Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

sábado, 4 de novembro de 2017


EQUIPAMENTO 

DOS CIRURGIÕES MILITARES 

NO SÉCULO XVII

Joaquim Barradas publicou este ano o seu segundo livro, “Libelo da Rainha”. Trata-se de um estudo exaustivo sobre a crise da monarquia portuguesa nos anos que se seguiram à morte do rei D. João IV, restaurador da nacionalidade e fundador da dinastia de Bragança.
O autor ficciona a narrativa, mas cinge-se o mais que pode aos dados históricos conhecidos. Cirurgião que é, interessa-se pela medicina de combate. 


                              Roque Gameiro -Batalha de Montes Claros

Conta a história de Pedro Palmeiro e Eugénio Pão e Água, ambos cirurgiões, que embarcam numa falua para a margem sul do Tejo. Tinham sido mobilizados pelo conde de Castelo Melhor para compensar a falta de cirurgiões “para assistência e acompanhamento das tropas”. O texto que apresento reproduz o original, com os cortes que me pareceram necessários para abreviar o artigo sem desvirtuar a intenção do autor.

Pedro Palmeiro recosta-se na amurada depois de colocar a sua pequena bagagem debaixo da bancada. À sua frente, Eugénio Pão e Água apoia no ombro direito o comprido pau onde está amarrado o pano-cru que envolve o bornal e a sua exígua bagagem.



A falua entra na ribeira do vale do Zebro e detém-se, mais adiante, para desembarcar os passageiros junto à fábrica de biscoitos que abastece as naus da carreira da Índia.  Os cirurgiões sentam-se num banco enquanto aguardam a chegada de transporte. Pedro Palmeiro toma a iniciativa:
− Onde estão os teus ferros? – Pergunta, enquanto pega na sua estreita caixa de madeira e a põe sobre os joelhos.
− Estão no saco que trago aqui – diz Eugénio, apontando para a sua trouxa.
−Tens de arranjar uma caixa de amputação – diz o velho cirurgião, enquanto abre a mala e mostra os instrumentos contidos em cada um dos pequenos compartimentos lavrados na madeira: um grande serrote, tesoura, duas pinças, uma sonda-cânula e duas lancetas. A um canto, uma longa fita de pano enrolado para servir de garrote. Noutro espaço mais pequeno, as agulhas e fios de sutura.
Eugénio nada diz e é o velho cirurgião que retoma a conversa:
− Quando fazes exame para mestre?
− Não há mestres no meu ofício.
− Como não há mestres?
− Sou cirurgião oculista e catarateiro.
− E já fizeste alguma operação?
− Não, não fiz.
− Sabes tratar a feridas e fazer sangrias?
− Sim, sei.



− Isso é que é preciso. Na guerra é isso que vale. Aqui não precisamos de médicos nem há vagar para tomar o pulso e dar aquelas mezinhas que eles dão. É uma fartura de ossos partidos e de feridas a sangrar. O que é preciso é cortar, e seguir adiante. É tanta a gente ferida e são tantos os que ficam para trás que não há tempo para nada.  


Fonte: Joaquim Barradas. Libelo da Rainha. By the Book, Lisboa, 2017.

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