Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

domingo, 15 de abril de 2018




SERENDIPIDADE

E OUTRAS HISTÓRIAS DA MEDICINA



Joaquim Figueiredo Lima é um trabalhador incansável. As suas publicações sobre temas de História da Medicina repetem-se a um ritmo assinalável. Brinda-nos agora com “Serendipidade e outras histórias da Medicina” (Chiado Books, 2018).
O autor explica que o termo “serendipidade” nos remete para o escritor inglês Horace Warpole que, numa carta a um amigo, se refere a um livro intitulado “ A Peregrinação dos três filhos do rei de Serendip”. Serendip é o Ceilão, a Tapobrana dos Lusíadas, o atual Sri Lanka. Enquanto viajavam, os três príncipes iam descobrindo coisas que não procuravam.
O termo “Tapobrana” aparece, pela primeira vez, na “Geografia” de Claudio Ptolemeu, matemático, astrónomo e cartógrafo da Escola de Alexandria. Terá nascido por volta do ano 70 da era cristã e vivido durante os reinados de Adriano e Antonino Pio. Há quem julgue que a grande ilha de Tapobrana que ele descreveu e desenhou não tinha existência real. Outros consideram que o geógrafo amalgamou nela uma série de ilhas mal conhecidas.

                        Mapa de Ceilão na época de Camões

Para sublinhar a importância do acaso, que tem colocado em frente dos olhos de observadores sagazes factos simples que conduziram a avanços científicos relevantes, Figueiredo Lima lembra Arquimedes e o seu “Eureka”, que enriqueceram a Física com o conceito de impulsão; conta a história da maçã que Newton terá visto cair da árvore e que conduziu à descoberta da força da gravidade; adentrando a área da Medicina, recorda Alexandre Fleming, que soube valorizar a limitação do crescimento de bactérias em redor dos bolores desenvolvidos nas placas de Petri durante as suas férias, facto que o pôs no caminho da descoberta da penicilina.
Como seria de esperar de um Médico que dedicou à Anestesia o essencial do seu percurso profissional, a maioria dos 35 capítulos deste livro é dedicada ao combate à Dor.
Figueiredo Lima não esquece, contudo, outras áreas da Medicina. Na história saborosa intitulada “As moscas na urina do cão” conta como elas levaram à identificação do açúcar na urina de um animal e orientaram Mering e Minkowski para a descoberta da insulina. Curiosamente, tive conhecimento, há cerca de uma dúzia de anos, de um facto semelhante ocorrido com um colega nosso que, infelizmente, já nos deixou. As instalações sanitárias eram partilhadas por ele e por um enfermeiro chinês. Quando o enfermeiro as utilizava algum tempo depois do médico, encontrava formigas no urinol. O nosso colega (e meu amigo do peito) lá fez as análises que permitiram o diagnóstico da sua diabetes…
A história de Wilhelm Röntgen que, depois de ter verificado que uma tela impregnada de um sal de bário se iluminava a cada descarga do tubo de Crookes, compreendeu que estava em face duma radiação diferente, invisível mas capaz de atravessar alguns materiais, levou-o a obter a primeira radiografia da História da Medicina, ao expor uma das mãos de sua esposa a essa radiação, colocando, do outro lado uma chapa fotográfica.   
O livro de Joaquim Figueiredo Lima lê-se com agrado. Ensina e diverte. O autor recorda Louis Pasteur, que escreveu: a sorte favorece as mentes bem preparadas.
A procura do rigor científico por parte de Figueiredo Lima e a sua preocupação em pôr à disposição dos leitores dados com que possam desenvolver os próprios conhecimentos faz com que, num livro com poucas mais de 300 páginas haja 65 dedicadas à Bibliografia.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018



MARCOS NO CAMINHO


 O conjunto das visitas aos meus blogues Histórias da Medicina e decaedela ultrapassou esta semana  os 150.000.


terça-feira, 21 de novembro de 2017


                                 

