Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A MEDICINA (OU A FALTA DELA) EM NAUS E CARAVELAS



QUEM QUER PASSAR ALÉM DO BOJADOR
TEM DE PASSAR ALÉM DA DOR


Até ao reinado do nosso desventurado rei D. Manuel I, as empresas de exploração marítima, a que estariam associados capitais judaicos, davam lucro, ou prometiam-no. É de supor que os marinheiros que viajaram com Gil Eannes, Diogo Cão e Bartolomeu Dias tivessem embarcado voluntariamente, atraídos por um salário que compensasse os elevados riscos e os incómodos da aventura das descobertas.
Não foi assim durante muito tempo. Os judeus foram expulsos e os negócios prejudicaram-se. Partiam mais navios e a mão-de-obra escasseava. As naus que sulcavam os mares da epopeia, rumo Índia ou ao Brasil, cedo passaram a ser tripuladas por gente arrebanhada na ralé de Lisboa. Recrutados à força em ruas e tabernas, ou transplantados da prisão do Limoeiro, ladrões, vadios e mendigos, quantas vezes sem qualquer conhecimento de marinhagem, eram metidos, contra a vontade própria, nas embarcações.
Portugal não foi caso único nesta política de recrutamento. Quem povoou a Austrália, o Canadá e os Estados Unidos da América? Por muito que desagrade aos historiadores oficiais, o número dos que emigraram para fugir às perseguições religiosas na Europa constituiu quase sempre minoria.
As viagens prolongadas por mar criavam problemas de saúde. O escorbuto, devido à falta de vitamina C, é emblemático. Além disso, os forçados marujos, embarcados sem qualquer inspecção médica, levavam as suas doenças para o convés.
A História da Medicina dá realce a Balduino Ronsseus (1564) como pioneiro no tratamento do escorbuto. Contudo, perto de sessenta anos antes, um piloto anónimo ao serviço de Pedro Álvares Cabral, em viagem para a Índia, escreve claramente no seu diário que os alimentos frescos oferecidos pelo rei de Melinde ajudaram a sarar alguns marujos atingidos pela doença.
Os problemas eram muitos, e cedo se deu conta deles. Durante a segunda metade do século XVI começaram a organizar-se, nos navios de longo curso, os cuidados médicos e farmacológicos.
Dizem as más-línguas que as modificações nos preparados farmacêuticos correntes em Portugal no decurso dos séculos XVI e XVII poucas inovações traziam. Seguiam as preparações recomendadas pelas Farmacopeias Londrinas de 1618, 1650 e 1677. Poderão, ainda hoje, fazer a felicidade de alguns adeptos das chamadas Medicinas Tradicionais mas pouco ou em nada contribuíam para o bem estar da gente sã e para a recuperação dos enfermos. Tempos difíceis esses, em que um doente precisava de ter boa saúde para resistir aos cuidados médicos...
Dois séculos mais tarde, Baltasar Chaves, físico de bordo, propunha um conjunto de medidas racionais para limitar a elevada morbilidade dos marinheiros. Os que embarcavam deviam ser sujeitos previamente a inspecção médica. A lotação dos navios devia ser proporcionada às instalações disponíveis, e as reservas de água suficientes. Os mantimentos teriam de ser bem escolhidos e melhor acondicionados. A farmácia de bordo teria de ser adequada e a frequência de escalas programada, de modo a permitir a renovação da provisão de água e de alimentos frescos.
Quem, como eu, passou mais de setenta dias seguidos num navio, sem pisar terra firme, arrepia-se ao imaginar a vida a bordo, num passado ainda recente em que não havia frigoríficos nem radar. Será curioso referir que, nos navios que se dedicavam à pesca do bacalhau à linha, nos mares da Terra Nova e da Groenelândia, em 1970 e 1971, os doentes portadores de afecções cutâneas contagiosas ainda necessitavam de receita minha para poderem tomar banho.

Referências:
Frada, João José Cúcio. História, Medicina e Descobrimentos Portugueses. Revista ICALP, vol.18, Dezembro 1989.
Fotografias: História de Portugal, Publicações Alfa, Lisboa, 1983.
Já publicado em O BAR DO OSSIAN

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