Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

HISTORINHAS DA MEDICINA

Lembro-me de ter ouvido alguém perguntar por que razão as rádios, as televisões e os jornais divulgavam apenas notícias más. A resposta é simples: as pessoas interessam-se mais pelo que choca e angustia. Relatos das vidas que vão correndo bem não interessam aos jornalistas. A felicidade é valorizada apenas quando se perde.
Em tempos, juntavam-se pequenas multidões à entrada do “Banco” do Hospital de S. José. Entretinham-se a ver chegar as ambulâncias que iam descarregando dores, preocupações ou desgraças.
Quem trabalhou numa grande Urgência hospitalar foi obrigado a assistir a muitas tragédias e a testemunhar comportamentos humanos extremos.
Há cerca de um quarto de século, eu estava ocupado a observar os traumatizados de crânio menos graves, instalados precariamente em macas dispostas lado a lado ao longo da parede do corredor. Ao começo da manhã, contavam-se frequentemente duas e três dezenas. Era preciso desviá-las para ganhar acesso à cabeceira dos doentes.
De súbito, abriram-se estrondosamente as portas que davam para o “balcão” e irrompeu pelo corredor da Urgência uma maca empurrada por dois jovens bombeiros enervadíssimos. A corrida terminou junto à parede do fundo, por não haver mais para onde ir.
Médicos e enfermeiros aproximaram-se rapidamente para cuidar do presumível doente. O que viram impressionou até os mais experimentados. A maca continha os despojos de um homem de meia idade trucidado por um comboio. Os pedaços vinham todos, mas ninguém perdera tempo a reconstruir aquele “puzzle” macabro. Um pé e um membro superior, decepados, tinham sido colocados junto ao tronco. A cabeça fora arrumada entre os joelhos, para não cair.
Quando viram as batas brancas, os jovens bombeiros caíram neles. Acho que nem proferiram palavra. Tão pouco foi preciso dar-lhes indicações. Encetaram uma retirada humilde e lenta, para fazerem certificar o óbito no “balcão”. O cadáver pôde então seguir para a Medicina Legal.
A equipa de serviço contava com excelentes profissionais, mas nenhum estava habilitado a fazer milagres.

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