          SOPEAM HOMENAGEADA


                                EM 


       CONGRESSO  INTERNACIONAL  



  O COLÓQUIO “MEDICINA NA ERA DA INFORMAÇÃO – MEDINFOR IV” decidiu homenagear este ano a Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos como “entidade de referência na relação especial que os Médicos mantêm há muito com a Literatura e a Arte em geral”.
O MEDINFOR é uma iniciativa conjunta das Universidades do Porto e Federal da Bahia, iniciada em 2009. Conta com a colaboração das Faculdades de Letras e de Medicina da Universidade do Porto e do Instituto de Ciências Biométricas Abel Salazar.
Coube-me representar a SOPEAM neste evento, realizado a 17 de novembro no Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

sábado, 4 de novembro de 2017


EQUIPAMENTO 

DOS CIRURGIÕES MILITARES 

NO SÉCULO XVII

Joaquim Barradas publicou este ano o seu segundo livro, “Libelo da Rainha”. Trata-se de um estudo exaustivo sobre a crise da monarquia portuguesa nos anos que se seguiram à morte do rei D. João IV, restaurador da nacionalidade e fundador da dinastia de Bragança.
O autor ficciona a narrativa, mas cinge-se o mais que pode aos dados históricos conhecidos. Cirurgião que é, interessa-se pela medicina de combate. 


                              Roque Gameiro -Batalha de Montes Claros

Conta a história de Pedro Palmeiro e Eugénio Pão e Água, ambos cirurgiões, que embarcam numa falua para a margem sul do Tejo. Tinham sido mobilizados pelo conde de Castelo Melhor para compensar a falta de cirurgiões “para assistência e acompanhamento das tropas”. O texto que apresento reproduz o original, com os cortes que me pareceram necessários para abreviar o artigo sem desvirtuar a intenção do autor.

Pedro Palmeiro recosta-se na amurada depois de colocar a sua pequena bagagem debaixo da bancada. À sua frente, Eugénio Pão e Água apoia no ombro direito o comprido pau onde está amarrado o pano-cru que envolve o bornal e a sua exígua bagagem.



A falua entra na ribeira do vale do Zebro e detém-se, mais adiante, para desembarcar os passageiros junto à fábrica de biscoitos que abastece as naus da carreira da Índia.  Os cirurgiões sentam-se num banco enquanto aguardam a chegada de transporte. Pedro Palmeiro toma a iniciativa:
− Onde estão os teus ferros? – Pergunta, enquanto pega na sua estreita caixa de madeira e a põe sobre os joelhos.
− Estão no saco que trago aqui – diz Eugénio, apontando para a sua trouxa.
−Tens de arranjar uma caixa de amputação – diz o velho cirurgião, enquanto abre a mala e mostra os instrumentos contidos em cada um dos pequenos compartimentos lavrados na madeira: um grande serrote, tesoura, duas pinças, uma sonda-cânula e duas lancetas. A um canto, uma longa fita de pano enrolado para servir de garrote. Noutro espaço mais pequeno, as agulhas e fios de sutura.
Eugénio nada diz e é o velho cirurgião que retoma a conversa:
− Quando fazes exame para mestre?
− Não há mestres no meu ofício.
− Como não há mestres?
− Sou cirurgião oculista e catarateiro.
− E já fizeste alguma operação?
− Não, não fiz.
− Sabes tratar a feridas e fazer sangrias?
− Sim, sei.



− Isso é que é preciso. Na guerra é isso que vale. Aqui não precisamos de médicos nem há vagar para tomar o pulso e dar aquelas mezinhas que eles dão. É uma fartura de ossos partidos e de feridas a sangrar. O que é preciso é cortar, e seguir adiante. É tanta a gente ferida e são tantos os que ficam para trás que não há tempo para nada.  


