Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

quarta-feira, 26 de março de 2014



  SANTO ANTÃO, O ERGOTISMO 
          E JERÓNIMO BOSH


Jeroen (Hieronymus) van Anken nasceu na Holanda por volta 1450 e viveu 56 anos. É o pintor mais original da história da cultura europeia.
A sua obra é absolutamente invulgar e não se parece com a de qualquer artista que o tenha precedido. Levanta um véu sobre a superstição e os pesadelos que afligiam muitos dos habitantes do centro da Europa no final da Idade Média.


O artista ilustrou nos seus quadros um pouco do pavor coletivo que atingia as almas dos seus contemporâneos. Desenhou também deformidades e mutilações.


Este é um esboço a que Bosh deu o título de Mendigos e Tolhidos. Está conservado no Gabinete de Estampas da Biblioteca Real de Bruxelas. O artista desenha uma série de inválidos, incluindo vários amputados.


                     

Pieter Brueghel (O Velho), o mais ilustre dos seguidores de Bosh, pintou também um grupo de mutilados. Julga-se que algumas destas amputações se deviam ao ergotismo.
As amputações eram frequentes no decurso da doença. As extremidades, após um processo de mumificação, chegavam a desprender-se sem sangrarem.
Os inválidos praticavam a mendicidade. O mendigo transportava muitas vezes consigo o membro amputado, para impressionar as almas generosas, predispondo-as à piedade.
O Ergotismo foi descrito por Virgílio nas Geórgicas e por Lucrécio em De Natura Rerum. Ao tempo a doença considerava-se relacionada com a erisipela. Em 1676, reconheceu-se que o ergotismo era provocado pela ingestão mais ou menos prolongada de pão de centeio parasitado pela cravagem (o fungo Claviceps Purpurea).


Em francês, “ergot” é o esporão das patas do galo. O fungo tem uma forma semelhante. Entre outras toxinas, produz ergotamina.
A cravagem desenvolve-se no centeio e noutros cereais sendo mais abundante em anos de primaveras muito húmidas seguidas a invernos frios. Em condições adequadas, ganhava características epidémicas. Como o trigo era caro, o ergotismo atingia mais as classes desfavorecidas. Chamavam-lhe “Fogo do Inferno” ou “Fogo de Santo Antão”. A doença terá sido mais comum na França, na Rússia e na Alemanha.
Segundo Adams, Victor e Ropper, em tempos modernos, foram usados preparados de ergotamina para controlar as hemorragias pós parto atribuídas à atonia do útero. Por outro lado, a ergotamina é frequentemente utilizada no tratamento da enxaqueca. A dosagem excessiva da droga é a causa habitual dos raros casos de ergotismo descritos nos dias de hoje.
Reconhecem-se dois tipos de ergotismo: gangrenoso, devido a um processo vasoespástico e oclusivo nas pequenas artérias das extremidades e convulsivo, ou neurogénico. O último é caracterizado por fasciculações, mioclonias e espasmos dos músculos, seguidos por crises convulsivas. Nos casos não fatais pode desenvolver-se um síndromo neurológico semelhante à tabes, com perda dos reflexos patelares e aquilianos, e perda da sensibilidade superficial e profunda A oclusão arterial conduzia frequentemente à gangrena seca e à perda de membros.
Eram frequentes as alucinações e as dores, isquémica e neuropática.
A ergotamina é quimicamente próxima da dietilamida do ácido lisérgico (LSD), modernamente usada como droga alucinogénica. Foi sintetizada, em 1938, por Albert Hofmann. O químico absorveu acidentalmente, por via cutânea, uma pequena dose e visualizou «imagens fantásticas, formas extraordinárias com padrões de cores intensas, caleidoscópicas»...  
Há quem sugira que a descrição dos delírios provocados pelo ergotismo influenciou Jerónimo Bosh e ajudou o pintor a produzir os seus demónios.


Naquele tempo, a ineficácia da Medicina desviava as terapias para a sombra da igreja. Com os santos generalistas, capazes de toda a sorte de milagres, coexistiam verdadeiros especialistas. Lembramo-nos de Santa Bárbara para as tempestades e de São Cristóvão para a proteção dos viajantes. Com a saúde acontecia o mesmo: Santo Antão tratava o ergotismo, São Severino ajudava a combater a lepra e São Sebastião e São Roque protegiam contra a peste.


