Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

       
         BOCAGE, MOLIÈRE E OS MÉDICOS



Estando a preparar um pequeno estudo sobre Bocage, tive oportunidade de rever parte da obra do poeta setubalense. Tropecei numa série de curtos poemas satíricos apontados aos médicos. Eis um deles:
            Aqui jaz um homem rico
                 nesta rica sepultura:
                 escapava da moléstia,
                         se não morresse da cura.

   Lembrei-me de Molière (1622-1673). 



     O comediante sofreria duma forma crónica de tuberculose pulmonar que o obrigaria a consultas médicas repetidas durante as quais teria podido observar a conduta profissional dos clínicos da época e constatar as limitações das terapêuticas prescrita. Ridicularizou-os em diversas peças de teatro.
    Os médicos tinham grande visibilidade social e expunham-se facilmente a críticas e sarcasmos. Constituíam uma classe profissional bem diferenciada, com formação universitária. Vestiam de forma especial e comunicavam mediante uma linguagem técnica repleta de expressões latinas incompreensíveis para o doente comum. 
   As possibilidades terapêuticas eram limitadas. Constavam de sangrias, clisteres, purgas, vomitórios e aplicações de ventosas, complementados com uma grande variedade de poções, xaropes e unguentos, associadas a prescrições dietéticas.
   Ao longo dos séculos XVII e XVIII, curavam-se as doenças que tinham evolução espontânea favorável e alguns padecimentos cirúrgicos. Não raras vezes, a agressividade terapêutica agravava a enfermidade. Lembre-se a cena final de «O doente imaginário», com a imposição do barrete e da toga a Argan. «Com este barrete, venerável e douto, dou-te a virtude e o poder para medicar, purgar, sangrar, abrir, cortar e matar de modo impune em todo o mundo.» Curiosamente, os clínicos pareciam formar boas imagens deles próprios e tratavam os doentes com alguma sobranceria.
    No começo do século XVII, a medicina começou a libertar-se da prolongada herança galénica. Aos grandes estudos anatómicos renascentistas, seguiram-se avanços fisiológicos que incluíram o entendimento da grande circulação.
O conhecimento da fisiologia da respiração teria de esperar pela descoberta do oxigénio por Lavoisier, no século XVIII. 
  A invenção do microscópio permitiu a identificação dos glóbulos vermelhos, bactérias e protozoários e deu oportunidade ao fisiologista Malpighi de estudar a histologia de vários órgãos. 



   Seguiu-se Morgagni, criador da Anatomia Patológica, que ajudou a localizar as doenças em órgãos específicos. Poucos anos volvidos, Bichat entendeu que as doenças se instalavam em tecidos e não em órgãos inteiros.
 Os meios de diagnóstico também se foram aperfeiçoando. Thomas Willis identificou a presença de açúcar na urina de diabéticos.



   Boerhaave adaptou o termómetro à prática clínica e Laennec inventou o estetoscópio.



A terapêutica médica conheceu avanços decisivos.
Muitos deles tiveram origem na Inglaterra. Thomas Sydenham propôs a utilização da casca de chinchona, que continha quinina, para tratar o paludismo.



    O cirurgião naval James Lind demonstrou que os citrinos curavam o escorbuto, uma doença devastadora nas viagens navais de longa duração. 
   William Withering, método e botânico, adaptou a digitalis (extraída da planta dedaleira) ao tratamento da insuficiência cardíaca.



 Foi ainda um inglês, Edward Jenner, quem popularizou a vacina contra a varíola.
A Medicina evoluía e tornava-se eficaz. Foi, entretanto, lenta a aplicação dos avanços científicos à prática clínica. Lembremos que William Harvey se queixou de ter perdido doentes depois de publicar o resultado dos seus estudos sobre a circulação sanguínea.
Muitos clínicos resistiram à introdução de ideias novas. As práticas tradicionais não deixavam de ser seguidas. A sífilis, por exemplo, continuava a ser tratada com doses eventualmente fatais de mercúrio, enquanto a «teriaga» de Galeno, que se compunha de mais de setenta ingredientes e tratava quase tudo, para além de neutralizar a maioria dos venenos, era preparada correntemente nas farmácias. A prática da sangria foi corrente na Europa durante o século XIX.




  Ouçamos agora Manuel Maria Barbosa du Bocage:

Lavrou chibante receita
um doutor com todo o esmero;
era para certa moça
que ficou sã como um pêro.
«Tão cedo! É milagre!» (assenta
a mãe, que de gosto chora).
«Minha mãe, não é milagre,
Deitei o remédio fora».


       Homem de génio impaciente,
       tendo uma dor infernal,
       pedia para matar-se
       um veneno ou um punhal.
       «Não há (lhe disse o vizinho
       velho, que pensava bem) 
       não há punhal nem veneno;
       mas o médico aí vem.

Muitas vezes, as críticas teriam razão de ser. Lembro uma frase que o Dr. Valadas Preto (em cujo Serviço fiz parte do Internato Geral) gostava de repetir, em situações em que o doente melhorara espontaneamente, ou mesmo contra os efeitos das prescrições clínicas: «Graças à sábia medicação instituída…»

           

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