Fonte: Joaquim Barradas. Libelo da Rainha. By the Book, Lisboa, 2017.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017


EUTANÁSIA EM CAMPOS DE COMBATE



Em “A arte de sangrar de cirurgiões e barbeiros”, Joaquim Barradas abordou a sangria a combatentes no campo de batalha, com a intenção de minorar o sofrimento dos feridos incuráveis. Seria, em geral, uma forma de Eutanásia. Ouçamos o autor:

Ainda no século passado eram feitas sangrias no campo de batalha aos feridos em combate, muitos deles já debilitados pela hemorragia.
No fim da batalha, muitas vezes ficavam milhares de feridos no terreno, que chegavam a passar uma noite inteira ao relento, sem assistência, tendo por companhia milhares de mortos e os lamentos dos companheiros igualmente feridos. Houve um tempo em que a primeira preocupação era minorar o sofrimento, ainda que em detrimento da evolução da doença.
A sangria feita no campo de batalha embotava a perceção da dor e provocava alguma obnubilação que transportava os soldados para um nível de consciência que, de alguma forma, os afastava do sofrimento, do incómodo e de outras provações.

Em “O Libelo da Rainha”, publicado este ano, Barradas retoma o tema da Eutanásia nos campos de batalha, desta vez executada de forma bem mais ativa.
A 17 de junho de 1665, o exército português, comandado por D. António Luís de Meneses, conde de Cantanhede e marquês de Marialva, alcançou uma vitória significativa sobre as tropas espanholas do marquês de Caracena, que ocupara Borba e sitiava Vila Viçosa. O combate travou-se em Montes Claros, local que dominava a estrada estratégica que ligava Estremoz a Vila Viçosa. Os invasores tinham a intenção de ocupar Lisboa e de pôr fim à tentativa de restauração da nacionalidade portuguesa. A batalha teve custos elevados para ambos os lados.


Passo a citar Joaquim Barradas:

Há quatro mil e setecentos mortos pelo terreno. Uns montes deles estão empilhados aqui e acolá, mas a maioria está disseminada pela campina, tal como os feridos e estropiados. Alguns estão agonizantes e lutam para sobreviver; outros já se entregaram, prostrados no chão. Entre os oito mil feridos e os milhares de soldados mortos jazem também os cadáveres de quinhentos cavalos.
− Água. Dêem-me água, pedem alguns dos feridos.
Muitos não podem andar e alguns queixam-se de dores enquanto aguardam a sua sorte entre vasculhos de ramo amarelo caído e a secura de espinhos carapetos. Os feridos que sabem a vida a prazo e suspeitam do tormento que aí vem, apelam a quem passa:
− Matem-me. Por serviço de Deus, matem-me.
Os degoladores iniciam o seu trabalho misericordioso, e logo satisfazem os pedidos dos mais maltratados da batalha. Aproximam-se, fazem um movimento de pinça do braço com o antebraço, fixam a cabeça e expõem o pescoço para passarem rapidamente o punhal. A atmosfera é serena e o azul profundo do céu assenta num horizonte circular que envolve numa generosa campânula os corpos estendidos na planície. Pelo ar, anda um cheiro adocicado.


Encontram-se referências aos degoladores, que desempenhariam funções específicas em alguns exércitos (nem sempre com intenções piedosas) nos comentários às guerras que afligiram a América do Sul no final do século XIX e no começo do século XX. Pouco sei deles na história dos conflitos europeus. Tenciono voltar a abordar o tema dentro de algum tempo. 

Fontes:  Joaquim Barradas, Libelo da Rainha, By the Book, Lisboa, 2017.

            Joaquim Barradas, A Arte de Sangrar de Cirurgiões e Barbeiros, Livros Horizonte, 
            Lisboa, 1999.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017


LIBELO DA RAINHA

JOAQUIM BARRADAS

Joaquim Barradas publicou o seu primeiro livro de ficção. Assenta em bases histórica bem estudadas e muito refletidas. Outra coisa não seria de esperar da sua maneira de ser e de encarar o mundo.
A obra não está, nem poderia estar, desenquadrada do percurso literário que o autor começou a trilhar ao escrever “A arte de sangrar de cirurgiões e barbeiros”. Cirurgião é ele. Foi diretor dos serviços de Cirurgia dos hospitais Garcia da Orta, em Almada e de São Bernardo, em Setúbal.
Barradas é um curioso da História de Portugal e, em especial, da História da Medicina. A sua escrita é cuidada. A trama do romance foi bem construída.
Noutro tempo e noutro lugar, falarei da ficção. Hoje, limito-me a reproduzir, com a devida vénia, um texto das páginas iniciais do “Libelo da Rainha”.  É notável o modo como o autor recria o pensamento médico da época e ilustra o que poderiam ser as dúvidas, as hesitações e o modo de agir dos nossos colegas de outrora, ao arriscarem fortunas e reputações nos melhores ou piores desfechos das maleitas que afligiam os reais enfermos.