Santo Antão, um eremita egípcio do século III é considerado o fundador da vida monástica. Era muito popular na Idade Média. É muitas vezes representado na companhia dum porco. Comer mais carne e menos pão reduzia a probabilidade de contrair a doença.
Ao tempo, a doença era tão frequente que, em 1095, se fundou uma ordem religiosa destinada exclusivamente a tratá-la. Os cónegos agustinianos hospitalares de Santo Antão espalharam hospitais especializados ao longo do Caminho de Santiago.




O único remédio certo para o ergotismo era a peregrinação a Santiago de Compostela. As melhorias eram objetiváveis e atualmente fáceis de explicar: durante as longas caminhadas, reduzia-se o consumo de pão de centeio e comia-se mais pão de trigo.
Contra a doença, popularizaram-se águas e pães santos  (água e pão de Santo Antão.) O vinho santo, que era produzido a partir das vinhas dos conventos e que conteria infusões de relíquias do santo, foi talvez o remédio mais conhecido. A mandrágora também era ministrada, por vezes associada ao vinho milagroso. 



      A banha de porco usava-se como unguento nos órgãos afetados.
A Iconoterapia (contemplação de imagens como medicação contra a doença) poderá explicar a proliferação de quadros em que figura Santo Antão.
O nosso museu das Janelas Verdes (Museu Nacional de Arte Antiga) tem o privilégio de acolher o mais conhecido de todos: «As Tentações de Santo Antão», um dos trabalhos emblemáticos de Jerónimo Bosh.



O tríptico data provavelmente de 1505. Foi pintado em pleno Renascimento. Tanto esta obra como «O Jardim das Delícias» fazem a ponte, ou a transição, entre o imaginário medieval bem presente ainda na Europa e as influências renascentistas que iam ganhando terreno nas artes.



Antão distribuiu os seus bens pelos pobres e passou vinte anos a meditar no deserto, o que provocou a ira do diabo, que o tentou de todas as formas imagináveis.
Bosh retratou as tentações a que o pobre santo foi exposto. Rodeou-o de monstros e de demónios assustadores.



As tentações começam no painel que fica à esquerda de quem olha.
Em cima, o santo é arrastado aos ares pelos demónios.



A meio, enfraquecido pelo jejum, atravessa uma ponte, amparado por figuras piedosas.


Há demónios que leem uma carta debaixo de uma ponte. Um monstro patina no gelo para entregar outra.


O painel da direita mostra uma mulher despida a tentar Santo Antão.
Antão desvia o olhar para o lado, mas lá estão outros seres maléficos a tentar conquistá-lo com comida e bebida.


No painel central vê-se um templo cilíndrico, em ruínas, com a figura de Cristo crucificado no seu interior.
Ao fundo, arde uma aldeia.


Decorre uma missa negra, oficiada por um sacerdote de rosto animalesco. O sacristão tem um funil na cabeça.


Atrás do santo, uma sacerdotisa oferece o cálice a um músico que tem uma coruja poisada na sua cabeça de porco.
Cuttler escreveu sobre o tríptico de Lisboa. Considera esta cena como uma representação do Sabbath.  A mulher distribui o Vinho Santo, que alegadamente combateria o ergotismo. As imagens fazem relembrar o clima herético do final da Idade Média.


As partes média e inferior do quadro são ocupadas por magníficas figuras diabólicas, em parte humanas e em parte compostas por animais, plantas ou objetos. 
Em baixo e à direita, uma mulher-árvore de rosto azulado cavalga uma ratazana e embala uma criança.
É este painel que transmite a mensagem essencial da obra. Estamos rodeados pelo mal. Só com a renúncia às coisas do mundo e com a ajuda de Cristo se pode alcançar a salvação.


A pintura de Jerónimo Bosh, efectuada à volta do ano 1500, terá influenciado movimentos artísticos surgidos cinco séculos mais tarde. Curiosamente, Salvador Dali também pintou as Tentações de Santo Antão. 



Fontes:
Adams, R, Victor, M. e Ropper,A. Principles of Neurology. McGraw-Hill,1997.


Suárez, Isabel Morán. El fuego de San António. Estudo del ergotismo en la pintura del Bosco. Asclepio. Vol. XLVIII-2-1996. Recolhido em http:/Asclépio.revistas.csic.es
Imagens: Internet

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