Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

     DE HUMANIS CORPORI FABRICA


             UMA INTRODUÇÃO À OBRA DE VESÁLIO


                                                                                                 III



   A Fabrica representa, para alguns historiadores, o início da Medicina moderna. Quando a fez publicar, André Vesálio tinha 29 anos. Durante o resto da sua vida, o grande anatomista pouco mais produziu.



Que razões o terão convencido a investir tanto nesse projecto? Que causas o terão levado a abandonar tão cedo a investigação científica e a carreira universitária para se tornar médico da corte?
Não se conhecem todos os motivos.
O próprio Vesálio refere alguns deles. Escreveu que a Medicina constava de três partes: medicamentos, dieta e o «uso das mãos». Ao falar das mãos, referia-se obviamente à prática cirúrgica, para a qual os conhecimentos de anatomia tinham uma importância determinante. André Vesálio pesquisou e fez desenhar gravuras anatómicas que proporcionassem aprendizagem mesmo aos que não tinham acesso à disseção de cadáveres. 
   A meu ver, Vesálio queria ser médico. Pretendia tratar doentes. Poderia, contudo, ter feito isso em Pádua.




 O anatomista deu precocemente  conta dos erros que enfermavam a obra de Galeno. Claudio Galeno foi um grande médico e um grande cirurgião. Os seus seguidores, em vez de se inspirarem na sua capacidade de recolher informações por observação directa, fizeram dos seus ensinamentos «bíblia». As suas obras, traduzidas em hebraico e árabe e retraduzidas para latim, foram praticamente incontestadas durante os treze séculos que decorreram entre a sua morte e o nascimento de Vesálio. Para que se desse a evolução nos conhecimentos médicos, era necessário romper com o passado. Tornava-se indispensável criticar Galeno. Era tempo de substituir os dados (tantas vezes falsos), recolhidos das dissecações de animais diversos, pelo estudo directo da anatomia humana.



 Era o espírito científico a desabrochar. André Vesálio descreveu estruturas antes desconhecidas e corrigiu erros assumidos como verdades havia séculos. Enganou-se algumas vezes, como era natural. As suas imperfeições seriam corrigidas progressivamente pelos anatomistas que se lhe seguiram, como Realdo Colombo, Gabriele Falloppio, Fabricio d`Acquapendente e Bartolomeo Eustáquio. 


                       Realdo Colombo
  Pensou preparar um livro de Anatomia em parceria com Miguel Ângelo





Eustáquio

 De certo modo, foram todos «anões aos ombros dum gigante».
 A publicação da Fabrica foi dispendiosa e o salário dum jovem professor da Universidade de Pádua não seria suficiente para um projecto desse fôlego. A imprensa contava com pouco mais de meio século de existência e era cara. As xilografuras de elevada qualidade terão custado a André Vesálio os olhos da cara. Não consta que se tenha endividado. Vesálio provinha duma família de médicos e farmacêuticos. O pai trabalhara na corte do imperador Carlos V. O anatomista teria fortuna pesoal. Parte dela terá sido consumida na publicação da Fabrica.


  Embora pareça redutor considerar o livro De humanis corporis fabrica apenas como um investimento visando compensações futuras, profissionais e económicas, o desejo de promoção pessoal não deve ser relegado para lugar secundário na motivação das grandes obras humanas. André Vesálio pretendia reconhecimento e proveito. O ensino de Anatomia e Cirurgia na Universidade mais importante do mundo dar-lhe-ia certa visibilidade, mas é provável que o cargo de médico da corte do imperador fosse, na época, o emprego mais apetecível para um médico ambicioso.



Os ensinamentos de Andreas Vesalius Bruxelliensis influenciaram a prática cínica de todos os médicos que trabalharam no meio milénio que se seguiu. Incluo-me, obviamente, entre eles e presto homenagem humilde à sua obra imperecível. Sou, contudo, obrigado a supor que a História da Medicina moderna teria começado mais cedo se os trabalhos anatómicos de Leonardo da Vinci tivessem sido publicados. 


 Lembro que Leonardo efectuou as suas últimas disseções em cadáveres humanos em 1514, o ano do nascimento de Vesálio.


  




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