O rei (D. João IV) está agora doente e tem uma pertinaz obstipação, com dores intensas, sem remissão. Os médicos muniram-se de poderosos agentes contra a obstipação e prescreveram chás de sene e ruibarbo, que manuseiam com destreza. São os remédios drásticos, que causam grandes cólicas, mas são quase sempre eficazes. Infelizmente, não é o caso do rei. Fica de cama e prostra-se na sua alcova. Dão-lhe novos tratamentos: sangrias diárias no braço, do lado direito, perto do sítio doente. Com o sangue que se retira, virão os humores espessos retidos no corpo e que aí se acumulam. 


Há ocasiões em que melhora, mas ainda assim nada parece atalhar a doença e a indecisão campeia entre o júbilo e o desânimo de todos. Os físicos entregam-se ao grave conciliábulo da arte médica e da ciência incerta. Os argumentos fixam-se em princípios há muito assinalados pelos sábios antigos, mas as doutas opiniões divergem entre humores nocivos e sábias verdades. Os médicos têm um ar grave quando tomam o pulso e se apoderam das sugestões deste prodigioso sinal que o corpo envia do seu interior inacessível. O pulso é delgado e sumido, certamente por excesso de calor, e as febres não desmentem. Nova conferência e nova decisão: a sangria será feita nas veias do pé, longe do sítio doente. Alguma hesitação sobre o lado onde se fará a ferida que vai abrir a veia: no pé direito limpam-se os humores viciosos do fígado; do pé esquerdo recolhe-se o sangue melancólico do baço opilado. A discussão ganha algum calor. 


Evocam-se os ensinamentos do grande Hipócrates e a justa doutrina de Galeno, mas toda a reflexão tem um fim: não havendo melancolia por excesso de bílis negra, desnecessário se torna desopilar o baço; o humor responsável será a bílis amarela do fígado, quente e seca, como o fogo, e atreita às grandes febres. O ar dos médicos é grave e a consideração profunda: sendo curta a vida, alongada a ciência e difícil o julgamento, há que encontrar oportunidade. Sim, a sangria será feita no pé direito.

Libelo da Rainha. Joaquim Barradas, BY THE BOOK, Lisboa, 2017.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017


JOAQUIM FIGUEIREDO LIMA

MEMÓRIAS SOBRE A DOR E O SOFRIMENTO




Noticiei um par de vezes neste blogue o trabalho importante que Joaquim Figueiredo Lima tem desenvolvido na investigação da História da Anestesia e da Medicina, portuguesas e não só.
Que eu saiba, publicou:

Evolução da Ressuscitação/Reanimação Cardiorrespiratória – Uma síntese (2016)
A Anestesia em Portugal – séc. XIX e início do séc. XX. O Contributo das Teses de Dissertação Inaugural. Escola Médico-Cirúrgica do Porto e Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (2016)
Plantas Medicinais e Medicina Convencional (2016)
Memórias sobre a Dor e o Sofrimento – Uma perspetiva histórica da Humanidade (2017).

Todas estas obras foram publicadas pela Chiado Editora, o que significa provavelmente que o autor pagou  do seu bolso para colocar o resultado dos seus estudos e das suas reflexões ao dispor da comunidade médica.
Hoje vou falar das “Memórias sobre a dor e o sofrimento”, uma obra monumental repartida por dois grossos volumes que, no conjunto, somam perto de 1.100 páginas.
Embora tenha tido por interesse inicial a abordagem da dor, Figueiredo Lima elaborou um verdadeiro compêndio de História da Medicina Universal. Não se trata de um tratado, pois o autor limitou o mais que pôde o espaço concedido a cada personagem. De outro modo, teria produzido um trabalho enciclopédico.
Do índice onomástico, constam mais de 630 títulos. Vê-se ali a mão do Professor. A cada entrada, estão associadas referências bibliográficas que orientam o leitor que pretenda aprofundar o seu conhecimento em temas específicos.
O autor optou por uma escrita simples que torna o livro fácil de ler. Embora o propósito aparente tenha sido o de produzir um instrumento de consulta, quem pretender informar-se sobre um tema particular, perde-se facilmente na leitura dos assuntos que o antecederam ou seguiram, na ordem cronológica. Aconteceu assim comigo. Li largas centenas de páginas.
Vou ilustrar este texto com a notícia relativamente alargada sobre Luís Gomes Ferreira. Reproduzo-a, com a devida vénia ao autor. Escolhi-a por interesse pessoal. Sou neurocirurgião. Esta é, tanto quanto sei, o primeiro relato de uma intervenção neurocirúrgica praticada por um cirurgião português.


