 2016

   

  II SEMANA DO AUTOR MÉDICO



                 Repouso no regato - Ferragudo - João Bleck da Silva

    Começo por declarar que entendo pouco de artes visuais, o que não me impede de ter gostos e opiniões.

                                                     Carnaval - Pantoja Rojão

Quando era criança pequena, os meus irmãos achavam que eu iria ser um génio do desenho. Enganaram-se. Nos primeiros anos do liceu, os colegas ainda disputavam as folhas de papel em que eu imaginava heróis de capa e espada. Foi veia que secou. O Desenho foi sempre a disciplina em que obtive classificações mais baixas. O talento não seria grande, mas a preparação dos professores da matéria também não seria a melhor. Enfim... São coisas que já lá vão.


Esta introdução conduz-me ao verdadeiro ponto de largada: a II Semana do Autor Médico, que foi organizada pela SOPEAM, com a colaboração da Secção Regional do Sul da Ordem dos Médicos e  decorreu em Lisboa, na sede da Ordem dos Médicos, de 7 a 14 do corrente mês.









    Alentejo e Romã - Leonor Duarte                                         Galinhas - Graciete Lança

    Como na edição anterior, houve conferências, apresentações de livros e exposição de artes plásticas. O nível cultural foi elevado, embora a assistência tenha sido, de um modo geral, reduzida.

                       Cores da Índia - Mª Isabel Mendes Silva

Ficaram-me, no ouvido e na vista, dois pontos altos: a atuação do Coral Aesculapides, da Ordem dos Médicos, dirigido pela maestrina Ana Venade e o “Mix” de Artes Plásticas, exposto na Galeria.

                                Parte de La Petite Bouffe - Pedro Miguéis

O “Mix” foi uma invenção do Pedro Miguéis, que selecionou os trabalhos, aceitando apenas um de cada médico, e os dispôs como muito bem entendeu. O organizador contribuiu com uma produção pessoal de arte efémera. O saber expor transformou-se também em obra de arte e o galerista tornou-se coautor. Resultou uma mostra variada com uma interessante média de qualidade.

                        Tropiques (Tapessaria) Mª José Leal

Não sendo possível publicar 30 quadros num artigo de blogue, selecionei, sem qualquer critério hierárquico, as fotografias que apresento para ilustrar este pequeno artigo. Alguns quadros não foram aqui reproduzidos apenas porque as fotografias que eu tirei não ficaram bem.

                       S/ Título - Álvaro Laranjeira Santos

Terminado o evento, chega a hora da reflexão. Acordámos em que as Semanas do Autor Médico seriam bienais. Na próxima edição, teremos de ter em conta a experiência recente, Uma coisa é certa: não se modifica o que correu muito bem.

                                    Retrato de Adolfo Gutkin - Júlio Pego

Um abraço, Pedro Miguéis!

António Trabulo


quinta-feira, 28 de abril de 2016


DEMÊNCIA E EUTANÁSIA*


                          Auto-retrato de William Utermohlen

A demência é uma coisa terrível. Se a história da tua vida estivesse escrita num quadro negro, seria como uma esponja que fosse apagando tudo, de baixo para cima. Esqueces primeiro o que comeste ao pequeno-almoço. Depois, não sabes o que fizeste ontem nem onde estiveste a semana passada. A seguir, não te lembras do sítio onde guardaste os óculos ou o telemóvel. Mais tarde, desaprendes de fazer coisas. Dar o nó dos atacadores dos sapatos, por exemplo, é um conjunto complexo de gestos que a aprendizagem automatizou. As pequenas tarefas de cada dia perdem esse automatismo e tornam-se enigmas – ia dizer puzzles – impossíveis de resolver. Dás conta de estar a perder qualidades e ficas deprimido. A progressão da doença é inexorável. Começas por desconhecer os teus netos e a seguir não sabes que tens filhos. A dada altura, nem a tua mulher reconheces. Lembro-me de uma senhora muito educada que, numa fase adiantada da doença, dizia respeitosamente ao marido: «Não percebo o que é que o senhor está a fazer na minha cama».
A perda da afetividade acompanha a deterioração da capacidade de raciocínio. Vai, tudo, piorando aos poucos. Às tantas, não amas ninguém, não conheces ninguém e não entendes nada do que se passa à tua volta. Ignoras-te a ti próprio. Deixaste de ter alma. Continuas apenas a sentir fome e sede e a experimentar dor. A dor perdura e tarda em sumir. É dos últimos indícios do «eu» a desaparecer.
Quem perde, de todo e de vez, a capacidade de sentir e de pensar, deve ser considerado morto. Terá direito a apagar-se, sem mais sofrimento e com um mínimo de dignidade. Trata-se de um gesto de piedade. Acho que se devem ajudar esses corpos que foram gente a deixar o mundo. Assim, não sofrem mais, não provocam sofrimento em ninguém e não dão trabalho nem despesa. Eu queria que me fizessem isso, se chegasse a esse ponto…