1735 – Luís Gomes Ferreira (1686-1764) nasceu em S. Pedro de Rates (Póvoa de Varzim). Estudou Medicina no Hospital Real de Todos os Santos (Lisboa), tutelado pelo cirurgião Francisco dos Santos. Em 1705 obteve a licença de Cirurgião-Barbeiro.
Em 1708 integrou o exército português em campanha destinada a expulsar os franceses instalados no Rio de Janeiro. Exerceu Medicina no Brasil durante cerca de vinte anos, especialmente no Estado de Minas Gerais.
Em 1735 publicou em Lisboa uma obra com doze capítulos, atualmente pouco conhecida, intitulada: Erário Mineral. Foi um dos primeiros livros de Medicina escritos em língua portuguesa sobre a prática de Medicina em terras brasileiras.
De acordo com Sebastião Silva Gusmão (Sociedade Brasileira de História da Medicina) terá sido, em 1710, o primeiro a realizar uma cirurgia sobre o cérebro.
Com efeito, no Erário Mineral, Luís Gomes Ferreira descreveu uma situação clínica original e curiosa, da qual se transcrevem excertos: No ano de 1710, me mandou chamar Dom Francisco Rondom, natural de S. Paulo, estando morador nas Minas da Paraopeba, em um ribeiro minerando, e andando os seus escravos trabalhando, caiu na cabeça de um, um galho, ou um braço de pau que, casualmente, se despregou do seu natural, e logo ficou o escravo em terra e sem acordo, nem fala. Ao fim de três dias cheguei a vê-lo e achei-o do mesmo modo. Considerei que algum osso quebrado estava carregando sobre a dura-mater e ofendendo o cérebro; abri praça em cruz com uma tesoura e afastando a carne do pericrânio, logo com os dedos achei ossos fraturados em várias partes. Não tendo mais do que clara de ovo e teias de aranha para tomar o sangue, por serem matos gerais muito distantes do povoado e da vizinhança, parou o sangue. Logo assim que meti os dedos na ferida, achei um osso submerso e entendi que era aquele que fazia o dano. Metendo o levantador com o melhor jeito que pude, alguma coisa o levantei e porque o doente estava com um peso notável na cabeça e muito sonolento, lhe lancei em cima das fraturas umas pingas de aguardente, tépida somente (…) Ficou o cérebro à vista com um buraco quase do tamanho de uma laranja. Pus-lhe um pedaço de cabaço, limpo por dentro e por fora, forrado de tafetá encarnado e seguro, bem junto às paredes dos ossos, mas antes de o pôr, lançando dentro umas pingas de aguardente somente quebrada de frieza. E assim que o buraco acabou de fechar, acabei por lançar fora o casco de cabaço e acabei de curar a chaga com aguardente somente. Falando o doente muito bem em toda a cura e comendo melhor… disse a seu senhor o não mandasse carregar na cabeça peso algum. Quem dissesse aos antigos, que em cima das membranas do cérebro e em cima do mesmo cérebro se lançava aguardente, sendo um medicamento tão cálido, que diriam eles, quando encomendam tanto os benignos? É certo que o haviam de reprovar com a espada na mão, e também é certo que eles não podiam saber tudo.
Seguem-se três referências bibliográficas.
Parabéns, Joaquim Figueiredo Lima, pelo seu trabalho notável em prol da História da Medicina!