*Texto modificado do romance “Gerações”, por publicar.

terça-feira, 19 de abril de 2016


A PESTE BUBÓNICA DE 1899 

NO PORTO


Começo por apresentar fragmentos dum texto publicado por Ricardo Jorge a 20 de setembro de 1899.

A 4-7-1899 recebia eu um bilhete d'um negociante da rua de S. João, chamando a minha attenção para uns obitos que se tinham dado na rua da Fonte Taurina.
Mandei examinar á regedoria as certidões d'obito respectivas, que só tarde me costumam ser communicadas para o effeito estatistico; resavam ellas de molestias banaes. Apesar d'esta nocencia nosographica, mandei tomar informações no lugar por um empregado que voltou dizendo-me que tinham morrido pessoas e outras estavam doentes d'uma especie de febre com nascidas debaixo dos braços. Não se tratava pois da banalidade prevista, o que me resolveu a fazer uma visita pessoal á Fonte Taurina, onde com as informações colhidas e os doentes ainda presentes me convenci logo estar em frente d'um fóco epidemico de moléstia singular e nova. Caso anormal e grave, dei immediatamente conta do succedido ao snr. commissario geral de policia, como auctoridade sanitaria, ao snr. vereador do pelouro, como representante da administração municipal, e ao snr. director clinico do hospital para o internamento imediato e isolamento dos epidemiados.
Os serviços dependentes ou ligados á repartição de hygiene, como o da desinfecção e limpeza viaria, entraram sem demora em acção; e no dia seguinte acompanhava ao local o snr. inspector de policia Feijó e o sub-delegado de saude Joaquim de Mattos, sendo intimados os proprietarios e inquilinos ás beneficiações e limpezas das suas descuradas e imundas habitações, operações a que, diga-se de passagem, só procederam depois d'instancias repetidas.
A´ volta do fóco brotavam pouco e pouco casos suspeitissimos que me mantinham receioso, e não tardou o convencimento de que a peste avançava a passos lentos e espaçados, como é de seu uso e costume á primeira arremettida.
A 31-7 faziamos colheita fecunda, e dentro d'oito dias adquiria por mim a irrefragavel certeza de que tinha nos tubos de cultura isolado o puro e legitimo bacillo de Yersin. E d'essa convicção dei parte superiormente a 8-8. Submetti o achado ao meu companheiro e amigo Camara Pestana; devia-o á sua competencia magistral e á sua situação official á frente dos serviços bacteriologicos do paiz, A sua confirmação foi immediata.
As missões estrangeiras confirmaram totalmente, integralmente, tudo o que em materia de diagnostico e prognostico fora aventado pelo seu descobridor.


Por volta de 1840, eclodiu na província de Yunnan, na China uma epidemia de peste bubónica. Os navios propagaram-na pelo mundo. A Índia foi a região mais afetada, tendo sido ali registados, durante os doze anos seguintes, mais de dez milhões de mortos. A peste atingiu as Américas, a Oceania e continuou a viajar.
Ao chegar à Europa, o bacilo teria a virulência reduzida, ou ratos e homens teriam adquirido defesas contra o mal. Ocorreram surtos limitados em Glasgow, Paris, Marselha, Barcelona, Açores e Madeira, mas o Porto foi a primeira cidade europeia a ser afetada e também aquela em que a peste mais vidas ceifou: 132, em 320 casos oficialmente registados.
As observações registadas durante esta pandemia permitiram o desenvolvimento de progressos médicos significativos. Em 1894, em Hong Kong, Alexander Yersin identificou o bacilo da peste. Três anos depois, em Carachi, Paul-Louis Simond compreendeu o papel fundamental desempenhado pela pulga, como vetor de transmissão da doença dos ratos para os homens.


O Porto do final do século XIX era uma cidade de contrastes. Gabava-se de ser pioneira da iluminação a gás, da fotografia e do cinema e de ter introduzido na Península Ibérica o carro elétrico, mas as condições de vida da segunda cidade portuguesa eram deploráveis para as classes desfavorecidas. O sistema sanitário era rudimentar. Anos depois, em 1905, apenas 30 por cento dos arruamentos tinham esgotos. Perto de um terço da população vivia em “ilhas” de condições higiénicas lamentáveis. A cidade detinha uma das piores taxas de mortalidade das cidades europeias, com realce para a mortalidade infantil.
A crise deu a conhecer um homem de qualidades invulgares: o médico municipal Ricardo Jorge. Em julho de 1899, era o responsável dos Serviços de Saúde e Higiene da cidade e professor da cadeira de Higiene e Medicina Legal da Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Acabaria quase crucificado na turbulência popular, jornalística e política desencadeada pelas medidas tomadas pelo governo central para combater a progressão da doença.
Houve autoridades médicas que sugeriram que a peste não era recente. Tratar-se-ia de uma exacerbação da endemia existente na cidade há mais de um ano, sem que o alarme fosse desencadeado ou fossem tomadas previdências adequadas. Esta questão foi usada como argumento contra a adequação do cerco sanitário.


Outra razão aduzida era não ter sido identificada a origem da peste. No entanto, a peste do Porto era bubónica, com as lesões facilmente visíveis.
Edmond Métin, baseado em conversas e entrevistas, considerou que a peste teria sido provavelmente trazida para o Porto, em 1897, por um navio de guerra português que viera de Macau e de Goa.
A resposta do nosso governo à ameaça à saúde nacional foi progressiva.
Proibiram-se as feiras e romarias. Os passageiros dos comboios que partiam do Porto eram obrigados a inspeção médica à partida e à chegada ao local de destino. As bagagens tinham de ser desinfetadas.
Seguiu-se a interdição do transporte ferroviário a partir do Porto.
Disse-se (e bem) que a proibição da saída de mercadorias por via-férrea só faria sentido se as viaturas de transporte de tração animal fossem também impedidas de ultrapassar os limites da cidade. O mesmo se aplicava ao transporte fluvial.  
O porto de Leixões esperou até 15 de agosto para ser declarado “escala marítima infetada”. Verificou-se ali a pressão da diplomacia francesa.  Ficou a suspeita de que o Brasil possa ter sido infetado a partir de embarcações saídas do Porto.
Pressionado pelos governos espanhol e francês, o ministério de José Luciano, apoiando-se no conselho da Junta Consultiva de Saúde Pública, decretou o cerco sanitário à segunda maior cidade portuguesa. Note-se que Portugal havia adotado essa medida, cinco anos antes, quanto a cólera grassara em Espanha.
Cerca de 2.500 soldados de infantaria e cavalaria montaram o cordão. Dificilmente poderiam impedir a passagem de ratos e pulgas.
O governo anunciou o cerco, mas levou dez dias a concretizá-lo.
Muitos dos portuenses que o podiam fazer abandonaram a cidade antes do bloqueio ser instaurado. Deslocaram-se por estrada, ou tomaram o comboio em estações não fiscalizadas. Não receavam apenas a peste: temiam a falta de alimentos e a agitação popular. Os jornais falaram em 20 e até em 40 mil habitantes saídos, mas esses números parecem exagerados.
Os jornais da cidade consideraram o cordão sanitário desproporcionado e ineficaz. Acusaram a capital de usar a peste como pretexto para combater a economia do Porto. Era a diabolização de Lisboa. A capital do ócio e do vício oprimia a capital do trabalho e da modéstia. Chegou a pedir-se a autonomia a norte do Mondego.Tratava-se duma agudização do complexo de segunda cidade do país. Edimburgo e Barcelona não teriam feito melhor. Os portuenses teriam, contudo, razão ao considerarem que as medidas governamentais procuravam mais conter a peste dentro da cidade do que extingui-la.
Os estabelecimentos comerciais do Porto encerraram, em sinal de luto. Muitas indústrias interromperam o funcionamento e despediram pessoal. A seguir à peste, veio a fome. 
O cordão sanitário acabaria por se manter quase até ao Natal, mas a peste persistiu no Porto, de forma endémica, até 1915.  
Na contestação, os periódicos recorreram a opiniões de médicos de opiniões contrárias às oficiais. O coronel médico Gomes da Silva, vindo de Macau, onde ajudara a combater a peste, foi uma das faces mais visíveis dos protestos. Note-se que a microbiologia era disciplina recente.
Ricardo Jorge foi apoiado pelas instituições médica nacionais e pelos especialistas estrangeiros que se deslocaram ao Porto. À parte do cordão sanitário, a que o higienista se opôs, as medidas tomadas eram corretas, para a época. Alertou as autoridades médicas e sanitárias e procurou a sua colaboração, antes mesmo de obter a confirmação bacteriológica da epidemia. Determinou o isolamento dos doentes (de início, no Hospital de Santo António) e fez desinfetar o pessoal que os transportava. 
   Pediu a encomenda, ao estrangeiro, de “soro antipestífero”. Conseguiu-o, numa escala até então inédita. De facto, uma parte da população do Porto serviu de cobaia para a experimentação de variados soros, alguns de ação desconhecida. Foi o próprio Ricardo Jorge, a 3 de setembro, a recomendar ao Governo Civil a regulamentação do seu uso. O Porto foi a primeira cidade do mundo em que foram usados em larga escala soros e vacinas para combater um surto de peste. Desconhecem-se os benefícios obtidos e os eventuais efeitos adversos.
O médico francês Albert Calmette, esteve no Porto por altura da epidemia. Relatou que “os portuenses fugiam à vacinação e escondiam os contagiados”. Seria mais tarde famoso pela sua contribuição para a criação do BCG (Bacile Calmette-Guérin).
Verificou-se que os ratos capturados nos armazéns da Ribeira estavam infetados pelo bacilo da peste. Ricardo Jorge recomendou o seu extermínio. Um mês após o seu aviso, a Junta de Saúde pôs as cabeças dos roedores a prémio: 120 réis por cada dúzia. Os cadáveres de ratos poluíram o Rio Douro e a pesca, na sua margem direita, teve de ser proibida.  
O povo do Porto sofreu com a peste e com o bloqueio sanitário. A dada altura, a fúria popular virou-se contra o médico que diagnosticara e procurara tratar a epidemia. A casa de Ricardo Jorge foi ameaçada e o clínico passou a ser acompanhado por uma escolta policial. As macas que transportavam os doentes do Hospital de Santo António para o Hospital do Bonfim, que recebera melhoramentos, seguiam à noite e variavam os trajetos. Ainda assim, os guardas do hospital eram apedrejados.
Já no seu declínio, a peste fez uma vítima ilustre: o bacteriologista Câmara Pestana perdeu a vida no cumprimento dos seus deveres profissionais. Foi contaminado, provavelmente no decorrer duma autópsia. Morreria em Lisboa, a 15 de novembro.


A atuação de Ricardo Jorge no diagnóstico da peste que assolou o Porto e no seu combate valeu-lhe a admiração de colegas, dentro e fora do país. No entanto, a contestação popular e os ataques da imprensa levaram-no a sair da cidade. Em outubro de 1899, o homem que iria dirigir a reforma sanitária em Portugal no começo do século XX foi nomeado Inspetor Geral de Saúde e transferido para Lisboa. Foi uma espécie de pontapé para cima.
Ricardo Jorge foi depois nomeado Professor de Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Em 1903 foi encarregado de organizar o instituto Central de Higiene, que hoje tem o seu nome.
O surto de peste manteve-se mais ou menos limitado ao centro do Porto. Não se registaram casos da doença em Gaia. O conjunto dos cemitérios do Porto registou 4.793 enterramentos em 1897, 4.829 em 1898, com uma subida, apesar de tudo, moderada em 1899: 5.398.
A contestação nortista, despoletada pela peste, ao governo de José Luciano teve consequências políticas. Em novembro de 1899, foram eleitos três deputados republicanos, entre os quais Afonso Costa. Chamaram-lhes “os deputados da peste”.

Bibliografia
Jorge, Ricardo. A Peste Bubónica no Porto – 1899 Seu Descobrimento – Primeiros Trabalhos. Repartição de Saúde e Hygiene da Camara do Porto, 1899.

Pontes, David. O cerco da peste no Porto Cidade, imprensa e saúde pública na crise sanitária de 1899. 2º Ciclo de Estudos em História Contemporânea. 2012.